28 de julho de 2010

Depois de uma passagem pelo facebook a meio de uma insónia...

... acho que estou preparada para escrever mais um capítulo do Tratado Anti-Tesão. Ele há com cada cromo.

26 de julho de 2010

A pergunta que se impõe (e não me sai da cabeça).

O que é que eu tenho para dar ao mundo que mais ninguém possa dar?

20 de julho de 2010

Da inevitabilidade.

Não se segura o riso, não se seguram as lágrimas. Coração na mão, alma na mesa, mesmo ali ao lado do copo de sumo de laranja com maracujá. O maracujá dá sono, pensei. Mas não disse. Quero ajudar as pessoas a não deixar fugir a imaginação, a não deixar de ver cães com asas e céus cor-de-pastel-de-nata. Quero ajudar a crescer na alegria, no riso, no amor. Sabes bem que foi para isso que nasci, para dar aos outros e para ajudar a crescer. Sabias isto desde sempre e esperaste até ao fim do jantar para me trazer a resposta das coisas todas que já sabias, mesmo que não soubesses que sabias. Há uma página por escrever, a primeira das páginas todas. A primeira página das histórias do primeiro namorado de rabicho piroso que na década de noventa tinha uma pinta descomunal. A primeira página das dores de coração que se alastram para a garganta e me prendem a perna esquerda em dor ciática (tive vergonha de te contar). A primeira página de uma história de um amor de caserna que é o nosso, porque sabemos que se não nos tivéssemos encontrado hoje teria de ser amanhã. Porque o mundo era um sítio muito pior se não te tivesse por perto para me dares a mão ao coração e para me contares uma história que começa com "my dog". E eu a comover-me com cada palavra que te saía das mãos porque o meu cão tem mesmo asas. E o meu coração também. Por isso é que é bom e tem coisas para dar, porque pode voar para longe e trazer-te lá dentro, porque podes voar para longe e ficar aqui. Porque há dias em que, às vezes à noite, me salvas a vida. E isso é infinitamente maior que falar da inevitabilidade de estarmos na vida um do outro. Obrigada Rui.

14 de julho de 2010

O país dentro de mim.

Dentro de mim há um país. Povoado de gente estranha, singular, excessiva, um circo de cores e vozes, de gente feliz que dança e corre de pés descalços. Dentro de mim há um país sem regras nem leis que não as do sorriso, da paz, da alegria, do fazer crescer, do correr atrás dos sonhos, do imaginar, do voar tão alto quanto quisermos. Dentro de mim há um país de vegetação imensa, fulgurante, viva, colorida, de sequóias gigantes e nenúfares mínusculos. Dentro de mim há um país de mil línguas e dialectos, linguagem gestual e coisas que não precisam ser ditas porque essas são mesmo aquelas que é preciso saber. Dentro de mim há um país sem fronteiras, sem muros, sem rei, sem arame farpado. Dentro de mim há um país sem guerras, só batalhas, convulsões que se fazem para proteger a geografia interior das invasões que o podem destruir. Dentro de mim há um país de histórias de gente que tropeça e vem cá parar, um país de memórias boas que as más são para guardar no seu lugar: nas histórias e fábulas que se contam às crianças para que aprendam a distinguir o certo do errado. Dentro de mim há um país de portas abertas, outras portas fechadas no trinco sem dar a volta à chave, de janelas abertas sobre o mar, de tapetes e soalhos de madeira velha polida pelo tempo. Dentro de mim há um país de sonhos, de coisas que se vê acontecer num futuro próspero e de paz. Dentro de mim há um país feliz, bom, enorme, com tudo por descobrir. Dentro de mim há um país. E só quero voltar a encontrar o caminho que vai lá dar.

9 de julho de 2010

28 de junho de 2010

Porque sim.

Hoje cheguei ao meu carro e estava coberto de flores roxas das árvores da minha rua. Fez-me pensar que há dias que começam de forma muito poética. Lá no fundo, tenho um lado poético-pastoril.

Hoje vi um pássaro grande carregar um pássaro mais pequeno, uma autêntica cena de caça em plena cidade. Fez-me pensar que dentro de cada espécie devia haver um código de honra: pássaros só deviam poder caçar ratos, gatos só deviam poder caçar cães, ursos só deviam poder caçar pumas, póneis só deviam poder caçar coelhos. Mas a vida não é assim, a vida é desarrumada e com poucas regras e códigos. Lá no fundo, tenho um lado existencialista.

Hoje almocei no restaurante de uns amigos e senti que, se eu quisesse, fariam um prato ou sobremesa especial, só para mim. Fez-me pensar que há dias que se tornam excepcionais só por causa de pequenos detalhes. Lá no fundo a única coisa que me seduz realmente são os pequenos detalhes.

Hoje vim do trabalho a guiar com música alta, a cantar a plenos pulmões, divertindo os condutores dos carros ao meu lado. Fez-me pensar que o que levamos de facto da vida é isso: divertir o mundo, divertirmo-nos com o mundo.

Hoje escrevi num e-mail para uma amiga as palavras "só porque sim". E continuo a acreditar piamente que, apesar das coisas intelectuais e estratégicas que me apaixonam na vida, "porque sim" continua a ser a melhor resposta do mundo. Por isso apeteceu-me vir aqui escrever, procrastinar o trabalho que tenho para fazer, só porque sim.

24 de junho de 2010

Desabafo.

Tenho tantas saudades dos meus amigos. 
As saudades doem-me sempre nas plantas dos pés e é difícil andar para a frente.

16 de junho de 2010

Desculpas em papel azul de 25 linhas.

A primavera amolece os corpos e os espíritos, suaviza as arestas. A mim virou-me a vida do avesso e remeteu-me ao silêncio de quem tem muito para dizer mas não tem mãos a medir. Perdoem-me os meus adorados leitores a rude e prolongada ausência. Deixo a promessa de melhores dias e do regresso às lides verbais na próxima estação. O verão trará o sol a brilhar e mergulhos frescos no mar. Isso eu sei. 

Deixo por isso, depois de fechar o último documento de trabalho há minutos, uma carta de desculpas, 25 linhas finas impressas em papel azul, a selar no tom operacional e burocrático no qual me tenho visto submersa. É que esta coisa de vender ideias às vezes tem a chatice de gerar listas intermináveis, escritas a lapiseira 0,5, frases encavalitadas que dizem o que falta fazer - chamam-lhe "fazer acontecer". Eu por mim tinha as ideias e passava ao próximo, mas há que dar o corpo ao manifesto. Entretanto vou pondo mãos à obra e afastando do cérebro a vontade imensa de me imolar, de fazer cortes a x-acto entre os dedinhos dos pés, de ustular cada milímetro daquela pele fininha por dentro dos braços e de rezar para que os aviões que me transportam de cidade em cidade caiam e se desfaçam em mil bocadinhos. Se nada disto acontecer até ao verão voltarei. Prometo.

1 de maio de 2010

O tempo.

Ando outra vez às voltas com o tempo, com a forma como ele se esvai por entre os dedos e quanto mais o tentamos agarrar mais rápido escorre por aí abaixo. As últimas semanas de trabalho têm sido muito duras, muito agitadas, intensas e parece que o tempo todo é sempre insuficiente. Há tantas coisas por fazer, todas prioritárias - já deixei para trás as urgentes e as adiáveis, só tenho em mãos as prioritárias - e o tempo passa sem sequer dar por ele. E esta minha velha amiga, a ansiedade do tempo, a urgência, a pressa - cabra - que volta sempre para me agitar porque ainda não tratei dela. Estou cada vez mais convencida de que o universo nos traz as mesmas encomendas várias vezes na vida - e continuará a trazê-las - até sermos capazes de as resolver. Encontrarei no percurso esta ansiedade tantas vezes quantas forem necessárias para, de uma vez por todas, aprender a lidar com ela. E a pressa é solitária: corre sempre em sprint e angustia-se a olhar para trás e a perguntar "ainda estás aí?". A pressa agita, atropela, segue, tem prazer no vento que bate na cara. Mas não deixa de ser solitária. A pressa é uma cabra safada que dá uma no cravo o outra na ferradura: faz-me sentir viva e mata-me por dentro.

Mas nem tudo é pressa e ansiedade. Há por aqui uma espécie de paz, fora do trabalho e do bulício dos dias. Há uma paz em casa, onde é vital - dessa ainda não consigo falar aqui, ainda não tenho as palavras. E sei que é essa paz que tenho de proteger. É urgente protegê-la, tenho pressa de a proteger.

Trecho de uma carta a um amigo

"Fazer isto é ser fiel às coisas em que acredito: fazer. agir. andar para a frente. ser agente de transformação. ser motor e gasolina. (...) Sei que tenho de fazer isto. Porque nasci para limpar, para fazer crescer, para empurrar, para puxar carroças, para lidar com empresas e pessoas com potencial e, como tu dizes, "pegar nelas" - lembras-te quando dizias que "devia haver um gajo qualquer a pegar em mim"? Talvez hoje já saibas (pelo menos um bocadinho) que temos tudo em nós, as respostas todas. E que por isso podemos saltar para o vazio se o nosso instinto nos disser para o fazer. Porque o instinto, esse cabrão, é quem nos fala a dizer quem somos, é quem nos guia e nos diz que não faz mal nenhum arriscar, empurrar, puxar. Porque só assim é que se faz movimento. Tudo o resto é ficar parado."

E, quando penso nisso, acho sempre que digo as coisas importantes às pessoas importantes enquanto escrevo. E descubro coisas em mim à medida que o faço.

Hoje é dia do trabalhador.

Por isso vou trabalhar.

20 de abril de 2010

Hoje é um daqueles dias.

Hoje é um daqueles dias em que só me apetece deixar-me ir no marasmo e deixar de nadar contra a corrente. Hoje é um daqueles dias em que só me apetece não ter de fazer, façam com que as coisas apareçam feitas e tratadas, truque de prestidigitador. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece decidir e hoje, só hoje, decidam tudo por mim: da escolha do almoço à palavra final no projecto. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece aconselhar, apoiar, guiar ou conduzir, guiem-me, olhos vendados em confiança cega como a justiça. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece pôr um pé à frente do outro, ponham-me rodas e empurrem-me rua abaixo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece fazer o jantar, ponham-me um funil como se fossem fazer paté. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece impor ritmo, digam-me só que música tenho de dançar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir a porta do armário e escolher, vistam-me uma coisa qualquer só para não ir para a rua como vim ao mundo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir nem fechar, subir nem descer, empurrar nem puxar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece falar, deixem-me só aqui sossegada com os meus botões que já há vozes demais. Hoje é um daqueles dias em que foi o dia todo ao contrário do que me apetecia. Amanhã vai ser melhor.

18 de abril de 2010

Apercebi-me agora...

... que estive 11 dias sem publicar nada neste fórum. Shame on me (esta não é alheia, é minha mesmo).

Vergonha alheia.

