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8 de dezembro de 2011
Mais um ano por estrear.
Está aí à porta mais um ano por estrear. Apesar de estar vagamente curada do optimismo doentio, não consigo evitar contar os dias e renovar sempre a esperança de que este é que vai ser.
2 de janeiro de 2011
E ao soar das doze badaladas.
Menina do papá, eu me confesso. Porque nada me soube melhor este ano do que passar a meia noite a rir ao telefone com o meu pai. (Freud explica) Depois desliguei, tchin-tchin, mais um trago de champagne misturado com french kissing. Dançámos numa varanda com neve, confetti e serpentinas. Repeti "bonne année" até à exaustão com uma marroquina divertidíssima. Discuti o futuro da banca com um francês alucinado. Descalcei os sapatos no fim da noite e dancei um slow de garagem como antigamente. Fiz a mala. Apanhei um avião no primeiro dia do ano e o piloto fez uma graçola no intercomunicador.
Com um prenúncio destes, o ano por estrear tem tudo para ser maravilhoso.
Com um prenúncio destes, o ano por estrear tem tudo para ser maravilhoso.
28 de dezembro de 2010
2011: Um ano por estrear
Finalmente a lista para 2011. Parece-me que vou acrescentar coisas, mas como tudo na minha vida, também esta lista qualifica como "Work In Progress".
12 meses, 12 missões
1. Continuar a procurar a melhor versão de mim;
2. Fazer 10 viagens;
3. Celebrar o regresso da família;
4. Aprender e transformar;
5. Fazer ginástica, jogar ténis, dançar mais (clássico);
6. Aprender a fazer cachecóis em lã;
7. Iniciar um novo projecto de carreira;
8. Reler "Os Maias";
9. Deixar de fumar (clássico, parte II);
10. Aceitar que há zonas cinzentas na vida e ser capaz de lidar com elas;
12 meses, 12 missões
1. Continuar a procurar a melhor versão de mim;
2. Fazer 10 viagens;
3. Celebrar o regresso da família;
4. Aprender e transformar;
5. Fazer ginástica, jogar ténis, dançar mais (clássico);
6. Aprender a fazer cachecóis em lã;
7. Iniciar um novo projecto de carreira;
8. Reler "Os Maias";
9. Deixar de fumar (clássico, parte II);
10. Aceitar que há zonas cinzentas na vida e ser capaz de lidar com elas;
11. Abraçar mais os amigos;
12. Entender a arrogância e moderá-la.
23 de março de 2010
A minha vida não é minha.
Soube-o desde sempre. Trago esta ideia dentro de mim mesmo antes de ter nascido. Sei-o como quem sabe pôr um pé à frente do outro para andar, sei-o como quem sabe procurar água quando tem sede, sei-o como quem foge quando vê o perigo. Sei-o. Sei que a minha vida não é minha e que nasci de mãos abertas. Parece críptica esta ideia, mas na verdade nada há de mais simples, de mais elementar. Nada há de mais puro, mais bonito, mais verdade. Saber que a minha vida não é minha e que o meu potencial só se realiza nos outros é um caminho duro mas verdadeiro. É um caminho solitário mas que me enche por dentro. Nascer de mãos abertas é, provavelmente, o maior privilégio de todos. Nascer para entregar a vida é trazer por dentro a gratidão, a transparência, a humildade, a generosidade. Sem peneiras, sem superioridade, sem maldade, sem arrogância. Não é altruísmo, de todo - é saber que se é feito para os outros, pelos outros. E tirar o maior prazer e a maior realização disso. É uma construção do "eu" no outro, é a realização da nossa humanidade no projecto humano de quem está ao nosso lado. Não é esoterismo, é real, palpável, imenso e físico. É vital. E ter descoberto isso sobre mim foi a maior revelação de todos os tempos. Tinha 17 anos quando o descobri, construí e depois perdi o pé, perdi-me de mim. Fiz recentemente ruir todo um caminho de fuga a isso e na desintegração recomecei a trilhar. Na ruptura olhei para o espaço que tinha preenchido com outras coisas, outras vidas. E esvaziei-o. E é esse vazio que trago - não para ser cheio mas para ser protegido, para ser veículo das coisas que tenho de fazer. Tenho sorte. Tenho a sorte de fazer profissionalmente uma coisa que me permite usar isso, explorar isso, seguir o caminho, o meu caminho. E celebro essa sorte todos os dias, nas pequenas coisas que fazem valer a pena ser hoje. Porque sim.
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coração,
peito aberto,
peregrinação interior
27 de fevereiro de 2010
Tãobalalão.
Numa semana, há-mais-coisa-menos-coisa-um-ano, a minha vida desabou. Destruí um projecto de vida - a carreira, sempre a carreira. Morreu-me um amigo e levou com ele uma dentada de coração. As paredes da minha casa começaram a apertar, faltou-me o ar. Fui-me embora, fugi a sete pés, fechei portas, virei costas, mergulhei. O meu mundo desabou e, sem saber como nem porquê, passava metade das noites a chorar e a outra metade a rir compulsivamente. Empurrei os meus amigos porta fora, deus-nos-livre-a-todos que me vissem assim, que a minha insanidade se lhes pegasse ao corpo, que a minha demência lhes pesasse na alma. A S' ofereceu-me um sorriso e um livro para crianças que perguntava "o que é a felicidade?". A Rita deu-me a mão no Jardim da Estrela e deixou-me chorar até ao fim do mundo - até hoje não sei quanto tempo ficámos ali. O Miguel distraía-me com histórias dos seus engates e fazia-me rir. O meu grande amigo-amor A. dava-me abracinhos via skype. O Duques sentava-se horas ao meu lado sem conseguir dizer uma palavra e suspirava. Na altura não consegui sentir nada. Sabia-me grata por ter gente linda à minha volta, sabia-me entregue por não estar sozinha. Mas a solidão somos nós que a fazemos e podemos estar no meio de uma multidão e não ser outra coisa que não sozinhos. Não senti nada. Por muito tempo, fui incapaz de sentir o que quer que fosse e por mais que me empurrasse para fora da bolha, sentia-me um penedo, uma fraga. E soltava a lenga-lenga baixinho na minha cabeça: tãobalalão-cabeça-de-cão-orelha-de-gato-não-tem-coração.
Um ano vertido por todos nós abaixo, hoje sou feliz. E ganho, a pouco e pouco, a maravilhosa capacidade de sentir com mais intensidade do que julguei ser capaz. Trago um amor profundo pelos meus amigos, um amor profundo pelas palavras, um amor profundo pelos dias, um amor profundo pelo que faço todos os dias, um amor profundo por poder ir comprar flores a pé numa manhã fria de sábado. Trago um amor. Trago o amor. Sou feliz com a abundância de quem se privou, de quem foi privado. Como quem destrói para construir. Como quem abre mão para segurar. Como quem chega à tona da água quando estava quase-quase a sufocar. Como quem escapa à morte. Como quem vê ruir para ver erguer. Como quem se odeia para se amar. Como quem é grato pela oportunidade maravilhosa de ver os outros sorrir. Sou feliz como só quem foi tãobalalão consegue ser. Feliz como os sobreviventes.
Um ano vertido por todos nós abaixo, hoje sou feliz. E ganho, a pouco e pouco, a maravilhosa capacidade de sentir com mais intensidade do que julguei ser capaz. Trago um amor profundo pelos meus amigos, um amor profundo pelas palavras, um amor profundo pelos dias, um amor profundo pelo que faço todos os dias, um amor profundo por poder ir comprar flores a pé numa manhã fria de sábado. Trago um amor. Trago o amor. Sou feliz com a abundância de quem se privou, de quem foi privado. Como quem destrói para construir. Como quem abre mão para segurar. Como quem chega à tona da água quando estava quase-quase a sufocar. Como quem escapa à morte. Como quem vê ruir para ver erguer. Como quem se odeia para se amar. Como quem é grato pela oportunidade maravilhosa de ver os outros sorrir. Sou feliz como só quem foi tãobalalão consegue ser. Feliz como os sobreviventes.
12 de fevereiro de 2010
Hóra di bâi.
Já com um pezinho em casa, sento-me a ver o último pôr-do-sol na ilha. Acendo mais um cigarro e um sorriso e penso que está mesmo na hora de voltar. É boa esta sensação de tempo certo. Amanhã voo, domingo levanto voo. Esperam-me revoluções, isso eu sei. Algumas planeadas outras sei-as de instinto. E esta viagem foi - mesmo que não o soubesse quando a marquei - no momento exacto em que tinha de acontecer. Como todas as coisas que me aconteceram recentemente. Portas que se abriram, descobertas que foram feitas, acasos cheios de sentido, ideias cheias de acção. E é maior do que posso descrever a sorte que tenho e a gratidão que trago por, como se fosse magia, as pontas da minha vida se estarem a juntar. Mesmo que só na minha cabeça, isso já é muito. Destruí, afundei, fiz ruir. Escavei, agitei, mordi, lutei. Procurei, não encontrei. Achei. E vim aqui para arrumar essas coisas todas e entrar numa porta aberta, uma sala com lume aceso para me receber. Foram umas férias magníficas, independentemente de ter estado doente o tempo todo. Isso pouco importou. Foram tantas as coisas que descobri. Foram tantas as pazes que fiz. Foram tantos os grãos de pó que limpei. Foram tantas as lições que aprendi. Não numa semana, claro. Numa vida. A semana foi o corolário de uma fórmula qualquer que se desenhou na minha cabeça, um brinquedo de encaixes. A semana foi a bonança depois da tempestade, em que se apanham os lixos e se arruma tudo no seu devido lugar. E de tão inesperado e importante que este processo foi fica-me a sensação boa de missão cumprida. De coisa feita, alinhada. Cama feita de lavado para deitar as pequenas revoluções que estão aí a chegar. É bom. Estupidamente bom.
