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17 de março de 2010

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.

22 de fevereiro de 2010

A melhor idade.

É certo e sabido, poderão testemunhar os meus amigos, que tenho talento para a terceira idade. Não sei se é por ser antiga ou demodé, mas a verdade é que faço sucesso na faixa etária 65+. Terá provavelmente a ver com a minha paixão por histórias, pelo quanto adoro uma boa novela de época. Pode também estar relacionado com o facto de eu gostar de coisas de velhos: cartas escritas à mão, casacos de malha, iscas, genealogia, alfarrabistas. Gosto de ir à praça pela fresca, de ouvir os galos na madrugada (sim, eu sou uma pessoa do campo), de gente à janela, dos velhos sentados à sombreira da porta. Quem me tira uma conversa interminável sobre os filhos que emigraram nos anos 40 tira-me tudo. Quem me tira uma fotografia com as extremidades corroídas ofende-me. Talvez por isso goste tanto de velhinhos. Gosto da experiência que emana de coisas simples, gosto do tempo que passa devagar numa sala com escalfeta, gosto do cheiro dos baús das memórias, gosto da simplicidade com que se olha a vida depois dos 65 - só aí se começa a aprender o que é de facto fundamental. Gosto de coisas velhas, vividas, sobrevividas. E gosto das minhas pessoas assim: com história, com rugas, com marcas dos dias. Gosto das minhas pessoas antigas. Com idade para saber que, como dizia Saint-Exupéry, o essencial é invisível para os olhos. Talvez por isso os velhos e eu vejamos mal.