Sofro de um mal que muito me aflige: a vergonha alheia. Quando menos espero há uma crise que me assalta e me contorce as entranhas. Não sou habitualmente capaz de prever quando vai acontecer, aparece muitas vezes sem aviso e sem sintomas. Não tenho como dizer "acho que estou a chocar uma crise de vergonha alheia". E não há panaceia que me valha. Sempre que acontece, à semelhança de crises de urticária e insónia, não há muito a fazer: respiro fundo, franzo a testa e, sempre que possível, escondo a cara na gola de um casaco ou numa almofada. Esta coisa da vergonha alheia é embaraçosa e cansativa: já não me bastam as vezes todas que faço eu própria figuras tristes e me envergonho, também tenho de me envergonhar com as coisas dos outros. Foi mais ou menos isso que me aconteceu ontem, deitada no sofá, a ver o novo programa do Herman José.

7 de abril de 2010

Dá-me um certo alento...

...esta coisa de estar de janela aberta a ouvir ensaios entusiásticos de marchas populares. Já me sabe a sardinha assada, já me cheira a manjerico.

10 desejos para amanhã.

1. pés descalços na relva.
2. beijos molhados de mar.
3. bolo de cenoura da avó laurinha.
4. amigos e tempo para jogar conversa fora.
5. sessão das sete no Barbican.
6. choco frito do Domingos.
7. ping pong de ideias surreais e impraticáveis.
8. por-do-sol a saber a gin tónico com pepino.
9. sobrancelha franzida da sobrinha.
10. cansaço de praia ao fim do dia.

*vai ser um dia difícil, só me restam estas viagens de espírito.

6 de abril de 2010

Jacques de la Palice em versão de profundis.

Estar aqui é ser deste lugar.

Do sítio das coisas selvagens.

Assaltou-me ontem a frase do filme: "I want you to be kind forever Max". Entrou-me de rompante na cabeça, como um aviso, uma premonição. Ser-se amável, bondoso, generoso, de coração aberto é provavelmente uma das características que mais me fascina nas pessoas. É um percurso difícil, o do amor. Sermos capazes manter limpo o coração e continuar a acreditar em coisas boas. Porque é fácil tornarmo-nos amargos e cínicos à conta de tanta paulada e lixo que a vida nos traz, é fácil ser-se mordaz e corrosivo, desconfiado e pessimista. Difícil e louvável, acredito, é ser-se capaz de aceitar o outro com as heranças que se traz, com as coisas menos boas, com os defeitos, com a bagagem. É aceitar-se de peito aberto o que as viagens alheias provocam na nossa viagem, o que os tropeções dos outros nos trazem de lição. E abraçar o erro, o medo, a bagagem, a herança. De peito aberto, sem listas ou regras de como deve ser. Por isso é que, quando for grande, quero ser maior.

5 de abril de 2010

Com toda a humildade vos digo...

... faço minhas as palavras* do Lobo Antunes:

"Falo pouco, fico calado, a sentir. Dizer o quê? Se pudesse abrir o peito às pessoas e mostrar o que está dentro. Quanto mais gosto das pessoas mais emudeço"

* A verdade é que não falo pouco, falo que me desunho. Mas no essencial falta-me o verbo.

1 de abril de 2010

Da primavera.

Não são as flores ou os polens. Não são as abelhas. Não é a relva fresca a despontar debaixo dos pés. Não são as avenidas largas com nevoeiros feitos de esporos brancos no ar. Não são as andorinhas que fazem a primavera. Faz-se por dentro. Faz-se coração em sobressalto, pequenas apneias dos dias. Faz-se sorrisos sem razão de ser. Faz-se formigas nos pés. Faz-se borboletas na barriga. Faz-se fogo e lume que não se vê. Faz-se olhos. A primavera faz-se nas pontas dos dedos, faz-se ali a meio caminho entre a barriga e a garganta, faz-se na pele de galinha. Faz-se a primavera no desassossego sossegado das coisas boas que nos surpreendem ao virar da esquina. Faz-se nas coisas que olhamos na conclusão surpreendida de que sempre estiveram ali. Faz-se herança de coisas que foram e saudade do que está para vir. Faz-se coisas novas incrivelmente familiares. Faz-se pequenos nadas que afinal são tudo. Faz-se gestos que, de tão simples, não cabem no mundo. Faz-se passo-de-mágica. Faz-se silêncio que não nos faz mal. Faz-se palavras que se dizem sem se dizer. Faz-se primavera por dentro, para condizer com a que se faz por fora. 
Encontrei as palavras. Afinal, trago a primavera na ponta da língua.

31 de março de 2010

29 de março de 2010

Da ausência.

Os meus queridos leitores que me perdoem a ausência, mas na última semana têm-me faltado as palavras. É raro isso acontecer, mas não sei sequer começar a explicar o quão maravilhoso isso é. Por isso deixo três linhas a dar sinal de vida e a celebrar a comunicação não verbal. Voltarei a breve trecho para vos voltar a falar do amor e outros fatalismos.

24 de março de 2010

Está na cara.

Na cara de cordel.

23 de março de 2010

A minha vida não é minha.

Soube-o desde sempre. Trago esta ideia dentro de mim mesmo antes de ter nascido. Sei-o como quem sabe pôr um pé à frente do outro para andar, sei-o como quem sabe procurar água quando tem sede, sei-o como quem foge quando vê o perigo. Sei-o. Sei que a minha vida não é minha e que nasci de mãos abertas. Parece críptica esta ideia, mas na verdade nada há de mais simples, de mais elementar. Nada há de mais puro, mais bonito, mais verdade. Saber que a minha vida não é minha e que o meu potencial só se realiza nos outros é um caminho duro mas verdadeiro. É um caminho solitário mas que me enche por dentro. Nascer de mãos abertas é, provavelmente, o maior privilégio de todos. Nascer para entregar a vida é trazer por dentro a gratidão, a transparência, a humildade, a generosidade. Sem peneiras, sem superioridade, sem maldade, sem arrogância. Não é altruísmo, de todo - é saber que se é feito para os outros, pelos outros. E tirar o maior prazer e a maior realização disso. É uma construção do "eu" no outro, é a realização da nossa humanidade no projecto humano de quem está ao nosso lado. Não é esoterismo, é real, palpável, imenso e físico. É vital. E ter descoberto isso sobre mim foi a maior revelação de todos os tempos. Tinha 17 anos quando o descobri, construí e depois perdi o pé, perdi-me de mim. Fiz recentemente ruir todo um caminho de fuga a isso e na desintegração recomecei a trilhar. Na ruptura olhei para o espaço que tinha preenchido com outras coisas, outras vidas. E esvaziei-o. E é esse vazio que trago - não para ser cheio mas para ser protegido, para ser veículo das coisas que tenho de fazer. Tenho sorte. Tenho a sorte de fazer profissionalmente uma coisa que me permite usar isso, explorar isso, seguir o caminho, o meu caminho. E celebro essa sorte todos os dias, nas pequenas coisas que fazem valer a pena ser hoje. Porque sim.  

21 de março de 2010

Erro de raccord.

unhas pintadas + montar estores.

Ele é que a sabe toda.

O amigo às vezes à noite é que a sabe toda - desculpa Felino, ele ganhou desta vez. A conclusão do mês é que os homens gostam mesmo é de ser maltratados. Apreciam. E isso explica tanta coisa... É que eu não tenho talento para destratar, para ser má com as pessoas, para as massacrar. Sou, apesar de disfarçar bem, uma criatura de amor. Gosto de abraços, de dar colo e coração. Gosto de tratar bem e ser bem tratada, de dar amor e algodão doce. Gosto de estar perto para o que for preciso. Em geral, não maltrato, não desprezo, não espezinho, não evito, não dou patadas, não escorraço, não corroo. E, se calhar, esta coisa toda de ser boazinha e viver na "la-la-land" é o maior anti-tesão do mundo. Enjoa. Isso explica mesmo muita coisa (só me apetece dizer palavrões).

Foi oficialmente inaugurado o festival da pituitária desenfreada.

É primavera.

Do optimismo.

Ser optimista é uma escolha. Não é, de todo, uma predestinação ou legado. É uma opção clara de se viver a vida de determinada forma, de se acreditar em coisas boas mesmo nos maus momentos. É uma forma de ver o mundo, de olhar os percalços de frente e ter a convicção de que vai dar certo. Ser optimista não é não hesitar, não é seguir sempre em frente e ignorar os sinais. E muito menos é colocar palas no olhos e viver a vida como um pateta-alegre - dói-me que este seja o rótulo mais frequente. Ser optimista é procurar e guardar o que de maravilhoso nos acontece nos dias para ser mais fácil gerir o que de mau aparece. É ser grato pelas pequenas coisas boas de todos os dias, é resistir à tendência do cinzento. É fácil estar zangado com o mundo, triste, sorumbático - é aliás essa a nossa herança no fado e na saudade. É fácil estar-se "com os azeites" e dar patadas a tudo o que mexe à nossa volta. Esse é, acredito, o caminho mais fácil. Não nos obriga a ser melhores. Tenho por isso um fraquinho por optimistas porque essa é a verdadeira tarefa: ser-se positivo e feliz quando à volta, nas grandes sendas do mundo, pouco há a celebrar. E só por isso faz-me feliz a sorte de tropeçar à porta de casa numa parede pintada com uma mensagem boa. Simplesmente boa. E isso só por si ser capaz de mudar o rumo de um dia, de restaurar um sorriso nublado numa manhã de sábado - com abraços de amigos que regressam, rebuçados acabados de fazer, flores a sorrir à primavera que começa hoje, bilhetes com bonecos, pequenos almoços com gente de bem, ruas iluminadas pelo sol, risos descontrolados e copos de vinho ao anoitecer. O optimista alimenta-se disto. Dos presentes do deus das pequenas coisas, dos pequenos amores, das pequenas surpresas.

17 de março de 2010

Barriga no fogão.

Acho que me vou candidatar ao Guiness como a criatura que mais jantares serve em casa para os amigos. Faz-me profundamente feliz ter sempre a casa cheia de gente que adoro. Mas o prazer também cansa. Para a semana faço greve à barriga no fogão, quem quiser aparecer que leve pão que eu tenho manteiga.

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.

14 de março de 2010

Amor é...

J.: querida, dá-me um beijo que a tia vai trabalhar, vai escrever.
Sobrinha maravilhosa: na escola?
J.: Não, hoje é num barco, amanhã na lua e depois  na escola.
Sobrinha maravilhosa: É histórias?
J.: Sim, histórias.
Sobrinha maravilhosa: Então é na escola.

13 de março de 2010

Da versatilidade.

Trolha pela fresca, princesa ao crepúsculo.

12 de março de 2010

Mant(r)as

Repito para mim: mantém os pés quentes com uma manta, sê uma pessoa boa, resiste ao impulso  de combater fogo com fogo, mantém o peito aberto, continua a acreditar nas pessoas, dá a outra face, calça os sapatos dos outros,  dá sem esperar em troca, respira, cala-te se não tens nada de bom para dizer.

Ou mais simplesmente: amarra a um sobreiro a cabra que há em ti.

11 de março de 2010

Do prazer.