9 de fevereiro de 2010
Peregrinação interior.
Há muitas coisas boas no momento em que se está de férias: a ruptura com a norma, o abandono do quotidiano, a liberdade nas horas e nos lugares, as pessoas que nos acompanham e as que se cruzam connosco, as coisas que se fazem diferente, as coisas que se fazem igual e sabem diferente, a saudade dos amigos que se traduz numa vontade de partilhar os bocadinhos todos de prazer, o peito cheio do bem que sabe de se pôr a leitura em dia, a vontade de escrever que nasce e renasce todos os dias, os olhos que brilham com as coisas mais simples como o dia que nasce lá fora. Mas de todas as coisas boas de estar de férias, acho que o que mais adoro é o tempo. O tempo que não mora aqui, os relógios que desaparecem e a pergunta que não sai “que horas são?”. O tempo que estica e encolhe à medida das coisas que queremos fazer, o tempo que escorre lento entre os dedos. O tempo para arrumar, para perceber, para sentir, para entender coisas que no bulício dos dias nos passam ao lado, disfarçadas de pequenos entusiasmos. O tempo para descobrir. Para nos descobrir da bruma dos dias, da nuvem que se forma com as urgências, do nevoeiro que se faz em frente aos nossos olhos numa luta diária pela sobrevivência moral e emocional. O tempo das férias é um tempo solto, de peito aberto, sem restrições, em que podemos fantasiar e inventar tudo, reinventar a roda e descobrir nessas viagens coisas importantes sobre nós. O Alçada Baptista chamar-lhe-ia peregrinação interior. É aí que estou, peregrina despida de mim, do meu modo de viver e sobreviver aos dias, peregrina de coração puro e peito aberto, olhos levantados e sorriso posto. É aí que estou. A descobrir bocadinhos de mim que não conhecia e a arrumar os que descobri recentemente. É uma espécie de catarse, o fim de um ciclo que se faz e desfaz com o vai-vem do mar. Arrumo hoje para desarrumar amanhã, sei que é inevitável desarrumar-me. Até porque as coisas que estou a descobrir me desarrumam e desconcertam. Mas de uma forma boa e plena. Uma cartografia do coração, descoberta de peregrino.
30 de janeiro de 2010
Mad Hatter
O Mad Hatter - ou o Chapeleiro Louco - é um dos personagens que mais me diverte nas Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Além de ser completamente excêntrico e alucinado (todos sabemos que eu tenho um fraquinho pelo non-sense), adoro o facto de ter sido condenado à morte pela Rainha de Copas pelo crime de assassinar o tempo. Na história o chapeleiro escapa à decapitação e continua a inventar disparates, como fazer festas de "desaniversário". Ontem fui o Mad Hatter. E tal foi a loucura naquele país das maravilhas, que me desapareceram os parcos haveres - tão avassalador que é o meu guarda-roupa que uma alminha não resistiu à mala verde da Skunk Funk e, por acaso, acabou por levar tudo o que tinha lá dentro que provasse a minha existência, um dinheirinho valente, as chaves de casa e telefone. Qual truque de magia, debaixo das barbas da grupeta que eu acompanhava, a alminha fez um truque de prestidigitador e puffff. Felizmente não tinha lá o passaporte, o que significa que nada perturba a minha viagem de férias (aí sim, ficava louca, com ou sem chapéu). Tudo o resto se resolve - mesmo que a dormir armada com um taco de baseball - não vá a(s) alminha(s) decidir fazer uma visita, já que tem a morada. Pelo menos até que a empresa alemã de nome impronunciável se digne a vir cá substituir o canhão da porta-blindada-mega-segurança-xpto-não-passa-uma-formiga. E a mim, que às vezes me escapa o pézinho para as coisas assim mais para o metafísico, só me ocorre que isto tenha acontecido porque os documentos, telefone e chave de casa eram mesmo mesmo as últimas coisas que faltavam renovar na minha vida. Ao fim ao cabo, ainda na personagem, só me resta rir e perguntar, Why is a raven like a writing desk? E a seguir responder: não faço ideia.
