6 de dezembro de 2018

Não voltar ao lugar onde se foi feliz.


Há pouco mais de seis anos saí daqui a dizer que me batiam no peito dois corações. E há bem mais tempo que isso aprendi que não se deve voltar ao lugar onde se foi feliz. Estranhamente volto, com a língua enferrujada e a hesitação de quem escolheu outro caminho e volta timidamente atrás. Não sei bem se é voltar atrás ou simplesmente voltar, mas o facto é que estou aqui. E ainda me batem no peito dois corações.

Em seis anos tudo mudou: mudei de país três vezes, adoptei dois cães, reaprendi uma língua, comprei uma casa num vale perdido, casei, mudei de emprego, aprendi a guiar em estradas geladas. Olho para trás e orgulho-me do caminho na mesma medida em que se me esvazia o coração e os pulmões a pensar que se calhar virei uma esquina enganada e tudo mudou, dominós que desmaiam numa sequencia aditiva. Porque ainda me batem no peito dois coracoes.

Volto porque me pergunto se não será cronica esta coisa da ansiedade e se não terá de ser sempre assim. Volto porque não sei se sei fazer de outra maneira senão com respirações curtas, shallow breathing como dizem os peritos. Volto porque me faltam – como sempre me faltaram – os talentos para saber falar com pessoas de carne e osso. Falo por isso a pessoas de zeros-e-uns, escondidas no éter. Volto porque me faz falta o que deixei para trás. Os amigos, as brincadeiras, os silêncios, as aventuras, os lugares conhecidos, as descobertas. Volto porque todos os caminhos que faço hoje são guiados, seja por mapas ou coordenadas, por indicações ou referências de cores e de casas. Volto porque nenhum desses caminhos é automático e desprendido, porque me faltam os caminhos de sempre ou os caminhos de dentro que não precisam de navegação.

Volto porque me batem no peito dois coracoes. Um quieto e confiante, que diz que é assim que tem de ser e olha a sorte que tens hoje e agora. Outro descompassado, em desassossego, que me acorda a meio da noite em angústias do ontem e do amanha. Volto aqui porque podia simplesmente copiar nas próximas linhas a última coisa que escrevi. Em seis anos tudo mudou. E tudo ficou na mesma.