Cansa-me a análise do prazer. A intelectualização do instinto, do estômago. Isto, vindo de uma criatura hiper-analítica, é obra. Mas a verdade é que me cansa a dissecação intelectual das coisas boas, viscerais, guturais. Cansa-me que se fale de arte como se o propósito único da criação fosse uma mensagem altamente densa e insondável. Cansa-me que se escrevam poemas mais ou menos bucólico-pastoris nas notas de prova dos vinhos. Cansa-me que se dissequem os amores, as paixões, as tesões até se chegar a uma qualquer classificação que, no fim do dia, de pouco serve. Cansa-me que se desconstrua um filme até à exaustão. Cansa-me que se descreva comida como um épico homérico. Cansa-me a dúvida existencial das coisas que se sentem na pele. Cansa-me a coisa-toda-muito-redondinha-cheia-de-razão-de-ser-tudo-muito-no-seu-lugar. Porque a verdade é que, por mais analítica que seja, nada substitui o arrepio, o cabelo desgrenhado, a arritmia, o sorriso involuntário, a estrada sem mapa, o desalinho. Cansa-me que se racionalize o prazer. Das coisas boas. Das coisas simples. Das coisas que são assim só porque sim, que continuo a achar que é o melhor motivo do mundo para se fazer o que quer que seja. Especialmente o que nos dá prazer. E o meu amor pela falha, pela imperfeição, pela ruga e pelo carácter é o que me faz verdadeiramente feliz. O rigor e a estrutura dão-me planta, referente. Mas quem raio é que quer andar sempre rente ao chão?

Só me apetece dizer palavrões.

(sim, estou enxertada em corno de cabra)

8 de março de 2010

Acabei de realizar...

...que da minha cama vejo o céu.

(antes que o meu querido amigo Felino comente: é literal.)

Da comunicação.

Tudo comunica, tudo fala, tudo diz. Desde o início dos tempos, ainda meios trôpegos e curvados, comunicamos. É impossível não comunicar. Tudo em nós fala, mesmo quando não queremos dizer. Contam-se histórias. Umas mais simples, outras mais complexas. Histórias em rede, que se ligam umas às outras. Histórias em bonecos, gravadas à força em paredes. Histórias em vidas que se cruzam e descruzam, de onde todos nós nascemos. Histórias ditas, histórias caladas. Narradas. Criadas. Descritas. Inventadas. Ampliadas. Tudo tem histórias. E para mim, a comunicação não é mais do que o acto de contar uma história, de narrar um propósito, mundos, referências, nuances, detalhes, personagens. E esta convicção, clara como água, cresce em mim a cada dia que passa nesta profissão. O conteúdo sobrepõem-se e sobrepor-se-á sempre à estética. E confesso que acho que isto não é assim tão difícil de entender. É uma história simples.

Dúvida existencial.

Porque será que, salvo honrosas excepções, só me calham clientes completamente alucinados?

7 de março de 2010

Espumante e aguardente velha.

Falou-se ontem de uma metáfora que afinal mais não era que uma constatação literal. Mas eu sou uma criatura de metáforas e hipérboles, por isso fiquei a conversar com esta ideia: o amor* é espumante e aguardente velha.

* sim, voltei a falar de amor, é mais forte que eu...

Da transcendência.

Não acredito na figura paternalista de deus. Não acredito na lei de punição e castigo, em crescer no medo, no arrependimento do pecado, no moralismo. Não sou fã da cegueira religiosa, não sou fã de cegueiras em geral. Tenho uma relação com a transcedência que não emana das figuras montadas e pintadas. A minha relação com a transcendência está, sobretudo, nas pessoas e nos detalhes. Apaixonam-me as pessoas que me dizem coisas, que me fazem sentido. Apaixona-me o riso, o humor, a curiosidade, as frapas, a pequena insanidade, a generosidade, a empatia, a doçura, a convicção, o enleio, o abraço, o desassossego, o peito aberto, a coragem. Apaixonam-me os detalhes pequeninos dos dias: o primeiro dia de sol depois da tempestade, um copo de vinho, a chuva na janela, um riso, uma rua calcetada, as rugas de um velho, uma porta aberta, um jardim na cidade, uma lareira acesa, a cama feita de lavado, um lanche de amigos, o sal na pele depois dos mergulhos, o cheiro de café a torrar, o vento quente depois do sol se pôr.
A minha relação com a transcendência é assim, pão com manteiga dos dias.

Diz que é uma espécie de existencialismo.

Ontem o meu querido amigo às vezes à noite narrava a história de uma mulher que escreveu num blog coisas sobre o amor. Estilo à parte, o conteúdo foi comentado por alguém que despejou um chorrilho de asneiradas que qualificavam a criatura que escrevia sobre o amor como uma encalhada a quem falta... amor (séquementendem). A autora não era eu - esclareço a bem da minha dignidade editorial - mas a carapuça serviu-me em parte: estará este blog a transformar-se numa versão rasca do Sex&The City meets Maria, esse ícone editorial português? Porque, de facto, fazendo um scroll down nas coisas que tenho escrito e fazendo um resumo das minhas conversas mais íntimas das últimas semanas acho que ando a falar demasiado sobre o assunto. Sem prejuízo de continuar a achar que o amor é lindo, prometo tentar diversificar os temas. Apesar de, como todos sabemos, promessas leva-as o vento.

extraordinary minds.





http://www.abeautifulrevolution.com/blog/2009/09/painting-no-8-extraordinary-mind.html

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me saber cantar e fazer um canção sobre o desassossego.

28 de fevereiro de 2010

Baba de cão.

A saudade é como a baba de cão. Come-se com pão.

O amor nos tempos de cólera.

Assalto violentamente o título de um clássico de García Márquez porque há coisas que não me arrogo a tentar dizer melhor. Acredito no amor. Acredito piamente no poder transformador do que sinto ser a energia vital do mundo, força motriz dos dias. Em tracção por peso ou empurrão por expansão - perdoem o fraquinho por geologia e por terramotos - o amor faz e desfaz, constrói e destrói, cura e dói. O amor, em todas as formas e feitios, é bagagem e despojo: trazemo-lo connosco nas histórias que fazemos, abrimos mão por ser a única forma de o ter-ser intrinsecamente. Em tempos de cólera o amor pode inflamar ou ser reduto de salvação, pode cortar ou coser. Em tempos de cólera, quando já pouco se sabe do caminho que se faz, o amor é uma espécie de luz ao fundo do túnel que nos dá a medida exacta do tempo que passou, dos passos que faltam para chegar ou partir. Porque o amor é ponto de partida e ponto de chegada de uma vida, é uma arma para morder os dias e uma manta para o sofá, instrumento de guerra e paz - agora assim de repente assaltei também o Tolstói. Sou feita de amor. Da memória de um amor vencido, da doçura de um amor paternal, da riqueza dos meus amores de caserna, da força de um amor instrínseco pela vida, da catarse do amor pelas letras, da verticalidade do amor pela ciência, da lealdade do amor fraternal, do buraco no peito do amor em potência, da alegria do amor pelo que vou construir, da gratidão pelo amor que o mundo investe em mim. Sei que sou feita de amor (e ocasionais restos do jantar de ontem à noite) e vejo, às vezes obscura outras claramente, a tomografia sísmica do que se faz por dentro: em tracção do amor que pesa e larga âncora e em expansão do lugar onde se guarda o amor. Debaixo da pele, no estômago em cólera.

27 de fevereiro de 2010

Tãobalalão.

Numa semana, há-mais-coisa-menos-coisa-um-ano, a minha vida desabou. Destruí um projecto de vida - a carreira, sempre a carreira. Morreu-me um amigo e levou com ele uma dentada de coração. As paredes da minha casa começaram a apertar, faltou-me o ar. Fui-me embora, fugi a sete pés, fechei portas, virei costas, mergulhei. O meu mundo desabou e, sem saber como nem porquê, passava metade das noites a chorar e a outra metade a rir compulsivamente. Empurrei os meus amigos porta fora, deus-nos-livre-a-todos que me vissem assim, que a minha insanidade se lhes pegasse ao corpo, que a minha demência lhes pesasse na alma. A S' ofereceu-me um sorriso e um livro para crianças que perguntava "o que é a felicidade?". A Rita deu-me a mão no Jardim da Estrela e deixou-me chorar até ao fim do mundo - até hoje não sei quanto tempo ficámos ali. O Miguel distraía-me com histórias dos seus engates e fazia-me rir. O meu grande amigo-amor A. dava-me abracinhos via skype. O Duques sentava-se horas ao meu lado sem conseguir dizer uma palavra e suspirava. Na altura não consegui sentir nada. Sabia-me grata por ter gente linda à minha volta, sabia-me entregue por não estar sozinha. Mas a solidão somos nós que a fazemos e podemos estar no meio de uma multidão e não ser outra coisa que não sozinhos. Não senti nada. Por muito tempo, fui incapaz de sentir o que quer que fosse e por mais que me empurrasse para fora da bolha, sentia-me um penedo, uma fraga. E soltava a lenga-lenga baixinho na minha cabeça: tãobalalão-cabeça-de-cão-orelha-de-gato-não-tem-coração.

Um ano vertido por todos nós abaixo, hoje sou feliz. E ganho, a pouco e pouco, a maravilhosa capacidade de sentir com mais intensidade do que julguei ser capaz. Trago um amor profundo pelos meus amigos, um amor profundo pelas palavras, um amor profundo pelos dias, um amor profundo pelo que faço todos os dias, um amor profundo por poder ir comprar flores a pé numa manhã fria de sábado. Trago um amor. Trago o amor. Sou feliz com a abundância de quem se privou, de quem foi privado. Como quem destrói para construir. Como quem abre mão para segurar. Como quem chega à tona da água quando estava quase-quase a sufocar. Como quem escapa à morte. Como quem vê ruir para ver erguer. Como quem se odeia para se amar. Como quem é grato pela oportunidade maravilhosa de ver os outros sorrir. Sou feliz como só quem foi tãobalalão consegue ser. Feliz como os sobreviventes.

26 de fevereiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me ter 12 anos e dançar um slow piroso numa garagem meia escura.

He's not that into you.

Há um livro escrito por um senhor e uma senhora (Greg Behrendt e Liz Tuccillo): deu um filme; um programa inteirinho da Oprah; uma aparição bastante intensa nesse clássico da vida feminina, a série Sex & The City; uma aparição na série menos badalada Gilmore Girls e uma menção num filme obscuro chamado Zombieland. E não é para menos. Quando o li foi uma imediata lufada de ar fresco sobre a visão romantizada e hollywoodesca que temos das relações e do "antes", da fase de conquista. Profundamente americanizado - na nossa realidade há conceitos que perdem conteúdo - mas brutalmente esclarecedor e imensamente honesto. Amei. Adoro a crueza com que se olha e se escreve sobre uma verdade tão elementar e animal como o "se ele acha graça vai à caça" (a rima foi acidental mas até me correu bem). Ora, eu sou uma criatura relativamente pragmática e algo despudorada, o que faz com que, quando acho graça a alguém, faça questão de o mostrar, nota-se à légua porque a discrição não é o meu forte. A parte tramada é que, numa mulher, isso é perfeitamente contra-producente e na maior parte dos casos é altamente intimidador - o que, confesso, me dá nos nervos - mas acaba por ser uma estratégia válida para separar o trigo do joio. Ou pelo menos, apesar do conselho inverso de um dos meus mais queridos amigos, serve para alimentar o ego de meia dúzia de alminhas que por aí andam, chamemos-lhe um serviço de utilidade pública. Ora, sendo o livro tão esclarecedor, sendo eu uma criatura pragmática com uma crença profunda no amor, sendo esta ideia tão libertadora e, sobretudo, acreditando na transparência e repudiando jogos, não podia deixar de celebrar e partilhar a minha epifania matinal de hoje, citando Humphrey Bogart no Casablanca: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship".

