20 de abril de 2010
Hoje é um daqueles dias.
Hoje é um daqueles dias em que só me apetece deixar-me ir no marasmo e deixar de nadar contra a corrente. Hoje é um daqueles dias em que só me apetece não ter de fazer, façam com que as coisas apareçam feitas e tratadas, truque de prestidigitador. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece decidir e hoje, só hoje, decidam tudo por mim: da escolha do almoço à palavra final no projecto. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece aconselhar, apoiar, guiar ou conduzir, guiem-me, olhos vendados em confiança cega como a justiça. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece pôr um pé à frente do outro, ponham-me rodas e empurrem-me rua abaixo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece fazer o jantar, ponham-me um funil como se fossem fazer paté. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece impor ritmo, digam-me só que música tenho de dançar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir a porta do armário e escolher, vistam-me uma coisa qualquer só para não ir para a rua como vim ao mundo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir nem fechar, subir nem descer, empurrar nem puxar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece falar, deixem-me só aqui sossegada com os meus botões que já há vozes demais. Hoje é um daqueles dias em que foi o dia todo ao contrário do que me apetecia. Amanhã vai ser melhor.
18 de abril de 2010
Apercebi-me agora...
... que estive 11 dias sem publicar nada neste fórum. Shame on me (esta não é alheia, é minha mesmo).
Vergonha alheia.
Sofro de um mal que muito me aflige: a vergonha alheia. Quando menos espero há uma crise que me assalta e me contorce as entranhas. Não sou habitualmente capaz de prever quando vai acontecer, aparece muitas vezes sem aviso e sem sintomas. Não tenho como dizer "acho que estou a chocar uma crise de vergonha alheia". E não há panaceia que me valha. Sempre que acontece, à semelhança de crises de urticária e insónia, não há muito a fazer: respiro fundo, franzo a testa e, sempre que possível, escondo a cara na gola de um casaco ou numa almofada. Esta coisa da vergonha alheia é embaraçosa e cansativa: já não me bastam as vezes todas que faço eu própria figuras tristes e me envergonho, também tenho de me envergonhar com as coisas dos outros. Foi mais ou menos isso que me aconteceu ontem, deitada no sofá, a ver o novo programa do Herman José.
7 de abril de 2010
Dá-me um certo alento...
...esta coisa de estar de janela aberta a ouvir ensaios entusiásticos de marchas populares. Já me sabe a sardinha assada, já me cheira a manjerico.
10 desejos para amanhã.
1. pés descalços na relva.
2. beijos molhados de mar.
3. bolo de cenoura da avó laurinha.
4. amigos e tempo para jogar conversa fora.
5. sessão das sete no Barbican.
6. choco frito do Domingos.
7. ping pong de ideias surreais e impraticáveis.
8. por-do-sol a saber a gin tónico com pepino.
9. sobrancelha franzida da sobrinha.
10. cansaço de praia ao fim do dia.
*vai ser um dia difícil, só me restam estas viagens de espírito.
2. beijos molhados de mar.
3. bolo de cenoura da avó laurinha.
4. amigos e tempo para jogar conversa fora.
5. sessão das sete no Barbican.
6. choco frito do Domingos.
7. ping pong de ideias surreais e impraticáveis.
8. por-do-sol a saber a gin tónico com pepino.
9. sobrancelha franzida da sobrinha.
10. cansaço de praia ao fim do dia.
*vai ser um dia difícil, só me restam estas viagens de espírito.
6 de abril de 2010
Do sítio das coisas selvagens.
Assaltou-me ontem a frase do filme: "I want you to be kind forever Max". Entrou-me de rompante na cabeça, como um aviso, uma premonição. Ser-se amável, bondoso, generoso, de coração aberto é provavelmente uma das características que mais me fascina nas pessoas. É um percurso difícil, o do amor. Sermos capazes manter limpo o coração e continuar a acreditar em coisas boas. Porque é fácil tornarmo-nos amargos e cínicos à conta de tanta paulada e lixo que a vida nos traz, é fácil ser-se mordaz e corrosivo, desconfiado e pessimista. Difícil e louvável, acredito, é ser-se capaz de aceitar o outro com as heranças que se traz, com as coisas menos boas, com os defeitos, com a bagagem. É aceitar-se de peito aberto o que as viagens alheias provocam na nossa viagem, o que os tropeções dos outros nos trazem de lição. E abraçar o erro, o medo, a bagagem, a herança. De peito aberto, sem listas ou regras de como deve ser. Por isso é que, quando for grande, quero ser maior.
5 de abril de 2010
Com toda a humildade vos digo...
... faço minhas as palavras* do Lobo Antunes:
"Falo pouco, fico calado, a sentir. Dizer o quê? Se pudesse abrir o peito às pessoas e mostrar o que está dentro. Quanto mais gosto das pessoas mais emudeço"
* A verdade é que não falo pouco, falo que me desunho. Mas no essencial falta-me o verbo.
1 de abril de 2010
Da primavera.
Não são as flores ou os polens. Não são as abelhas. Não é a relva fresca a despontar debaixo dos pés. Não são as avenidas largas com nevoeiros feitos de esporos brancos no ar. Não são as andorinhas que fazem a primavera. Faz-se por dentro. Faz-se coração em sobressalto, pequenas apneias dos dias. Faz-se sorrisos sem razão de ser. Faz-se formigas nos pés. Faz-se borboletas na barriga. Faz-se fogo e lume que não se vê. Faz-se olhos. A primavera faz-se nas pontas dos dedos, faz-se ali a meio caminho entre a barriga e a garganta, faz-se na pele de galinha. Faz-se a primavera no desassossego sossegado das coisas boas que nos surpreendem ao virar da esquina. Faz-se nas coisas que olhamos na conclusão surpreendida de que sempre estiveram ali. Faz-se herança de coisas que foram e saudade do que está para vir. Faz-se coisas novas incrivelmente familiares. Faz-se pequenos nadas que afinal são tudo. Faz-se gestos que, de tão simples, não cabem no mundo. Faz-se passo-de-mágica. Faz-se silêncio que não nos faz mal. Faz-se palavras que se dizem sem se dizer. Faz-se primavera por dentro, para condizer com a que se faz por fora.
Encontrei as palavras. Afinal, trago a primavera na ponta da língua.
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