Não acredito na figura paternalista de deus. Não acredito na lei de punição e castigo, em crescer no medo, no arrependimento do pecado, no moralismo. Não sou fã da cegueira religiosa, não sou fã de cegueiras em geral. Tenho uma relação com a transcedência que não emana das figuras montadas e pintadas. A minha relação com a transcendência está, sobretudo, nas pessoas e nos detalhes. Apaixonam-me as pessoas que me dizem coisas, que me fazem sentido. Apaixona-me o riso, o humor, a curiosidade, as frapas, a pequena insanidade, a generosidade, a empatia, a doçura, a convicção, o enleio, o abraço, o desassossego, o peito aberto, a coragem. Apaixonam-me os detalhes pequeninos dos dias: o primeiro dia de sol depois da tempestade, um copo de vinho, a chuva na janela, um riso, uma rua calcetada, as rugas de um velho, uma porta aberta, um jardim na cidade, uma lareira acesa, a cama feita de lavado, um lanche de amigos, o sal na pele depois dos mergulhos, o cheiro de café a torrar, o vento quente depois do sol se pôr.
A minha relação com a transcendência é assim, pão com manteiga dos dias.
7 de março de 2010
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