30 de novembro de 2010

Os verbos estar e ser.

Não sei nada sobre separar a alma do corpo. Se soubesse não me tinha entregue há já muito tempo à dormência cínica de uma solidão artificial, pontilhada aqui e ali por seduções de algibeira, tão pueris como inconsequentes, tão alheadas como desinteressantes. Continuo a acreditar no amor - aliás, não é de amor que estou a falar. Continuo a acreditar na infinita capacidade que um olhar, um sorriso, um cuidado pode ter de mudar o rumo dos dias. Continuo a acreditar na possibilidade do amor, na minha capacidade de me maravilhar com o mundo e com as pessoas. Só não sei até que ponto a minha profissionalização no cinismo emocional pode fazer com que isto mude. Para já estou no limbo. Sinto ainda que se me despir fico com o o coração a nú, com a alma virada para fora e sem a capacidade de traduzir as ideias em coisas. Pensar e sentir são, definitivamente, duas coisas diferentes. Mas com a particularidade de, muitas vezes, acontecerem em simultâneo, uma espécie de epifania-vertigem das coisas que não sei se "estou" ou "sou". Para já estou no limbo. E para saltar de cima do muro preciso de perceber se, no que diz respeito à alma e ao corpo, já esgotei o meu direito à inocência e daqui para a frente vai ser sempre assim um cinismo dormente.

5 mistérios insondáveis das viagens de avião

1. Porque é que, ainda antes de a porta de embarque abrir e tendo um lugarzinho marcado só para si, o douto passageiro teima em ficar numa fila interminável em frente a uma porta fechada? É uma forma de pressão sobre a equipa de terra? Está a treinar para a visita trimestral à repartição de finanças?

2. Porque é que, tendo espaço na bagageira por cima da cabeça, o douto passageiro decide transportar a mala, casaco, computador e saco do freeshop algures entre o espaço debaixo do banco da frente e o colo? É medo de que os macacos anões que vivem nas bagageiras vasculhem os seus pertences? É levar demasiado à letra a regra de não deixar a bagagem desacompanhada?

3. Porque é que o douto passageiro aplaude quando o avião aterra? É porque a porta do piloto está fechada e não dá para ir lá dar uma gorjeta? É porque o curso de aviação comercial permite avaliar a perfeição com que o piloto se fez à pista?

4. Porque é que, assim que o avião aterra, antes de o sinal de apertar os cintos se apagar e antes de as portas abrirem, o douto passageiro se levanta? É porque prefere, em vez de estar sentado, estar em pé de pescoço torcido por tempo indeterminado? É porque tem medo que não o deixem sair e seja condenado a viajar em círculos pelo espaço aéreo internacional para toda a eternidade?

5. Porque é que, antes sequer de o tapete de bagagens começar a rolar, o douto passageiro se enfia num buraquinho entre outros doutos passageiros, à laia de construção devota de barreira humana? É porque o tapete não anda à roda e se não se apanha logo a mala ela vai para o buraco negro da bagagem negligenciada? É porque, não vá o diabo tecê-las, a mala pode ir embora sozinha e não ter a morada de casa?

Tenho de ir à wikipédia.

20 de novembro de 2010

Da inexorabilidade do nome.

86 anos, nascida nas beiras, criada no Brasil, construiu a família à sombra da serra. A Preciosa e eu percorremos 300km de mão dada na ambulância e três décadas de amor incondicional. Hoje só queria que pudéssemos caminhar mais um bocadinho, um pé à frente do outro, comigo a repetir-lhe baixinho o quanto honra o nome próprio todos os dias.

18 de novembro de 2010

Da genética.

Sou filha de uma diáspora qualquer. E é como se diz por aí: filho és pai serás, como fizeres assim acharás.

14 de novembro de 2010

Postcards from Italy

Há músicas que cheiram ao passado e me lembram, com a distinta clareza de uma madrugada depois da chuva, das coisas que fizeram valer a pena chegar até aqui. É uma espécie de melancolia-alegre, uma ternura guardada num postal antigo. Não sei se a memória me trai quando me traz só as coisas boas desses dias, não sei se é um revivalismo tonto do que já foi e, como diziam os outros na canção, não volta a ser. Não sei se é a distância no tempo ou memória de passarinho, mas de repente tenho um ataque súbito de saudades do que fomos e de quando tudo era simples e bom. De quando não havia perguntas ou se as havia tinham respostas de encontro. Não sei se é um arrebatamento solitário, este bocado de fim de domingo, o dia em que - já o sabíamos então - não se combina programas, fica-se, só se fica, sem mais nada. Não sei se é um engano, história fabricada no silêncio desolado, um capricho do coração, truque de prestidigitador. Mas de repente, no quieto desta casa que nunca foi a tua, tenho um bocadinho(dão) de saudades tuas. Do que fomos. E acho que pela primeira vez não me sabem amargas.

12 de novembro de 2010

De coração cheio.

Há uma Lisboa escondida que me orgulha e enternece: esta noite no Saldanha vi centenas de sorrisos e acenos, gente na rua a celebrar. Agradeceu-se de peito aberto anos de carinho desinteressado que um homem deu à cidade, que me deu a mim e cada um de nós que por ali passou, apitou, acenou. Celebrou-se a vida daquele senhor, disse-se um adeus sentido, entre sorrisos honestos e cúmplices de gente que fala a mesma língua. Voltei para casa de coração cheio, a transbordar. Porque sei que, se ainda cá estivesse, o Senhor do Adeus teria sorrido, acenado e soprado um beijo a cada um de nós que por ali passou. Eu aceno de volta e digo num sorriso mudo: Obrigada João. Até sempre.

11 de novembro de 2010

Há um senhor do adeus...

Há um senhor do adeus a dizer olá em cada um de nós.