22 de fevereiro de 2010

O amor das coisas que sabem.

Há projectos que me falam ao coração. E de cada vez que isso acontece ilumino-me por dentro com a genuína felicidade de redescobrir o motivo pelo qual faço o que faço. E hoje estou assim, depois de uma reunião à mesa de um café, com canja de galinha e conversas boas. Porque é um enorme prazer juntar num mesmo momento duas coisas que adoro: o que faço e o que se cozinha. E sou infinitamente grata por poder a continuar a cozinhar histórias com prazer.

A melhor idade.

É certo e sabido, poderão testemunhar os meus amigos, que tenho talento para a terceira idade. Não sei se é por ser antiga ou demodé, mas a verdade é que faço sucesso na faixa etária 65+. Terá provavelmente a ver com a minha paixão por histórias, pelo quanto adoro uma boa novela de época. Pode também estar relacionado com o facto de eu gostar de coisas de velhos: cartas escritas à mão, casacos de malha, iscas, genealogia, alfarrabistas. Gosto de ir à praça pela fresca, de ouvir os galos na madrugada (sim, eu sou uma pessoa do campo), de gente à janela, dos velhos sentados à sombreira da porta. Quem me tira uma conversa interminável sobre os filhos que emigraram nos anos 40 tira-me tudo. Quem me tira uma fotografia com as extremidades corroídas ofende-me. Talvez por isso goste tanto de velhinhos. Gosto da experiência que emana de coisas simples, gosto do tempo que passa devagar numa sala com escalfeta, gosto do cheiro dos baús das memórias, gosto da simplicidade com que se olha a vida depois dos 65 - só aí se começa a aprender o que é de facto fundamental. Gosto de coisas velhas, vividas, sobrevividas. E gosto das minhas pessoas assim: com história, com rugas, com marcas dos dias. Gosto das minhas pessoas antigas. Com idade para saber que, como dizia Saint-Exupéry, o essencial é invisível para os olhos. Talvez por isso os velhos e eu vejamos mal.

20 de fevereiro de 2010

Lusco-fusco.

Escorre a chuva na janela e sinto que me podes salvar dos fantasmas, destas alminhas que correm aos guinchos, em bando, a sapatear no chão de madeira oca, assim que o sol nasce molhado. Sei que conheces por dentro e por fora esta coisa de trazer excesso de bagagem em todas as viagens que se faz, por menos t-shirts que se ponham na mochila. Sei que sabes o que é trazer o coração amarrotado e que há vincos que não vão lá com ferro. Precisam de água, de ser lavados, molhados, lambidos. Sei que me podes fazer uma espécie de exorcismo e lavar-me o coração com sabão azul-e-branco. Sei que me podes redimir, ouvir-me em confissão, vinte-avé-maria-dez-pai-nosso-uma-borrifadela-de-água-benta. Sei que não ouves gritos quando me ponho a falar sem parar, quando esbracejo e viro a caneta na ponta dos dedos. Sei que não ouves e não sabes do meu desassossego, dos gestos exagerados para afastar corvos e gaivotas em terra, abutres em voo circular, rasantes, agoirentos. E sabes que há coisas que não te contei e sabes que não o fiz porque não as quiseste saber, senti-o. Ouvi-te dizer que não, a tapar as orelhas num gesto infantil, a abanar a cabeça com os olhos postos no chão. Não sei se sabes, mas esta hora de semi-luz dá-me sempre algum medo, é uma espécie de maré vazante, água que vai. Mas mesmo assim acho mesmo que me podes lavar.

18 de fevereiro de 2010

Do enviesamento.

M.: que bom que já é quinta, este fim de semana não saio da cama senão para ir à casa-de-banho, beber água e comer qualquer coisa.
J.: então? Estás assim tão de rastos com o trabalho?
M.: estás parva? Tenho é um namorado novo e só o vejo aos fins-de-semana.

(J. a sentir-se estúpida pelo crónico enviesamento dos motivos que nos levam a não querer sair da cama...)

Dos detalhes.

Está no paladar, no cheiro, na temperatura. Está na forma de pousar as coisas no prato com um ar entre o cuidado e o acidental. Está num fim-de-boca de anis no leite creme. Está na ponta dos indicadores que ajeitam  uma peça montada num puzzle bem feito. Está numa textura que se derrete na boca. Está no equilíbrio doce-sal. Está na informalidade numa cozinha que não é vedada a quem passa. Está num vinho que se combina com este ou aquele sabor. Está no riso descomprometido de quem faz por amor. Está no provar o sal e rasgar as folhas com a ponta dos dedos. Não preciso de experiências religiosas para saber que deus está seguramente nos detalhes. Está na mesa.

17 de fevereiro de 2010

tripla-ameaça

O que eu me derreto com homens que cozinham bem. O jantar de hoje é um perigo *suspiro*

15 de fevereiro de 2010

♥♣♠♦

Gatocão.

Tenho aprendido algumas coisas sobre homens (não que isso me sirva de algum coisa porque eu teimo em achar graça aos atípicos). Mas entre as explicações do meu amigo Felino e as explicações do meu amigo Às Vezes à Noite, confesso que me perco - estão em extremos opostos. Feitas algumas reflexões cheguei à conclusão que quero um homem gatocão. Independente, arisco, confiante e caçador como um gato - até eu, o cúmulo da independência, aprecio um "anda-cá-que-és-minha". Leal, incondicional e doce como um cão - como diz a Madalena, sou extremamente fofinha (disfarço é bem). Pode ronronar e pôr as unhas de fora. Pode ficar contente a abanar a cauda quando me vê. Pode largar pêlo que eu não me chateio. Pode babar-se de vez em quando que eu tenho dias em que até preciso de um choque de auto-estima. Pode passear-se entre copos de vidro fino sem derrubar nada e pode também partir a loiça toda de entusiasmo. Era bom também que tivesse polegares oponíveis porque agora dava-me imenso jeito que dominasse o uso do black&decker (e já agora que tivesse um porque perdi o meu no divórcio, junto com as cadeiras de praia) e que tivesse um talento nato para montar estantes para livros. E que gostasse de sol e praia que eu não sou de invernos. E que se deliciasse com um domingo no sofá a ver filmes de mantinha - que eu agora tenho um sofá todo catita. E que fosse bonzinho porque eu não tenho grande apreço por sacanetes. E que não se incomodasse por eu cantar no banho (canto mal, mas tenho muita presença em palco). E que gostasse de ficar à conversa até às quinhentas só porque sim. E que gostasse de bonecos porque eu vou finalmente desencaixotar os meus. E que não achasse que eu sou uma perfeita anormal porque gosto de ir à praça como as velhinhas. Acho que estou pronta para pôr um anúncio nos classificados do Correio da Manhã.

Diz-me a verdade.

Acerca do amor. 
É que eu, qual Platão a citar Socrátes, só sei que nada sei.

12 de fevereiro de 2010

Hóra di bâi.

Já com um pezinho em casa, sento-me a ver o último pôr-do-sol na ilha. Acendo mais um cigarro e um sorriso e penso que está mesmo na hora de voltar. É boa esta sensação de tempo certo. Amanhã voo, domingo levanto voo. Esperam-me revoluções, isso eu sei. Algumas planeadas outras sei-as de instinto. E esta viagem foi - mesmo que não o soubesse quando a marquei - no momento exacto em que tinha de acontecer. Como todas as coisas que me aconteceram recentemente. Portas que se abriram, descobertas que foram feitas, acasos cheios de sentido, ideias cheias de acção. E é maior do que posso descrever a sorte que tenho e a gratidão que trago por, como se fosse magia, as pontas da minha vida se estarem a juntar. Mesmo que só na minha cabeça, isso já é muito. Destruí, afundei, fiz ruir. Escavei, agitei, mordi, lutei. Procurei, não encontrei. Achei. E vim aqui para arrumar essas coisas todas e entrar numa porta aberta, uma sala com lume aceso para me receber. Foram umas férias magníficas, independentemente de ter estado doente o tempo todo. Isso pouco importou. Foram tantas as coisas que descobri. Foram tantas as pazes que fiz. Foram tantos os grãos de pó que limpei. Foram tantas as lições que aprendi. Não numa semana, claro. Numa vida. A semana foi o corolário de uma fórmula qualquer que se desenhou na minha cabeça, um brinquedo de encaixes. A semana foi a bonança depois da tempestade, em que se apanham os lixos e se arruma tudo no seu devido lugar. E de tão inesperado e importante que este processo foi fica-me a sensação boa de missão cumprida. De coisa feita, alinhada. Cama feita de lavado para deitar as pequenas revoluções que estão aí a chegar. É bom. Estupidamente bom.

Da minha cama vejo o mar *suspiro*

telegrama

Madalena dorme e contempla o mar stop Joana funga e assoa-se stop

10 de fevereiro de 2010

Acho que vem aí pifo.

Estou sentada no bar do hotel a tratar de mails e outras maçadas de trabalho e o simpático senhor do bar acabou de me vir oferecer um cocktail alaranjado em copo de pé alto. Aceitei para não fazer a desfeita ao senhor, dei um gole e está cheio de grogue - para quem não sabe o que é faça "grogue cabo verde" no google e descobre rapidamente a que me estou a referir... Cheira-me que hoje isto vai dar em pifo valente.

Dez coisas avulso, sem rei nem roque.

1. Ontem fumei um cigarro sentada ao lado de uma cigarra. Ri-me sozinha do pleonasmo.

2. O meu corpo reconhece instintivamente que está em casa e de repente todo o cabelo se me encaracola e a anca rebola involuntariamente quando ando.

3. A Madalena tem medo de bichos. E isto inclui gatos e cães, não só os gafanhotos gigantes.

4. Os apagões no meu casinhoto tornam-se cada vez mais frequentes, tanto que o senhor da recepção, quando me vê chegar, já diz “23.1 sem luz outra vez?”

5. Há um adónis mulato, responsável pela manutenção da piscina, que se passeia qual pavão em frente a nós e faz piscinas em pose atlética, fazendo questão de se virar para que vejamos as suas costas e ombros. Neste ponto é importante referir que a Madalena e eu somos as únicas no hotel com menos de 60 anos, o que nos garante vantagem concorrencial.

6. O mar continua impenetrável. De vingança, tenho nadado tanto na piscina que já quase parece que passei o inverno todo a ir ao ginásio.

7. Depois de três dias ao sol consegui não apanhar nenhum escaldão e já estou a mudar de pantone de pele e olhos - o verão cai-me definitivamente melhor que o inverno.

8. Ontem jantamos bem pela primeira vez porque a Madalena teve a iluminação de sugerir que pedíssemos duas entradas em vez de entrada e prato principal. Genial.

9. Já li três dos seis livros que trouxe. A Madalena e eu já andamos a fabricar contrabandos de literatura.

10. Ainda não fomos à capital, a Vila de Sal-Rei. É aqui ao lado e tem 2.500 habitantes. Estamos a guardar o único programa possível na ilha para fazer num dia que esteja mau tempo e estejamos aborrecidas.

9 de fevereiro de 2010

Peregrinação interior.

Há muitas coisas boas no momento em que se está de férias: a ruptura com a norma, o abandono do quotidiano, a liberdade nas horas e nos lugares, as pessoas que nos acompanham e as que se cruzam connosco, as coisas que se fazem diferente, as coisas que se fazem igual e sabem diferente, a saudade dos amigos que se traduz numa vontade de partilhar os bocadinhos todos de prazer, o peito cheio do bem que sabe de se pôr a leitura em dia, a vontade de escrever que nasce e renasce todos os dias, os olhos que brilham com as coisas mais simples como o dia que nasce lá fora. Mas de todas as coisas boas de estar de férias, acho que o que mais adoro é o tempo. O tempo que não mora aqui, os relógios que desaparecem e a pergunta que não sai “que horas são?”. O tempo que estica e encolhe à medida das coisas que queremos fazer, o tempo que escorre lento entre os dedos. O tempo para arrumar, para perceber, para sentir, para entender coisas que no bulício dos dias nos passam ao lado, disfarçadas de pequenos entusiasmos. O tempo para descobrir. Para nos descobrir da bruma dos dias, da nuvem que se forma com as urgências, do nevoeiro que se faz em frente aos nossos olhos numa luta diária pela sobrevivência moral e emocional. O tempo das férias é um tempo solto, de peito aberto, sem restrições, em que podemos fantasiar e inventar tudo, reinventar a roda e descobrir nessas viagens coisas importantes sobre nós. O Alçada Baptista chamar-lhe-ia peregrinação interior. É aí que estou, peregrina despida de mim, do meu modo de viver e sobreviver aos dias, peregrina de coração puro e peito aberto, olhos levantados e sorriso posto. É aí que estou. A descobrir bocadinhos de mim que não conhecia e a arrumar os que descobri recentemente. É uma espécie de catarse, o fim de um ciclo que se faz e desfaz com o vai-vem do mar. Arrumo hoje para desarrumar amanhã, sei que é inevitável desarrumar-me. Até porque as coisas que estou a descobrir me desarrumam e desconcertam. Mas de uma forma boa e plena. Uma cartografia do coração, descoberta de peregrino.

Das coisas simples.

Gosto das coisas simples. É um riso, uma palavra, um olhar, os pés descalços na terra, o mar indomável das ilhas, os gafanhotos gigantes, o som do vento que não se cala, as folhas pequenas das acácias, os cocos pequeninos que em criança usávamos como munição em guerras de faz-de-conta. Deixo-me adormecer ao sol, com a familiaridade do som ao fundo. Acordo e mergulho para arrancar o torpor e o calor acumulado. Deixo-me ficar à sombra a ler. Faço o caminho de pedras de volta a casa e a luz é-me familiar. Vejo-me criança a brincar, a jogar à bola na areia, a fazer corridas de caranguejo pirata com lanternas na mão. Olho o mar e o céu, respiro fundo muitas vezes e toco, sempre que posso, a textura sedosa da areia - é quase como tentar que aquele bocadinho de chão me fique gravado na pele. Dou por mim a pensar em pessoas que gosto muito. Dou por mim a apetecer-me partilhar estas coisas com alguém em particular. A apetecer-me dizer-te em palavras escritas estas coisas todas que não têm nome, a descrever cuidadosamente um determinado som para que o ouças também. A contar uma história de mar para que te saiba na boca a quantidade exacta de sal. A dizer-te baixinho uma lenga-lenga de criança neste meu dialecto para que herdes as minhas memórias. A despejar-te um punhado de areia num pé para que a sintas quando mexes os dedos. A soprar-te ao de leve nos olhos fechados para que saibas que nas minhas ilhas não há um momento quieto, sem vento. E espanto-me a querer partilhar contigo estas coisas todas, é-me inesperado. E, como dizia antes, não sei se é da moleza que mata fronteiras ou do gin tónico a falar, mas apetecer-me partilhar estas coisas todas contigo é muito maior do que dizer que gosto de ti. Porque gosto das coisas simples.

Da madrugada.

Acordo antes de o sol nascer. Lá fora o mar, incapaz de sossego e silêncio, diz bom dia com ondas grandes e cinzentas. Não tarda nada far-se-á manhã cor-de-rosa e os dois ou três cães do costume vão saltitar praia fora. Há coisas que me fazem feliz, só porque sim. E este momento é uma dessas coisas: é o antes, o sossego, o vazio. É toda a gente que dorme nas suas pequenas casas iguais à minha, cama de madeira, rede mosquiteira, quadro pintado na parede, pequena varanda sobre a praia. Dá-me um prazer que não consigo explicar sair descalça para a areia fria e molhada da madrugada, gosto de acordar com os pássaros, como se também eu começasse a chilrear com a aurora. Gosto do cheiro molhado do dia antes de nascer, do vento frio que me enfia o cheiro a mar pelo nariz. Gosto das manhãs compridas, do café bebido com a cara enfiada num livro que não consigo largar. As ventoinhas de tecto espalhadas pela sala lembram-me a minha casa de infância. O som do riso, das interjeições - nunca soube explicar este som das interjeições em crioulo, mas é um som que me embala. Ouço longe e perto um dialecto falado que é meu. Sei-o de cor, mesmo que não o fale há anos. Sei-me capaz de conversar neste tom, de me rir e de recuperar os “r” de língua dobrada na ponta, os “l” lânguidos, arrastados- Sei-me capaz de ir buscar as expressões monossilábicas de prazer, de pergunta, de confirmação - nunca outra língua ou dialecto que tenha conhecido tem estes sons tão guturais e simples. Sinto-me em família aqui. Não em casa, em família. O cheiro da terra, o som dos coqueiros, a areia fina entre os dedos dos pés, a água dessalinizada para lavar os dentes, a música que entra e sai por todas as frestas, as peles escuras, o brilho nos olhos, o sorriso sempre pronto a abrir. Sinto-me em família aqui. Mesmo de madrugada.

6 de fevereiro de 2010

A mãe manda dizer.

Em criança eu era a pior pessoa do mundo para mandar recados. É um clássico familiar a minha prestação: "Está? Tia, a mãe manda dizer que não está". E hoje é isso mesmo, diz que este blog vai de férias. Portanto não está. Ou pelo menos, mandar dizer que não está. Estará?

4 de fevereiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me um abracinho daqueles que não acabam.

Do amor dos velhos.

De sorriso grande, voz profunda e mãos esguias recebia-nos em casa num abraço apertado contra o fato Chanel coçado e o avental comprado numa loja da Graça. Cozinhava com o prazer das avós e falava com o ímpeto e irreverência contida das mulheres fora de gerações. Num espaço qualquer entre a burguesia e o proletariado, desfiava histórias e ria. Do que mais me lembro é do riso aberto que acabava num sorriso mordaz. Olhava de frente para nós e não condescendia. Quando lia transfigurava-se, era menina, gaiata dos seus doze anos, deslumbrada com a magia de juntar letras para fazer palavras, de juntar palavras para fazer frases, de juntar ideias para fazer dizer. Levantava uma perna para se desviar de uma das pilhas de livros e, ainda não sei como, conseguia não derrubar um tabuleiro de copos vazios. Era também uma espécie de magia, de truque treinado pacientemente nos anos que iam pesando. Olhavam-se nos olhos e transbordava o amor. A nós, na nossa paixão pueril, quase nos envergonhava aquele amor de velhos e sorríamos condescendentes. Sei hoje que não sabíamos nada do amor, só aprendemos mais tarde. Dávamos aos mãos no sofá e ouvíamos embevecidos as histórias dos franciscanos, do teatro, dos calvinistas, da polícia política, dos exílios, da Brasileira, do cinema Paris. Apertava-o num abraço terno - venha cá neta da asinha - e a ela dava-lhe um abraço polido e um beijo leve numa face, como convém à decência geracional. Só anos mais tarde soube que isso pouco importa. Nunca lhe disse que só gostava dos livros dela lidos a viva-voz, sempre fui incapaz de os ler sem a voz rouca e ligeiramente afectada, sem as palavras matigadas uma a uma, perfeitamente ditas num português de cristal. Hoje imagino-os aos dois, sentados frente a frente nas poltronas de couro gasto, a pôr o amor e a escrita em dia, com os olhos molhados da água que parou de correr.

3 de fevereiro de 2010

Frase do dia

Se tu fosses um jogo da playstation chamavas-te "the inverse game".

2 de fevereiro de 2010

Das cerejas.

Anda, fumamos um cigarro antes de ir para casa. O som da pedra do isqueiro quebra o silêncio de uma noite que achava no fim. Como todos os fins, foi um princípio. O fumo sai dos teus dedos em espiral, sobe e enrola-se por nós acima. Fumamos um, dois, dez cigarros. A cada um que apago apetece-me acender outro, não por vício ou tique, mas por vontade de que o cigarro-antes-de-ir-para-casa dure só mais um bocadinho. Entre risos e conversas acho às vezes que te conheço melhor do que é possível. Há coisas que sei sobre ti e não sei dizer. Reconheço de instinto o teu desassossego, o que te tira a paz. Tropeço em cavilhas de granadas que me são familiares. Descubro-te em ângulos que me tiram o tapete, kriptonite dos dias, não fosse eu um geek disfarçado de gente normal. Desarmas-me sem sequer te aperceberes, destróis aqui qualquer coisa de essencial, arruinas sem tentar muros cuidadosamente erguidos e rebocados para ninguém dar por eles. Sei-te na confiança minada. Sei que sabes e sentes que há uma linha clara que só se quebra uma vez. Sei que sabes a verdade essencial de algumas coisas que me são fundamentais. Sei que percebes de instinto que a confiança se constrói passo a passo e que nunca ta reclamarei. Porque sei que sabes que nunca te direi "confia em mim" porque não preciso de to pedir. Faço e farei por merecer. E há coisas que tenho para te dizer. Às vezes não me lembro bem do que é, porque é uma bola que se faz coisa e que um dia se fará palavra e, aí - só aí - vou ser capaz de te explicar o que sei que tenho para te dizer. Porque as conversas são como as cerejas. Têm caroço. Fazem-se semente, largam-se na terra. E talvez um dia - está fora da nossa mão - se façam primavera. Porque às vezes abrir mão é a única forma de alcançar.

