Há pouco mais de seis anos saí daqui a dizer
que me batiam no peito dois corações. E há bem mais tempo que isso aprendi que
não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. Estranhamente volto, com a língua enferrujada
e a hesitação de quem escolheu outro caminho e volta timidamente atrás. Não sei
bem se é voltar atrás ou simplesmente voltar, mas o facto é que estou aqui. E
ainda me batem no peito dois corações.
Em seis anos tudo mudou: mudei de país três
vezes, adoptei dois cães, reaprendi uma língua, comprei uma casa num vale
perdido, casei, mudei de emprego, aprendi a guiar em estradas geladas. Olho
para trás e orgulho-me do caminho na mesma medida em que se me esvazia o
coração e os pulmões a pensar que se calhar virei uma esquina enganada e tudo
mudou, dominós que desmaiam numa sequencia aditiva. Porque ainda me batem no
peito dois coracoes.
Volto porque me pergunto se não será cronica
esta coisa da ansiedade e se não terá de ser sempre assim. Volto porque não sei
se sei fazer de outra maneira senão com respirações curtas, shallow breathing
como dizem os peritos. Volto porque me faltam – como sempre me faltaram – os
talentos para saber falar com pessoas de carne e osso. Falo por isso a pessoas de zeros-e-uns, escondidas no éter. Volto porque me faz falta o que
deixei para trás. Os amigos, as brincadeiras, os silêncios, as aventuras, os
lugares conhecidos, as descobertas. Volto porque todos os caminhos que faço
hoje são guiados, seja por mapas ou coordenadas, por indicações ou referências
de cores e de casas. Volto porque nenhum desses caminhos é automático e
desprendido, porque me faltam os caminhos de sempre ou os caminhos de dentro
que não precisam de navegação.
Volto porque me batem no peito dois coracoes.
Um quieto e confiante, que diz que é assim que tem de ser e olha a sorte que
tens hoje e agora. Outro descompassado, em desassossego, que me acorda a meio
da noite em angústias do ontem e do amanha. Volto aqui porque podia simplesmente copiar nas
próximas linhas a última coisa que escrevi. Em seis anos tudo mudou. E tudo
ficou na mesma.