31 de março de 2010

29 de março de 2010

Da ausência.

Os meus queridos leitores que me perdoem a ausência, mas na última semana têm-me faltado as palavras. É raro isso acontecer, mas não sei sequer começar a explicar o quão maravilhoso isso é. Por isso deixo três linhas a dar sinal de vida e a celebrar a comunicação não verbal. Voltarei a breve trecho para vos voltar a falar do amor e outros fatalismos.

24 de março de 2010

Está na cara.

Na cara de cordel.

23 de março de 2010

A minha vida não é minha.

Soube-o desde sempre. Trago esta ideia dentro de mim mesmo antes de ter nascido. Sei-o como quem sabe pôr um pé à frente do outro para andar, sei-o como quem sabe procurar água quando tem sede, sei-o como quem foge quando vê o perigo. Sei-o. Sei que a minha vida não é minha e que nasci de mãos abertas. Parece críptica esta ideia, mas na verdade nada há de mais simples, de mais elementar. Nada há de mais puro, mais bonito, mais verdade. Saber que a minha vida não é minha e que o meu potencial só se realiza nos outros é um caminho duro mas verdadeiro. É um caminho solitário mas que me enche por dentro. Nascer de mãos abertas é, provavelmente, o maior privilégio de todos. Nascer para entregar a vida é trazer por dentro a gratidão, a transparência, a humildade, a generosidade. Sem peneiras, sem superioridade, sem maldade, sem arrogância. Não é altruísmo, de todo - é saber que se é feito para os outros, pelos outros. E tirar o maior prazer e a maior realização disso. É uma construção do "eu" no outro, é a realização da nossa humanidade no projecto humano de quem está ao nosso lado. Não é esoterismo, é real, palpável, imenso e físico. É vital. E ter descoberto isso sobre mim foi a maior revelação de todos os tempos. Tinha 17 anos quando o descobri, construí e depois perdi o pé, perdi-me de mim. Fiz recentemente ruir todo um caminho de fuga a isso e na desintegração recomecei a trilhar. Na ruptura olhei para o espaço que tinha preenchido com outras coisas, outras vidas. E esvaziei-o. E é esse vazio que trago - não para ser cheio mas para ser protegido, para ser veículo das coisas que tenho de fazer. Tenho sorte. Tenho a sorte de fazer profissionalmente uma coisa que me permite usar isso, explorar isso, seguir o caminho, o meu caminho. E celebro essa sorte todos os dias, nas pequenas coisas que fazem valer a pena ser hoje. Porque sim.  

21 de março de 2010

Erro de raccord.

unhas pintadas + montar estores.

Ele é que a sabe toda.

O amigo às vezes à noite é que a sabe toda - desculpa Felino, ele ganhou desta vez. A conclusão do mês é que os homens gostam mesmo é de ser maltratados. Apreciam. E isso explica tanta coisa... É que eu não tenho talento para destratar, para ser má com as pessoas, para as massacrar. Sou, apesar de disfarçar bem, uma criatura de amor. Gosto de abraços, de dar colo e coração. Gosto de tratar bem e ser bem tratada, de dar amor e algodão doce. Gosto de estar perto para o que for preciso. Em geral, não maltrato, não desprezo, não espezinho, não evito, não dou patadas, não escorraço, não corroo. E, se calhar, esta coisa toda de ser boazinha e viver na "la-la-land" é o maior anti-tesão do mundo. Enjoa. Isso explica mesmo muita coisa (só me apetece dizer palavrões).

Foi oficialmente inaugurado o festival da pituitária desenfreada.

É primavera.

Do optimismo.

Ser optimista é uma escolha. Não é, de todo, uma predestinação ou legado. É uma opção clara de se viver a vida de determinada forma, de se acreditar em coisas boas mesmo nos maus momentos. É uma forma de ver o mundo, de olhar os percalços de frente e ter a convicção de que vai dar certo. Ser optimista não é não hesitar, não é seguir sempre em frente e ignorar os sinais. E muito menos é colocar palas no olhos e viver a vida como um pateta-alegre - dói-me que este seja o rótulo mais frequente. Ser optimista é procurar e guardar o que de maravilhoso nos acontece nos dias para ser mais fácil gerir o que de mau aparece. É ser grato pelas pequenas coisas boas de todos os dias, é resistir à tendência do cinzento. É fácil estar zangado com o mundo, triste, sorumbático - é aliás essa a nossa herança no fado e na saudade. É fácil estar-se "com os azeites" e dar patadas a tudo o que mexe à nossa volta. Esse é, acredito, o caminho mais fácil. Não nos obriga a ser melhores. Tenho por isso um fraquinho por optimistas porque essa é a verdadeira tarefa: ser-se positivo e feliz quando à volta, nas grandes sendas do mundo, pouco há a celebrar. E só por isso faz-me feliz a sorte de tropeçar à porta de casa numa parede pintada com uma mensagem boa. Simplesmente boa. E isso só por si ser capaz de mudar o rumo de um dia, de restaurar um sorriso nublado numa manhã de sábado - com abraços de amigos que regressam, rebuçados acabados de fazer, flores a sorrir à primavera que começa hoje, bilhetes com bonecos, pequenos almoços com gente de bem, ruas iluminadas pelo sol, risos descontrolados e copos de vinho ao anoitecer. O optimista alimenta-se disto. Dos presentes do deus das pequenas coisas, dos pequenos amores, das pequenas surpresas.

17 de março de 2010

Barriga no fogão.

Acho que me vou candidatar ao Guiness como a criatura que mais jantares serve em casa para os amigos. Faz-me profundamente feliz ter sempre a casa cheia de gente que adoro. Mas o prazer também cansa. Para a semana faço greve à barriga no fogão, quem quiser aparecer que leve pão que eu tenho manteiga.

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.

14 de março de 2010

Amor é...

J.: querida, dá-me um beijo que a tia vai trabalhar, vai escrever.
Sobrinha maravilhosa: na escola?
J.: Não, hoje é num barco, amanhã na lua e depois  na escola.
Sobrinha maravilhosa: É histórias?
J.: Sim, histórias.
Sobrinha maravilhosa: Então é na escola.

13 de março de 2010

Da versatilidade.

Trolha pela fresca, princesa ao crepúsculo.

12 de março de 2010

Mant(r)as

Repito para mim: mantém os pés quentes com uma manta, sê uma pessoa boa, resiste ao impulso  de combater fogo com fogo, mantém o peito aberto, continua a acreditar nas pessoas, dá a outra face, calça os sapatos dos outros,  dá sem esperar em troca, respira, cala-te se não tens nada de bom para dizer.

Ou mais simplesmente: amarra a um sobreiro a cabra que há em ti.

11 de março de 2010

Do prazer.

Cansa-me a análise do prazer. A intelectualização do instinto, do estômago. Isto, vindo de uma criatura hiper-analítica, é obra. Mas a verdade é que me cansa a dissecação intelectual das coisas boas, viscerais, guturais. Cansa-me que se fale de arte como se o propósito único da criação fosse uma mensagem altamente densa e insondável. Cansa-me que se escrevam poemas mais ou menos bucólico-pastoris nas notas de prova dos vinhos. Cansa-me que se dissequem os amores, as paixões, as tesões até se chegar a uma qualquer classificação que, no fim do dia, de pouco serve. Cansa-me que se desconstrua um filme até à exaustão. Cansa-me que se descreva comida como um épico homérico. Cansa-me a dúvida existencial das coisas que se sentem na pele. Cansa-me a coisa-toda-muito-redondinha-cheia-de-razão-de-ser-tudo-muito-no-seu-lugar. Porque a verdade é que, por mais analítica que seja, nada substitui o arrepio, o cabelo desgrenhado, a arritmia, o sorriso involuntário, a estrada sem mapa, o desalinho. Cansa-me que se racionalize o prazer. Das coisas boas. Das coisas simples. Das coisas que são assim só porque sim, que continuo a achar que é o melhor motivo do mundo para se fazer o que quer que seja. Especialmente o que nos dá prazer. E o meu amor pela falha, pela imperfeição, pela ruga e pelo carácter é o que me faz verdadeiramente feliz. O rigor e a estrutura dão-me planta, referente. Mas quem raio é que quer andar sempre rente ao chão?

