25 de agosto de 2010

Modo interior.

Não tenho palavras redondas, trago-as bicudas, angulosas. Não tenho as palavras redondas que me traduzem de dentro para fora, trago-as pontiagudas, a disparar setas de não-cupido. Trago palavras que não são minhas - mesmo que as redondas continuem por dentro a rebolar - mas as que chegam a ver a luz do dia picam. Muitas são as que ficam na rede, essa protecção invisível dos outros, uma rede mosquiteira que tenho na garganta e retém muitas farpas. Engarrafada fica, a maior parte das palavras bicudas. E acabam por se misturar com as redondas e fazer uma confusão geométrica por dentro dos cadernos que trago no peito. Talvez por isso ande sem família, sem comunidade. Talvez por isso tenha escolhido o recolhimento, esta espécie de solidão auto-imposta. "Ando mona", assim explico sem explicar muita coisa a quem pergunta e estranha a ausência. A disposição gregária que me caracteriza, o amor dos outros, pelos outros, a necessidade intrínseca do encontro são agora coisas "por dentro". Quero e sei que preciso. Mas não vou, não dou, não sou. Estou em modo interior. Escrevo por dentro, onde estão as palavras redondas, as que sou eu, as que me dizem coisas. Estou com o mundo em modo interior.

12 de agosto de 2010

Da ideologia que é o amor.

O amor sobrevive graciosamente, todo ele força e ferro e fogo, todo ele verdade e intensidade, todo ele pureza e devoção. Esta ideia de amor, assim explicada em dois minutos de palavras, como quem olha uma reprodução gasta da fotografia de sempre, Doisneau de postal em cima do fogão. À medida que o tempo passa guarda-se a ideia de amor no coração, num pequeno bolso apertado, empurra-se para dentro até doer, amassa-se com fervor devoto o nome escrito, pequenino, numa dobra do braço - porque sim, o coração tem braços senão não podia abraçar. Olha esperançada o postal - podia pensar-se desiludida com tombos e truques, com escadas e vãos. Olha distraída o postal - podia pensar-se que se fundiu com a tinta da parede, vidros duplos, arquitectura dos dias. Desvia o olhar do postal - podia pensar-se um amor incompreendido, um amor impossível, um amor desesperado. Logo depois ela decide que importante mesmo é aquela figura no postal, aquela figura onde não há ainda dor, onde ainda não há mácula, só amor. E é tão simples, o postal, um amor acidental de tropeçar na rua sem cair, de virar esquinas, de caminhar de peito aberto. Um amor de papel, de guardar no coração, memória feliz, cristalizada em sais de prata. Porque talvez o amor seja isso mesmo: de papel. De ideologia. De verdades profundas escritas a preto que depois ganham corpo e perdem alma. Talvez o amor seja de papel, como uma filosofia política que parece ideal e quando se pratica não funciona. E essa ideia de amor não sobrevive à consumação: perde o valor que tem quando se realiza, é teoria, potencial. E - para mal dos nossos pecados - essa ideia de amor fica marcada, num lugar profundo algures entre a garganta e o estômago, num postal gasto em cima do fogão. 


(é urgente salvar o amor)

6 de agosto de 2010

Nota mental.

Nota mental: se alguma vez disser que sim, que talvez faça sentido ter filhos, por favor amarrem-me a uma fraga e joguem-me ao rio. Combinado?