23 de março de 2010

A minha vida não é minha.

Soube-o desde sempre. Trago esta ideia dentro de mim mesmo antes de ter nascido. Sei-o como quem sabe pôr um pé à frente do outro para andar, sei-o como quem sabe procurar água quando tem sede, sei-o como quem foge quando vê o perigo. Sei-o. Sei que a minha vida não é minha e que nasci de mãos abertas. Parece críptica esta ideia, mas na verdade nada há de mais simples, de mais elementar. Nada há de mais puro, mais bonito, mais verdade. Saber que a minha vida não é minha e que o meu potencial só se realiza nos outros é um caminho duro mas verdadeiro. É um caminho solitário mas que me enche por dentro. Nascer de mãos abertas é, provavelmente, o maior privilégio de todos. Nascer para entregar a vida é trazer por dentro a gratidão, a transparência, a humildade, a generosidade. Sem peneiras, sem superioridade, sem maldade, sem arrogância. Não é altruísmo, de todo - é saber que se é feito para os outros, pelos outros. E tirar o maior prazer e a maior realização disso. É uma construção do "eu" no outro, é a realização da nossa humanidade no projecto humano de quem está ao nosso lado. Não é esoterismo, é real, palpável, imenso e físico. É vital. E ter descoberto isso sobre mim foi a maior revelação de todos os tempos. Tinha 17 anos quando o descobri, construí e depois perdi o pé, perdi-me de mim. Fiz recentemente ruir todo um caminho de fuga a isso e na desintegração recomecei a trilhar. Na ruptura olhei para o espaço que tinha preenchido com outras coisas, outras vidas. E esvaziei-o. E é esse vazio que trago - não para ser cheio mas para ser protegido, para ser veículo das coisas que tenho de fazer. Tenho sorte. Tenho a sorte de fazer profissionalmente uma coisa que me permite usar isso, explorar isso, seguir o caminho, o meu caminho. E celebro essa sorte todos os dias, nas pequenas coisas que fazem valer a pena ser hoje. Porque sim.  

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