14 de janeiro de 2010
hosomaki ou uramaki.
Hoje tenho um almoço onde vou ter de decidir se quero hosomaki ou uramaki. Mais do que uma opção de culinária nipónica vai ser uma decisão que pode mudar a minha vida - alga por fora, arroz por dentro ou arroz por fora, alga por dentro. O peixe, confesso, é-me indiferente. Desde que seja fresco e limpinho, cheio de proteínas.
8 de janeiro de 2010
Da sombra do sobreiro.
Tenho um sobreiro. Tenho, aliás, dois mas só um é meu. Tenho um sobreiro de que gosto muito porque o vi nascer de uma semente pequenina que bem podia ter sido dada ao porcos no Alentejo para se fazerem gordinhos para a matança de Setembro. Mas não, a semente pequenina veio parar-me às mãos porque a mulher do O. queria que os sobreiros se fizessem grandes e frondosos para um dia filhos ou netos se deliciarem com a sombra fresca e húmida que as árvores grandes dão. O meu sobreiro foi plantado com amor, rompeu na dúvida e foi crescendo no alheamento. Tinha já um simpático (quase) metro quando mudou de casa e continuou a crescer, mesmo sem vista para o rio. Manteve-se hirto e verde-vivo num verão tórrido. Aguentou-se às agruras de um outono quente demais. Sobreviveu à violência de um início de inverno que se tornou bruscamente glacial. Hoje estava morto. Tive vontade de lhe declarar o óbito em voz alta e publicar-lhe uma fotografia e elogio fúnebre num jornal. Foi um bom sobreiro, apesar de não ter crescido o suficiente para que me pudesse, velhinha, deitar à sua sombra a ler um livro do futuro. O segundo sobreiro sobrevive, desfolhado mas vertical, com força anímica para aguentar o inverno que falta. Um destes dias regressa à sua terra natal, ao quintal onde pertence. E a mim, que me escapa por vezes o pé para coisas assim mais para o metafísico, fica-me a saudade boa do sobreiro e a vaga sensação de que esta morte natural é sinal de renovação.
2 de janeiro de 2010
Da geologia. Ou do ano novo.
O meu primeiro dia do ano é sempre um espécie de ausência. Congelo o tempo, não aceito convites, não faço planos, deixo só o dia escorrer por entre as arestas e escarpas. Vou sempre ver o mar - não que faça disso uma espécie de tradição, mas acaba por acontecer, por mais voltas que dê - volto sempre ao ponto de encontro e constato que não fiz mais do que partir. Acabo por concluir que não se volta, nunca se volta. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba ao que se vai, nem como, nem porquê. Não há nunca regressos, o caminho muda de ano para ano: a erosão, os caminhos dos outros, a vegetação que progride, os sentidos proibidos. Tudo acontece entre parêntesis, de Janeiro a Janeiro, para nos lembrar que não podemos voltar ao lugar onde estivémos no ano anterior. E sentada a olhar o mar, a maldizer a minha incapacidade de me agasalhar convenientemente, fico com uma espécie de sorriso parvo, olhar perdido-encontrado. Deito um olhar vago às camadas geológicas dos meus verbos - querer, perguntar, ir, estar, fazer, morder, ler, escolher, viajar, descobrir, amar, escrever, arrumar, encontrar, morrer. Penso sempre na influência anímica que as palavras - minhas e dos outros - exercem sobre mim. Penso nos gestos mortos e enterrados, nas escolhas fossilizadas, sem retorno ou possibilidade de encontro. Sorrio à sorte que tenho em descobrir, volta não volta, um geodo - sempre me aconteceu, tropeçar inadvertidamente em coisas muito muito boas. Olho para os movimentos tectónicos do ano, de como pequenas coisas se fizeram coisas gigantes ou de como grandes movimentos trouxeram pequenos detalhes. Penso nos terramotos - reais e interiores - e chego novamente à conclusão de que são sempre bons, dei-me sempre muito bem com abalos profundos, saltos mortais, terra a tremer. E tal como a geologia serve para determinar a idade da terra, a minha geologia dá-me a medida exacta do tempo que passou. Deixa-me ver as camadas de registos mais ou menos sólidos do caminho que já percorri. No próximo Janeiro há mais. Nesta entrada a pés juntos no ano novo guardo a profunda convicção de que se avizinham erupções plinianas, de que me farei Vesúvio e Krakatoa. Isso eu sei.
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