30 de julho de 2012

Batem no meu peito dois corações.

Batem no meu peito dois corações. Um quieto, confiante. Outro descompassado, em desassossego. Um está aqui e agora. Outro salta a linha do tempo, atlético, passo largo entre o passado e o futuro. Um que sabe para onde vai, passo certo e seguro. Outro pára de repente, congelado no que vai ser. Um empurra. Outro quer. Um caminha. Outro tropeça. Um segura. Outro deixa (se) cair. Um dá. Outro esconde. Um abre. Outro recolhe pedacinhos, põe num saco e fecha-o bem. Um de porta aberta. Outro a sete chaves. Batem no meu peito dois corações.

9 de julho de 2012

Quando as palavras dos outros dizem o que não sabemos dizer - parte 1


"O sol nas suas costas era já uma generosidade grande e não havia mais ninguém. Não havia ninguém. A Isaura disse: eu pensava que o amor era bom. Tão estranho que depois de tanto tempo e tanta mágoa pudesse pensar no amor. Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstracção de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom. E chorou sem qualquer convulsão porque aceitou chorar. Aceitou chorar. Havia muito que não o fazia. Talvez tivesse percebido que a natureza era, toda ela, uma expressão exuberante e que manifestar os seus sentimentos seria uma participação ínfima nessa honestidade do mundo. Talvez tivesse percebido que usava de honestidade consigo mesma pela primeira vez em muitos anos. Disse: estou sozinha. E repetiu: estou sozinha. Desatou a falar como se não suportasse mais a boca fechada. Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

Quando as palavras dos outros dizem o que não sabemos dizer - parte 2

"Um homem chegou aos quarenta e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe