Não é de hoje que tenho casa sem a ter. Desterrada por dentro, faço ninho sempre que aterro num espaço novo. A minha amiga S', também ela deterrada, diz que nem quadros na parede consegue pôr porque as casas não são dela. Ao contrário da S' eu penduro quadros, ponho tapetes, faço arranjos, pinto, planto, ocupo, arrumo, arranjo, amanho, faço de conta que é "casa" a casa que nunca é. Brinco às casinhas num vão-de-escada qualquer. Faço casa sem a ter, sem a ser. Tramada esta coisa da geografia-morada, até porque nunca encontro aquela linha de livro de auto-ajuda que diz que a casa é onde está o coração. O meu não tem residência fixa, é de não-lugares, de não-coisas, coração de desterro. E não é o fascínio melancólico pelas margens distantes, isso já eu sei - até porque já não é qualquer margem distante que me atrai, apesar de serem as mais distantes que mais me chamam, aquelas que precisam de conquista. Mudar de casa, de morada, de código postal não me custa. Não odeio mudanças. Não me cansam os caixotes e as carrinhas, não me maçam as papeladas. Não me custa, até me agrada. Porque cada mudança anunciada traz na ponta da língua o sabor da aventura, do desconhecido, do pode-ser. E essa sim é a minha margem, a minha casa.
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26 de setembro de 2010
7 de abril de 2010
Dá-me um certo alento...
...esta coisa de estar de janela aberta a ouvir ensaios entusiásticos de marchas populares. Já me sabe a sardinha assada, já me cheira a manjerico.
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