Renhaunhau

Ontem foi dia de encontros e conversas, algumas planeadas outras espontâneas. Os meus encontros de ontem souberam-me pela vida. Jantei com o meu amigo Felino, costurámos 26 baínhas e rimos muito. Falou-se de homens, mulheres, de histórias de vida, passados e amanhãs. Falou-se, como não podia deixar de ser, da história da pornografia, dos avós e da genética. Falou-se de amor e querer, falou-se de amigos. E falou-se do nosso tema preferido: a curiosidade. E é engraçado, agora que penso nisso, que quando se gosta de um amigo como eu gosto do Felino, a curiosidade é coisa que não passa. Há tantas coisas mais que tem para me contar, para me dizer, para me ensinar, que eu por mim amarrava-o a uma máquina de costura em chão de pedra e fazia um bolo de chocolate mágico que não acabasse nunca. Obrigada.  

1 de fevereiro de 2010

A solidão da pressa.

A melhor hora parece um minuto. A pior hora parece um dia inteiro. E é esta relatividade que me deixa a pensar que o tempo só se sente, só existe quando não é bom. Porque se quer estar em outro lugar, porque o que está a acontecer não é agradável, porque se está impaciente ou ansioso, porque o que vem a seguir é supostamente melhor. O tempo, na sua dimensão mais real, mais física, mais palpável, é uma coisa que se deixa ficar, que se materializa por cima da cabeça como uma pequena nuvem que nos segura a uma cadeira, que nos amarra a um lugar. O tempo que custa a passar é quase como uma mão invisível que se agarra ao tornozelo e dificulta o andar, correr, saltar por cima de obstáculos. Faz-se muro, faz-se buraco, faz-se desnível no caminho. O tempo que custa a passar faz-se bola de jornal e rebola por nós abaixo. O tempo que custa a passar atravessa-se na passadeira em passo de caracol, arrogante e altivo, age como se não tivéssemos mais que fazer. E, às tantas, percebo a escrever que o meu tempo que custa a passar sou eu que o faço, sou eu que lhe dou corpo e espada, com a ansiedade e a impaciência a borbulhar. Sou eu que deixo que este tempo que custa a passar me faça rasteiras e me puxe o tapete. Porque quando aprender a abrir mão do tempo, a respirar fundo a saber que vai chegar, terei a amplitude do salto de braços abertos e olhos para cima, terei a força do passo seguro. Porque esta coisa de correr e querer tudo-muito-já-muito-agora-ainda-aí-estás é provavelmente a chave para dominar a minha habilidade extraordinária de fazer fugas para a frente. E confesso, aqui que ninguém nos ouve, que esta coisa da pressa intrínseca é profundamente solitária.

31 de janeiro de 2010

Eu domingo

Tu domingas, ele dominga, nós domingamos, vós domingais, eles domingam.

Conclusões sobre o furto (ensinou-me o Agente Marta que só é roubo quando há interacção com o sujeito criminoso)

1. A PSP foi mais eficiente e diligente que a TMN.
2. O Agente Marta é brutal.
3. O ladrão era homem: só isso explica que deixe uma carteira da Osklen para trás, uma mulher perceberia que valia mais que o dinheiro que lá estava.
4. O ladrão tinha mau gosto: levou um casaco piroso de lantejoulas (era uma máscara, ok?) e deixou uma mala verde linda.
5. O ladrão faz compras no Continente e põe gasolina na BP.
6. Hoje já não durmo com o taco de baseball ao lado. Pena, até me estava a afeiçoar.

Não se fala mais nisso.

Eliana.

"Trabalho aqui à noite e de dia sou camionista". De estatura baixa e olhos brilhantes, Eliana desfia histórias de roubos e substâncias colocadas em bebidas nas discotecas. Tem quatro fins-de-semana livres por ano e quando sai à noite não leva carteira. "multibanco, 20 euros e cartão de cidadão. O telemóvel fica no carro". Entusiasma-se com a conversa e larga algumas expressões menos cerimoniosas que denunciam imediatamente a alma ribatejana. Fica feliz quando as pessoas suspiram de alívio por ver as chaves de casa e os documentos, largados na noite anterior numa casa-de-banho, depois de extirpado o conteúdo valioso de uma qualquer carteira. Fala de um documentário do National Geografic em que carteiristas habilidosos fazem o impensável de forma invisível e não consegue disfarçar o misto de fascínio e reprovação. Eliana trabalha na noite há 12 anos e hoje devolveu-me a mala verde, com a carteira vazia, chaves de casa e documentos. Mais do que eu podia esperar.

30 de janeiro de 2010

*suspiro*

Mad Hatter

O Mad Hatter - ou o Chapeleiro Louco - é um dos personagens que mais me diverte nas Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Além de ser completamente excêntrico e alucinado (todos sabemos que eu tenho um fraquinho pelo non-sense), adoro o facto de ter sido condenado à morte pela Rainha de Copas pelo crime de assassinar o tempo. Na história o chapeleiro escapa à decapitação e continua a inventar disparates, como fazer festas de "desaniversário". Ontem fui o Mad Hatter. E tal foi a loucura naquele país das maravilhas, que me desapareceram os parcos haveres - tão avassalador que é o meu guarda-roupa que uma alminha não resistiu à mala verde da Skunk Funk e, por acaso, acabou por levar tudo o que tinha lá dentro que provasse a minha existência, um dinheirinho valente, as chaves de casa e telefone. Qual truque de magia, debaixo das barbas da grupeta que eu acompanhava, a alminha fez um truque de prestidigitador e puffff. Felizmente não tinha lá o passaporte, o que significa que nada perturba a minha viagem de férias (aí sim, ficava louca, com ou sem chapéu). Tudo o resto se resolve - mesmo que a dormir armada com um taco de baseball - não vá a(s) alminha(s) decidir fazer uma visita, já que tem a morada. Pelo menos até que a empresa alemã de nome impronunciável se digne a vir cá substituir o canhão da porta-blindada-mega-segurança-xpto-não-passa-uma-formiga. E a mim, que às vezes me escapa o pézinho para as coisas assim mais para o metafísico, só me ocorre que isto tenha acontecido porque os documentos, telefone e chave de casa eram mesmo mesmo as últimas coisas que faltavam renovar na minha vida. Ao fim ao cabo, ainda na personagem, só me resta rir e perguntar,  Why is a raven like a writing desk? E a seguir responder: não faço ideia.

28 de janeiro de 2010

Da sabedoria.

A minha amiga S' não sabe que é sábia. E às vezes arremessa pérolas de sabedoria sem sequer perceber que se pode demorar uma vida até aprender coisas que ela tem o privilégio de ser capaz de saber hoje. Por entre galões, franjas, croissants do Careca e conversas sérias, deixou-me hoje boquiaberta com uma ideia com a qual vou ficar a conversar algum tempo: o conhecimento e as oportunidades nunca chegam ao mesmo tempo. A minha amiga S' é brutal. E eu sou uma sortuda, infinitamente grata por ter na minha vida pessoas tão magníficas. Farei por merecer. Faço por merecer.

Das orquídeas. Ou como se pode mudar o rumo de um dia.

Já pronta para grunhir nomes feios a quem toca à porta às 8.30 da manhã, arrastei-me de frente da máquina de café onde estava a fazer o exercício de pressão psicológica para ver se o dito descia mais depressa. Por sorte o meu pijama não era dos piores, mas o casaco polar preto cheio de pelos de cão não engana ninguém e não dava, de todo, para fazer de conta que estava vestida para ir correr (as pantufas também não ajudam, mas sempre são mais ou menos discretas). Os cães em alvoroço porque, afinal, a esta hora não se entra em casa, só se sai. Vou à porta, mau-feitio a transbordar - os leitores que me conhecem de perto sabem exactamente como é o meu estado pré-café, uma espécie de silêncio imposto onde nada acontece, um sorriso automático por entre olhos inchados. Pode ser o senhor do correios com encomendas do e-bay, a porteira que não joga com o baralho todo, a V. que se esqueceu da chave, a vizinha do lado a pedir que lhe vá passear o cão à hora de almoço, a senhora do infantário que quer que eu vá tirar o carro para a carrinha da fruta descarregar vitaminas para as pestes anãs que gritam no piso de baixo. Mas nunca por nunca me ocorreria abrir a porta a um sorriso simpático com uma orquídea branca na mão. De repente, entra-me no cérebro dormente a vaga memória de um diálogo entre sorrisos: "a orquídea branca que a Sofie me deu morreu do dia para a noite. Acho que lhe devia fazer um funeral condigno". O senhor, que agora combinava o sorriso simpático com uma ligeira irritação por eu estar a demorar demasiado tempo a processar - provavelmente tinha a carrinha de distribuições mal parada - estica-me o vaso com a orquídea branca viva, uma caixa e um cartão. "Usa a caixa para enterrar o que foi. Trata bem o que agora chega.". E eu, que até sou dada a esta coisa dos poemas de todos os dias, sento-me a beber o meu café, a olhar para a orquídea branca e a escrever neste bloco de notas a conclusão de que há pequenas coisas que podem mesmo mudar o rumo de um dia. Obrigada.

27 de janeiro de 2010

Papel de 25 linhas.

O meu amigo Felino queixou-se, em papel azul de 25 linhas, que o meu blog é tão denso tão denso que demora a carregar (sentido de humor acutilante, como sempre). Como eu gosto de manter os meus leitores satisfeitos, deixo aqui dez notas de ligeireza:
1. Aproxima-se a passos largos o momento de entrar no bikini e realizo que talvez não tivesse sido má ideia ter começado a fazer abdominais em Novembro.
2. Não fui aos saldos e por isso acho que estou a precisar de terapia.
3. Ando a gastar algum tempo a tentar perceber se a Serena de Gossip Girl é "dos bons" ou "dos maus".
4. Tenho investido algum tempo a pensar em homens (ok, num em concreto, mas isso são detalhes que eu quero dar aquele ar de que acho graça a imensa gente quando isso não é bem verdade).
5. Ando maçada com o facto de o meu carro cheirar imenso a cigarros - até comprei uma daquelas árvores dos taxistas e juro que um dia destes a penduro no retrovisor.
6. Penso todos os dias que falta muito pouco para ir de férias e já só consigo visualizar o ritual dormir-comer-nadar-dormir-beber-nadar-comer-dormir. Tudo ao sol, na adorável companhia da Madalena.
7. Apetecia-me não estar entalada com trabalho para poder ir para os parques da cidade rebolar na relva e aproveitar o sol.
8. Ando a namorar duas casas e a adorar a ideia de voltar a montar a minha vida.
9. Apetece-me ir beber copos na sexta-feira e maça-me que ainda seja quarta.
10. Ando a pensar na indumentária para a festa do Lux, sendo que já prometi o fato  de coelho à Sofia.

Ronrona de felicidade o Felino?

26 de janeiro de 2010

Felino, esta é para ti.

O meu reino por uma manicure e uma massagem decente.

25 de janeiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me sentar-me num passeio e não chegar com os pés ao chão.

Angustiazinhas de trazer por casa.

