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30 de julho de 2012

Batem no meu peito dois corações.

Batem no meu peito dois corações. Um quieto, confiante. Outro descompassado, em desassossego. Um está aqui e agora. Outro salta a linha do tempo, atlético, passo largo entre o passado e o futuro. Um que sabe para onde vai, passo certo e seguro. Outro pára de repente, congelado no que vai ser. Um empurra. Outro quer. Um caminha. Outro tropeça. Um segura. Outro deixa (se) cair. Um dá. Outro esconde. Um abre. Outro recolhe pedacinhos, põe num saco e fecha-o bem. Um de porta aberta. Outro a sete chaves. Batem no meu peito dois corações.

5 de julho de 2011

Falo contigo.

Falo contigo sem falar porque há um ponto em que só consigo escrever. É uma coisa minha, cá de dentro. Sempre fui assim: quando consigo falar é porque as coisas nem estão muito más, quando pioram só consigo que as coisas saiam escritas, letra a letra, quase a ferros. É terapêutica, esta coisa de escrever. É um saco onde se guardam as letras e se deixam escorrer pelas paredes feitas do tecido invisível dos dias.  Falo contigo. Mas não te posso dizer a falar que não durmo duas horas seguidas sem acordar de sobressalto. Não faz sentido que te diga isso quando não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me angustia esta coisa de estar intrinsecamente sozinha e que por mais que esteja acompanhada me sinto só. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que é a primeira vez na vida que duvido da minha tenacidade e do meu valor. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me falha o pé em coisas que sempre soube serem verdade. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me cansa a ruína dos dias. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me dói a dor dos velhos, cá no fundo do coração, como quem desistiu de esperar por amanhã. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que apesar de fazer por me divertir no caminho me pesam as pernas ao andar. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que estou a aprender a viver meia vida com meio coração. 
Por isso é que te escrevo, quase rezo. Porque não to sei dizer a falar.

18 de maio de 2011

T4

Bem vistas as coisas, o coração é um T4. Tem dois átrios e dois ventrículos, uma espécie de nome pomposo para quarto interior. Tem muito espaço, portanto.

15 de maio de 2011

A minha mãe.

A minha mãe é uma mulher engraçada. Precisei de crescer, de ser mulher, para entender a mulher que a minha mãe é. Quem nos viu e quem nos vê, quinze anos passados sobre as portas a bater, os gritos, as ofensas, as frases horríveis que, quando damos por nós, é tarde demais. Já não se pode voltar atrás. Há palavras que são pontos de viragem. Há frases que são pontos de não-retorno. Não podendo retornar vai-se à volta. Aprendi eu, já agora, depois de ser mulher suficiente para perceber a mulher que a minha mãe é. Onde bati com a porta, lavada em lágrimas, dou por mim a abrir uma janela, devagarinho. E onde a minha mãe trancou a caixa, dedo em riste, dá por ela a desdobrar o lenço bordado onde guardou as chaves. Há coisas que podemos saber mas não sabemos. Eu sempre soube que ela tinha razão. Agora sei que sim.

14 de novembro de 2010

Postcards from Italy

Há músicas que cheiram ao passado e me lembram, com a distinta clareza de uma madrugada depois da chuva, das coisas que fizeram valer a pena chegar até aqui. É uma espécie de melancolia-alegre, uma ternura guardada num postal antigo. Não sei se a memória me trai quando me traz só as coisas boas desses dias, não sei se é um revivalismo tonto do que já foi e, como diziam os outros na canção, não volta a ser. Não sei se é a distância no tempo ou memória de passarinho, mas de repente tenho um ataque súbito de saudades do que fomos e de quando tudo era simples e bom. De quando não havia perguntas ou se as havia tinham respostas de encontro. Não sei se é um arrebatamento solitário, este bocado de fim de domingo, o dia em que - já o sabíamos então - não se combina programas, fica-se, só se fica, sem mais nada. Não sei se é um engano, história fabricada no silêncio desolado, um capricho do coração, truque de prestidigitador. Mas de repente, no quieto desta casa que nunca foi a tua, tenho um bocadinho(dão) de saudades tuas. Do que fomos. E acho que pela primeira vez não me sabem amargas.

6 de abril de 2010

Do sítio das coisas selvagens.

Assaltou-me ontem a frase do filme: "I want you to be kind forever Max". Entrou-me de rompante na cabeça, como um aviso, uma premonição. Ser-se amável, bondoso, generoso, de coração aberto é provavelmente uma das características que mais me fascina nas pessoas. É um percurso difícil, o do amor. Sermos capazes manter limpo o coração e continuar a acreditar em coisas boas. Porque é fácil tornarmo-nos amargos e cínicos à conta de tanta paulada e lixo que a vida nos traz, é fácil ser-se mordaz e corrosivo, desconfiado e pessimista. Difícil e louvável, acredito, é ser-se capaz de aceitar o outro com as heranças que se traz, com as coisas menos boas, com os defeitos, com a bagagem. É aceitar-se de peito aberto o que as viagens alheias provocam na nossa viagem, o que os tropeções dos outros nos trazem de lição. E abraçar o erro, o medo, a bagagem, a herança. De peito aberto, sem listas ou regras de como deve ser. Por isso é que, quando for grande, quero ser maior.

23 de março de 2010

A minha vida não é minha.

Soube-o desde sempre. Trago esta ideia dentro de mim mesmo antes de ter nascido. Sei-o como quem sabe pôr um pé à frente do outro para andar, sei-o como quem sabe procurar água quando tem sede, sei-o como quem foge quando vê o perigo. Sei-o. Sei que a minha vida não é minha e que nasci de mãos abertas. Parece críptica esta ideia, mas na verdade nada há de mais simples, de mais elementar. Nada há de mais puro, mais bonito, mais verdade. Saber que a minha vida não é minha e que o meu potencial só se realiza nos outros é um caminho duro mas verdadeiro. É um caminho solitário mas que me enche por dentro. Nascer de mãos abertas é, provavelmente, o maior privilégio de todos. Nascer para entregar a vida é trazer por dentro a gratidão, a transparência, a humildade, a generosidade. Sem peneiras, sem superioridade, sem maldade, sem arrogância. Não é altruísmo, de todo - é saber que se é feito para os outros, pelos outros. E tirar o maior prazer e a maior realização disso. É uma construção do "eu" no outro, é a realização da nossa humanidade no projecto humano de quem está ao nosso lado. Não é esoterismo, é real, palpável, imenso e físico. É vital. E ter descoberto isso sobre mim foi a maior revelação de todos os tempos. Tinha 17 anos quando o descobri, construí e depois perdi o pé, perdi-me de mim. Fiz recentemente ruir todo um caminho de fuga a isso e na desintegração recomecei a trilhar. Na ruptura olhei para o espaço que tinha preenchido com outras coisas, outras vidas. E esvaziei-o. E é esse vazio que trago - não para ser cheio mas para ser protegido, para ser veículo das coisas que tenho de fazer. Tenho sorte. Tenho a sorte de fazer profissionalmente uma coisa que me permite usar isso, explorar isso, seguir o caminho, o meu caminho. E celebro essa sorte todos os dias, nas pequenas coisas que fazem valer a pena ser hoje. Porque sim.  

17 de março de 2010

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.