Não acredito na figura paternalista de deus. Não acredito na lei de punição e castigo, em crescer no medo, no arrependimento do pecado, no moralismo. Não sou fã da cegueira religiosa, não sou fã de cegueiras em geral. Tenho uma relação com a transcedência que não emana das figuras montadas e pintadas. A minha relação com a transcendência está, sobretudo, nas pessoas e nos detalhes. Apaixonam-me as pessoas que me dizem coisas, que me fazem sentido. Apaixona-me o riso, o humor, a curiosidade, as frapas, a pequena insanidade, a generosidade, a empatia, a doçura, a convicção, o enleio, o abraço, o desassossego, o peito aberto, a coragem. Apaixonam-me os detalhes pequeninos dos dias: o primeiro dia de sol depois da tempestade, um copo de vinho, a chuva na janela, um riso, uma rua calcetada, as rugas de um velho, uma porta aberta, um jardim na cidade, uma lareira acesa, a cama feita de lavado, um lanche de amigos, o sal na pele depois dos mergulhos, o cheiro de café a torrar, o vento quente depois do sol se pôr.
A minha relação com a transcendência é assim, pão com manteiga dos dias.
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7 de março de 2010
18 de fevereiro de 2010
Dos detalhes.
Está no paladar, no cheiro, na temperatura. Está na forma de pousar as coisas no prato com um ar entre o cuidado e o acidental. Está num fim-de-boca de anis no leite creme. Está na ponta dos indicadores que ajeitam uma peça montada num puzzle bem feito. Está numa textura que se derrete na boca. Está no equilíbrio doce-sal. Está na informalidade numa cozinha que não é vedada a quem passa. Está num vinho que se combina com este ou aquele sabor. Está no riso descomprometido de quem faz por amor. Está no provar o sal e rasgar as folhas com a ponta dos dedos. Não preciso de experiências religiosas para saber que deus está seguramente nos detalhes. Está na mesa.
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