Por melhor que se esteja há sempre uma p&%# de uma angustiazinha de trazer por casa daquelas que se inventam porque afinal estava tudo tão bem e sem pequeninos dramas a coisa não vai lá e eu agora que penso nisso tenho sempre de encontrar uma coisa qualquer que me dê a volta ao miolo porque não sei nem quero nem consigo estar sossegada e agora só agora e depois logo se vê essa angustiazinha tem nome próprio apelido morada e numero de contribuinte e a mim não me sai da cabeça esta incapacidade de a perceber porque tenho sempre de inventar uma coisa qualquer que me faça faltar o ar e falar assim muito muito depressa e escrever um bocado como o rui no seu blog surreal mesmo que isto não faça nada o meu estilo porque eu sou das coisas certinhas e nada de erros gramaticais e faltas de pontuação mas o que é que querem caros leitores que isto está a dar-me nos nervos e como não posso refilar com ninguém neste momento venho para aqui disparar e despejar vitupérios porque me maça esta coisa de não perceber e porque me irrita estar à nora mesmo sabendo que faz parte de crescer e se calhar vocês até têm razão e eu cheguei foi tarde a esta coisa de não entender tudo tim tim por tim tim e tenho é de ficar sossegada no meu canto porque aquele livro americano meio piroso que passou na série das miúdas bem vestidas é que tem razão e ponto final.

Do cheiro.

À terceira vez chegou-me aquele cheiro. Era a terceira vez mas a primeira perto suficiente para me chegar aquele cheiro. Era qualquer coisa com cor, algures entre árvores verdes, café torrado e lençóis lavados. Era qualquer coisa com forma, aquele cheiro. Estava entre o familiar e o novo, entre o sedutor e o desterro. A distância era suficiente para que o cheiro não se colasse a mim mas ficou gravado num lugar qualquer. E de vez em quando aparece-me, aquele cheiro. De vez em quando apanho-o na dobra do cotovelo, outras vezes dentro de um caderno de notas e ainda outras na toalha do banho. De vez em quando prega-me rasteiras, faz-me tropeçar, acelera-me o passo, troca-me as pernas. De vez em quando faz-se vento e entra pelas frestas todas e pelas janelas que, de vez em quando, deixo escancaradas. De vez em quando trepa-me pelas pernas acima, formiga de primavera no parque. De vez em quando escorre-me pelas costas, cabelo encharcado a sair do mar. De vez em quando acorda-me de sobressalto e outras vezes de mansinho, com festas e beijos-sorrisos. Faz-se coisa, aquele cheiro. Faz-se memória de coisas que não aconteceram. Faz-se presença de coisas ausentes. Faz-se vida de coisas que não nasceram. À terceira vez chegou-me aquele cheiro que não me sai daqui.

24 de janeiro de 2010

Das palavras. Do silêncio.

As palavras são fáceis para mim, são quase todas fáceis. E por pensar nisso dei por mim a chegar à conclusão que difíceis são os silêncios que nos caem bem na pele, os alheamentos que não nos fazem mal, as ausências que não nos roem por dentro. Por enquanto só tenho as palavras e os pequenos silêncios entre elas.

Em forma de coisa que sim.

Anda, mexe-te, faz qualquer coisa. Não te deixes ficar aí que me dás nos nervos. Faz-te à vida, treme o chão. Dá um passo: ao lado, em frente, atrás, qualquer coisa. Mas não congeles, não te deixes ficar aí no silêncio. Desassossega-te. Que o desassossego é bom, traz movimento, traz coisas que acontecem e desatam nós. Faz qualquer coisa, um sinal de fumo, um apito, um gesto, que qualquer dia já não sei se aí estás. Mexe-te. Faz qualquer coisa. Ou mexe só um dedo que seja. Uma coisa qualquer em forma de assim, em forma de coisa que vive, em forma de coisa que sim. Dá um laço, dá um nó, desata, dá corda, amarra, solta, larga. Qualquer coisa. Que este fio definido e claro que aqui está vai desaparecer mais dia menos dia e depois é só mais um novelo. Anda, faz. Que eu por mim já não consigo, é um precedente que não volto a abrir. Uma espécie de birra que acordou aqui, que se instalou devagar como uma conversa numa madrugada alentejana. Anda, mexe-te. Faz estações, uma qualquer. Faz temporais ou terramotos, faz brisas suaves ou chuvas de agosto. Mas faz, faz, faz. Que esta coisa do fazer faz-se nota de arranque da música, linha primeira da pauta, entrada em cena. Anda, faz. Faz qualquer coisa em forma de sim.

23 de janeiro de 2010

Vou fazer uma linha.

Nem que seja editorial.

À nora.

Acho que os meus amigos se habituaram a ver-me sempre muito segura, confiante, com as respostas na ponta da língua, com tudo controlado, com um plano feito, com o instinto de ir buscar o que quero, com um mapa mais ou menos exacto de onde vou a seguir, do caminho, do veículo, das paragens. Acho que todos se habituaram a sentir em mim a solidez inabalável da preparação para todos os cenários, do jogo de cintura para lidar com tudo, do estofo para reagir. E nesta nova fase de aprender a flexibilidade, em que não me preocupo tanto com as variáveis e mais com a essência do caminho, confesso que esperava que os meus amigos ficassem à nora por me ver à nora. Confesso que esperava que ficassem à deriva por me ver navegar à bolina. E a parte mais engraçada - e que me apaixona nestas pessoas - é que em vez de ficarem à nora, brincam e espicaçam-me. Divertem-se quando me baralho e não entendo, riem-se quando pergunto e duvido, fazem piadas quando, por instinto e hábito, faço o gesto de pôr o pé na porta (que com um esforço consciente evito). E é também por isso que são tão importantes para mim, os meus amigos: porque têm uma infindável capacidade de me surpreender.

21 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão grande, tão grande que se transformou numa personificação.

Pequeno prolapso da válvula mitral.

É uma anomalia congénita. Herdada ou não, nasceu comigo este pequeno deslize de parte de um corpo estranho, esta deformação do objecto cardíaco. Convenci-me de que nasci assim para ter um coração diferente, para ter um objecto disforme, imprevisível, irregular. É uma espécie de desculpa. É uma espécie de descuido. É uma espécie de alegação que legitima o descompasso. É uma espécie de "porquê", um lugar em que me permito guardar coisas que não têm outras caixas, outros lugares. É um saco azul sem dinheiro sujo, é uma caixa de sapatos debaixo da cama, é o prazer, pequena transgressão na racionalidade vertical de quem sabe que não se mete noutra. É a única parte de mim onde tudo pode acontecer, este meu prolapso. É uma lacuna na lei, uma regra incompleta, uma janela mal vedada, uma fresta quase invisível. É um lugar estranho, o prolapso. Sem regras, sem normas, sem tabulações. É um compartimento escondido na bainha das calças, um bolso secreto no casaco de inverno, uma alça de um vestido de verão. É um tesouro escondido, sem "x" a marcar o lugar, é um mapa incerto, cartografia emocional. É um lugar onde guardo amores e amigos, memórias e olhos fechados. É algures entre a garganta e o estômago, ali a meio caminho de tudo o que é vital. 

19 de janeiro de 2010

A bola.

Foi a segunda vez na vida que comprei a Bola. Sim, o jornal. Sim, o jornal desportivo. A primeira vez que comprei a Bola foi pesquisa - tinha de perceber alguma coisa do mundo do futebol porque tinha de fazer um projecto nessa área. O projecto correu bem. A segunda vez que comprei a Bola - ontem, por sinal - foi para dar os parabéns a um benfiquista. Diz que o clube encarnado fez um jogo bom e fartou-se de marcar golos. Ganhei por falta de comparência. Perdi por falta de comparência. Mas ao menos aprendi que o Ricardo Carvalho está ansioso por reencontrar Mourinho; que o Mourinho, por sua vez, não perdoou o Ibrahimovic por ter ido para Barcelona; que no Brasil, o Santos procura renovar com Léo e que o Yuri está sem limitações. Acho que esta novela compensou o facto de não ter visto o Gossip Girl.

A ideia.

De uma conversa nasceu uma ideia. Vai daí que fiquei a conversar com ela, com a ideia. E o que a ideia me disse é que talvez fosse uma boa ideia ir atrás da ideia. Claro que mudei de ideias assim que percebi que a ideia não fazia ideia da ideia que ia ser. Mas logo a seguir mudei outra vez de ideias porque estava com a ideia de que a ideia talvez até nem fosse tão má ideia quanto isso. Idealmente, uma ideia é uma boa ideia e, caso não se mude de ideias muitas vezes, até é boa ideia ir atrás dela. Conversar com ela. Puxar por ela. Fazê-la ceder. Fazê-la ganhar. Fazê-la perder. Esticá-la até não aguentar mais. E eu sei que isto parece idealista e que talvez nem funcione. Mas só tentando é que sei. Se vai resultar? Não faço ideia.

18 de janeiro de 2010

Da realidade.

Sou de instinto, de impulso. Sou de razão, de lógica. Sou qualquer coisa ali no meio, trapézio montado sem rede, fato de lantejoulas a afinar o corpo dorido. Sou de saltos, sou de voos. Sou de terra, sou de chão. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que não falo, não faço, não dou, não sou. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que digo, que atiro, que atravesso, que arremesso, que ofereço, que mostro, que transpareço. E por mais esquizofrénico que isto possa parecer visto de fora, há uma espécie de razão onde a vida se pode decidir. Um espaço onde a vida acontece e quase se pode respirar. Canso-me. Descanso-me. Arquejo em convulsão, arfo, cuspo, mordo, beijo, lambo, rasgo e toco o dia. Porque esta coisa da realidade é táctil, faz-se coisa e faz-se verbo. Esta coisa da realidade é, nem mais nem menos, tornar real. Tornar-me real. E pode parecer simples, mas às vezes falta consciência e coragem para nos transformarmos naquilo que somos.

17 de janeiro de 2010

Da leveza.

Hoje escrevia alguém:

Tomava erradamente por leviandade a falsa leveza com que ela se passeava pelas coisas. Não era falsa, e não era leviandade.

16 de janeiro de 2010

Como é que se faz?