Só me apetece dizer palavrões.

(sim, estou enxertada em corno de cabra)

8 de março de 2010

Acabei de realizar...

...que da minha cama vejo o céu.

(antes que o meu querido amigo Felino comente: é literal.)

Da comunicação.

Tudo comunica, tudo fala, tudo diz. Desde o início dos tempos, ainda meios trôpegos e curvados, comunicamos. É impossível não comunicar. Tudo em nós fala, mesmo quando não queremos dizer. Contam-se histórias. Umas mais simples, outras mais complexas. Histórias em rede, que se ligam umas às outras. Histórias em bonecos, gravadas à força em paredes. Histórias em vidas que se cruzam e descruzam, de onde todos nós nascemos. Histórias ditas, histórias caladas. Narradas. Criadas. Descritas. Inventadas. Ampliadas. Tudo tem histórias. E para mim, a comunicação não é mais do que o acto de contar uma história, de narrar um propósito, mundos, referências, nuances, detalhes, personagens. E esta convicção, clara como água, cresce em mim a cada dia que passa nesta profissão. O conteúdo sobrepõem-se e sobrepor-se-á sempre à estética. E confesso que acho que isto não é assim tão difícil de entender. É uma história simples.

Dúvida existencial.

Porque será que, salvo honrosas excepções, só me calham clientes completamente alucinados?

7 de março de 2010

Espumante e aguardente velha.

Falou-se ontem de uma metáfora que afinal mais não era que uma constatação literal. Mas eu sou uma criatura de metáforas e hipérboles, por isso fiquei a conversar com esta ideia: o amor* é espumante e aguardente velha.

* sim, voltei a falar de amor, é mais forte que eu...

Da transcendência.

Não acredito na figura paternalista de deus. Não acredito na lei de punição e castigo, em crescer no medo, no arrependimento do pecado, no moralismo. Não sou fã da cegueira religiosa, não sou fã de cegueiras em geral. Tenho uma relação com a transcedência que não emana das figuras montadas e pintadas. A minha relação com a transcendência está, sobretudo, nas pessoas e nos detalhes. Apaixonam-me as pessoas que me dizem coisas, que me fazem sentido. Apaixona-me o riso, o humor, a curiosidade, as frapas, a pequena insanidade, a generosidade, a empatia, a doçura, a convicção, o enleio, o abraço, o desassossego, o peito aberto, a coragem. Apaixonam-me os detalhes pequeninos dos dias: o primeiro dia de sol depois da tempestade, um copo de vinho, a chuva na janela, um riso, uma rua calcetada, as rugas de um velho, uma porta aberta, um jardim na cidade, uma lareira acesa, a cama feita de lavado, um lanche de amigos, o sal na pele depois dos mergulhos, o cheiro de café a torrar, o vento quente depois do sol se pôr.
A minha relação com a transcendência é assim, pão com manteiga dos dias.

Diz que é uma espécie de existencialismo.

Ontem o meu querido amigo às vezes à noite narrava a história de uma mulher que escreveu num blog coisas sobre o amor. Estilo à parte, o conteúdo foi comentado por alguém que despejou um chorrilho de asneiradas que qualificavam a criatura que escrevia sobre o amor como uma encalhada a quem falta... amor (séquementendem). A autora não era eu - esclareço a bem da minha dignidade editorial - mas a carapuça serviu-me em parte: estará este blog a transformar-se numa versão rasca do Sex&The City meets Maria, esse ícone editorial português? Porque, de facto, fazendo um scroll down nas coisas que tenho escrito e fazendo um resumo das minhas conversas mais íntimas das últimas semanas acho que ando a falar demasiado sobre o assunto. Sem prejuízo de continuar a achar que o amor é lindo, prometo tentar diversificar os temas. Apesar de, como todos sabemos, promessas leva-as o vento.

extraordinary minds.





http://www.abeautifulrevolution.com/blog/2009/09/painting-no-8-extraordinary-mind.html

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me saber cantar e fazer um canção sobre o desassossego.