Como raio é que se conjuga o verbo ir? Como é que se explica que as coisas são afinal simples e ou se está ou não se está? Como é que se diz ao outro que se sabe que a dor não passa de uma estrada de sentido único, sem atalhos, sem cruzamentos, sem tesouras como em Brasília. Como é que se mostra que é um caminho que tem de se fazer, sem desculpas, um quilómetro mais ou menos comprido por onde temos todos de passar. Como é que se evidencia a inevitabilidade dos percursos da dor. Como é que se mostra que há luz ao fundo do túnel e que este caminho vai dar - só pode dar - numa rotunda grande que tem outros caminhos para o que nos espera desde sempre. Como é que se lambem lágrimas a dizer que vai ficar tudo bem e como é que se faz para que outro tenha fé de que vai ser assim. Como é que se diz a certeza de que amanhã vai ser um bocadinho pior, vai pesar mais, mas que isso faz parte de um caminho que sobe e um destes dias o outro acorda e consegue respirar. Como é que se diz sem dizer que se sente a dor do outro como se fosse nossa, não tivesse eu lá estado antes. Como é que se escreve que se sabe que o outro vai ser feliz, mesmo depois disto, mesmo depois de ter visto tudo a ruir, tsunami de banheira, tremor de terra de elevador. Como é que se faz para mostrar ao outro que a felicidade chega com a consciência da dor e do porque é que dói. Como é que se diz que se sabe, porque sim, que um destes dias, inesperado, vai chegar o fim do caminho das pedras e há um arco-íris com um pote de ouro à espera. Como é que desenha a alegria de ver as pernas entrançadas nas outras, de reconhecer a cavilha da granada que se pode puxar e fazer explodir, o cabelo desarrumado na almofada, os olhares esquecidos nos olhos do outro, os dedos descansados na pele, os braços fechados num abraço dormente que não se quer largar, o pé com formigueiro debaixo da coxa, a língua a desenhar bonecos invisíveis. Como é que se explica que isto tudo é real mesmo que não esteja lá. Como é que se evita o sorriso sarcástico do outro quando se diz sem poder dar o exemplo, olha para mim. Olha para mim, as olheiras pisadas e os olhos molhados fazem de conta que não sei. Mas sei, olha para mim. Sei que no fim do caminho te vais erguer mais forte. Olha para mim, que sei muito da vida e nada do amor, e continuo a fazer o caminho porque sei que vou lá chegar. Olha para mim, vem comigo que eu dou-te a mão e ao meu lado o avião não cai. E podemos fazer juntos o caminho para chegar à rotunda e depois vai cada um à sua bifurcação. Anda comigo, um pé à frente do outro, sempre em frente que não há nada a fazer senão o caminho, isto só tem um sentido. E é o sentido que nos faz. Vem comigo que eu sou capaz de acreditar sem ver e com insistência e abraços posso talvez fazer-te sentir que os caminhos da dor são caminhos que têm de ser feitos, não podem ser evitados - perseguir a cauda leva a lado nenhum. Anda comigo que só te quero bem, só te quero dar a mão e dizer baixinho que vai dar tudo certo. Porque mesmo os caminhos da dor são melhores a dois e porque a verdade é raquidiana e não lhe podemos escapar. Tem fé em mim, já que não que não és capaz de ter em fé em nada. E a única coisa que te posso dar é a mão.

O café a ver o rio.

"Nasci numa tenda no sótão da minha avó", começa por dizer. Com grande fascínio pelos poemas de todos os dias, anoto divertida a frase enquanto lá fora chovem cães e gatos. Filho de retornados - perdão de retornado, no singular, porque quem nasce em Moçambique e veio para Portugal depois do 25 de Abril não retorna, emigra. Melómano e diletante, desfia histórias com camadas e camadas das coisas todas que tem para contar, viagem no solitário banco de trás numa estrada larga de percursos familiares. Arquitecto desassossegado, apaixonado pela estética de todos os dias - "a Vicri, não conheces a Vicri?!" - veste-se de menino grande a fugir ao cinzento. Fuma com prazer as cigarrilhas num dos raros cafés da cidade onde ainda se pode fumar e fala da varanda com som na Avenida de Roma, onde faz os telefonemas do fim do dia a fingir que está na rua. Encontrou no segundo casamento a paz para descansar o desassossego do primeiro e desassossega-se com uma carreira que ainda não acabou de desenhar. Perde-se e encontra-se no meio de histórias e graças como se estivesse a moldar uma peça que não sabe bem o que vai ser, o que ele vai ser. Trocamos partidas para pregar aos amigos, película aderente para embrulhar os dias. Entusiasma-se com fita-cola dupla face que usa para colar telefones ao tecto e isso faz-me sorrir por dentro porque me lembra a S' no seu fascínio da fita-cola. Tem um cabelo de mulher pendurado na haste dos óculos porque se penteou com a escova da M. e ela ficou ali o dia inteiro, como se isso não fosse sempre assim - comovo-me com a pequena intimidade, com as pequenas coisas do amor. Despedimo-nos apressados porque deixámos fugir as horas na amena cavaqueira de quem se está agora a conhecer. Mas sei que um destes dias vou encontrar outra vez o R., numa qualquer mesa onde se possa fumar e jogar conversa fora. Obrigada. O meu dia ficou muito melhor.

15 de janeiro de 2010

Da teoria dos contrários. Ou a lata descomunal.

Eu trabalho com ideias. Trabalho com negócios, pessoas, informação, argumentos, soluções criativas. Neste campo sempre tive uma tendência natural para contra-argumentar, para virar as coisas ao contrário, fazer muitas perguntas, procurar outras respostas, experimentar coisas diferentes, processos e métodos que não os meus. Tenho uma tendência nata para me atirar para fora de pé. Não é bom nem é mau, é assim. Saio naturalmente das minhas zonas de conforto e dou saltos de fé. Comecei por fazê-lo de olhos fechados e testa franzida, cheia de medinhos. Correu bem. E fiz outra vez. E outra. E outra. Foi correndo sempre bem e acabou por se tornar um hábito e por se transformar num traço de personalidade. Esse caminho fez de mim uma pessoa de saltos mortais. Como aliás, de cada vez que tenho de apresentar o meu percurso profissional, se nota à légua. Como aliás, de cada vez que conheço alguém que me interessa ou fascina, se sente de imediato. Se no campo profissional isto fez de mim alguém relativamente reconhecido (presunção e água benta...), no campo pessoal já me deu alguns dissabores. Entre leituras enviesadas - dos próprios ou dos outros - falhas de comunicação e castelos de areia, já me aconteceu de tudo. Porque a verdade é que tenho uma lata descomunal, daquelas latas grandes-contentor-de-porto-marítimo. E se gosto de alguém - homem, mulher, por pura curiosidade, por puro interesse humano, por empatia, por simpatia, por humor, por-amizade-ou-algo-mais - faço por isso. Faço por conhecer melhor, por perceber, por descobrir. Porque se há coisa que amo perdidamente e que me fascina até ao último fôlego são as pessoas. E as grandes conquistas da minha vida, os meus mais queridos amigos, foram descobertas assim, a dar o flanco, a perguntar, a combinar coisas inusitadas, a criar oportunidades para conhecer. Porque também com as pessoas ponho em prática a teoria dos contrários, venço a timidez, refreio a auto-censura, subverto as regras. Porque confio que vai correr tudo bem. Mesmo que do outro lado a primeira leitura seja desconfiada e cuidadosa, seja precavida ou apreensiva. Porque todos os meus saltos mortais com pessoas - o exercício da minha lata descomunal - trouxeram à minha vida, à minha história, as pessoas notáveis e magníficas com quem tenho o privilégio de partilhar o caminho. Continuarei por isso a fazer saltos mortais. Mesmo que isso, de vez em quando, me custe um crânio rachado no asfalto (sim, daqueles cheios de sangue e nhanha como se vê nos filmes). O que é que tenho a perder? Talvez um pouco de mistério - ai o que eu adorava ser aquela morena misteriosa dos filmes. Um pouco de paz - por causa dos mal entendidos. Um pouco de dignidade - ainda há quem ache que eu sou mesmo só maluquinha, sendo que acredito piamente que quem não está para se dar ao trabalho de ver o livro além da capa interessa-me pouco. O que tenho a ganhar? Eventualmente mais uma pessoa fantástica na minha vida. Feitas as contas, compensa em larga escala.

14 de janeiro de 2010

hosomaki ou uramaki.

Hoje tenho um almoço onde vou ter de decidir se quero hosomaki ou uramaki. Mais do que uma opção de culinária nipónica vai ser uma decisão que pode mudar a minha vida - alga por fora, arroz por dentro ou arroz por fora, alga por dentro. O peixe, confesso, é-me indiferente. Desde que seja fresco e limpinho, cheio de proteínas.

13 de janeiro de 2010

De tanto bater o meu coração parou.

Falamos sobre o amor. De visões romantizadas, pragmáticas, paradigmáticas, pueris, realistas, literárias. Salta - fatal - a pergunta: mas tu sabes o que é o amor? E fico inevitavelmente a pensar nisso, numa apneia, letra suspensa. Porque bem vistas e ditas as coisas, essa é a única pergunta. Não sei se sei o que é o amor, porque sei que o amor tem essa coisa muito muito boa que é ser sempre capaz de se transformar. Sei que o amor se reinventa e refaz como pode. Sei que o amor se aninha de maneiras diferentes no mesmo sofá. Sei que o amor nos tem, não somos nós que temos o amor. Sei que o amor cresce e diminui para crescer outra vez. Sei que o amor é as coisas todas e é coisa nenhuma. Sei pouco sobre o amor. O amor que sei é o amor que conheço e sei como esse foi. Mas sei também que, um dia que ele volte a aparecer, vai ser outra coisa - por isso não. Não sei o que é "o" amor. O amor que conheço, aquele que tive a sorte que se tenha aninhado por aqui, foi um amor discricionário, indivisível. Foi um amor que tomou conta de mim - logo comigo, que tomo sempre sozinha conta de mim. Foi um amor educativo, transformador. Foi um amor que soube receber e que deu até doer. Foi um amor imenso que me tomou por dentro e me virou do avesso. Foi um amor inabalável até abalar. Foi um amor justo, bem-aventurado. Foi um amor aventureiro, desafiador. Foi um amor visceral e um amor sossegado. Foi um amor mexido e um amor quieto. Foi um amor que foi muitas coisas, tantas coisas quantas consigo dizer. Foi um amor que ficou, que se deixou estar muito muito tempo. Foi um amor que não se foi embora quando foi embora. Mas não. Não sei o que é "o" amor.

12 de janeiro de 2010

Eu sou uma besta.

Eu sou uma besta. Um tractor. Bruta como as casas. Dura que nem um portão. Mas com uma particularidade, só sou assim para as pessoas de quem gosto muito. Quando me é indiferente não sou capaz de hipérboles. É uma espécie de equilíbrio, o gostar muito vem com arestas duras e com brutalidades ditas de coração, porque tem de ser. Não sei fazer de outra maneira. Acredito no gostar incondicionalmente das pessoas que escolho e com isso vem uma dose de bestialidade que não sei domar. Sou excessiva. Sou excessiva no amor, sou excessiva na amizade (que é igual ao amor mas com menos pele e sem trocas de fluidos). Sou excessiva na atenção. Sou excessiva na dedicação. Sou excessiva nas coisas que digo, faço, escrevo, desenho (como diz a minha Madalena, não sei desenhar mas gosto). Sou excessiva quando gosto. Sou um tractor, levo tudo à frente, defendo com unhas e dentes as pessoas que escolho, estou lá para o bem e para o mal, em todos os sentidos. Rio-me e brinco com as "minhas pessoas", como choro e me zango com elas. Não consigo ser indiferente, apática, desapaixonada. Porque só escolho as pessoas que, por algum motivo, me apaixonam. E isso é verdade para dar colo e é verdade para ter conversas duras - desculpa, às vezes à noite sou bruta. Sou uma besta. Vem com o pacote.