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2 de maio de 2011

Alma de Nemo.

De cada vez que venho às ilhas só me apetecer cá ficar. Ter crescido insular deixou marcas profundas, não posso estar rodeada de mar por todos os lados que começo logo a dar à cauda (de peixe, claro). Fico feliz com esta coisa de estar plantada no meio do oceano. Cá coisas. Vou voltar depressa a este lugar, dá-me alento e coração.

7 de setembro de 2010

Da precipitação.

Filha de um químico, nunca me faltaram o Lavoisier, o Chang, o Mendeleev, o Boyle, o Raoult. Cresci no meio da ideia de que a química fazia tudo no mundo e que o mundo fazia tudo da química. Fui criada e fiz-me gente numa educação cartesiana, embalada na lógica matemática, abraçada na sedução mágica da razão, açoitada pela racionalidade porque se-não-vês-não-existe-e-se-não-se-repete-não-se-pode-provar. Quando sonhava alto, sonhava nos corredores de míticos laboratórios secretos, uma alquimia de Panoramix. Nunca aprendi música, nunca aprendi dança, nunca aprendi a desenhar - a não ser aquela disciplina herdada do estado novo, aquela do desenho técnico e da tortuosa linha perfeita a tinta-da-china (sem borrar nada senão a menina tem de começar tudo de novo). Cresci cartesiana, penso logo existo. "É disciplinada mas muito dramática." dizia a professora primária em tom de uma-no-cravo-outra-na-ferradura. "É inteligente mas muito precipitada." dizia a outra da preparatória, exactamente no mesmo tom. E nesta crítica (a que o meu pai chamava lição e dizia, com razão, que era só assim que se aprendia) eu frustrava os meu imberbes complexos de super-herói e fazia beicinho porque tinha tido 19.8 em vez de 20, com certeza era burra. Ficou-me a lição da precipitação. Lembro-me de não percebido e de ter andado às voltas com aquilo muito tempo. É que a precipitação para mim era aquele fenómeno químico em que o sólido se separa do líquido em que está diluído e se deposita quieto no fundo do balão de erlenmeyer. E lembro-me de pensar que se a lição era ficar quieta no fundo eu não queria - e por isso tinha porque tinha de aprender a resolver a precipitação.

Hoje já sei o que é a precipitação além da química. Mas ainda não a consegui resolver.

6 de abril de 2010

Do sítio das coisas selvagens.

Assaltou-me ontem a frase do filme: "I want you to be kind forever Max". Entrou-me de rompante na cabeça, como um aviso, uma premonição. Ser-se amável, bondoso, generoso, de coração aberto é provavelmente uma das características que mais me fascina nas pessoas. É um percurso difícil, o do amor. Sermos capazes manter limpo o coração e continuar a acreditar em coisas boas. Porque é fácil tornarmo-nos amargos e cínicos à conta de tanta paulada e lixo que a vida nos traz, é fácil ser-se mordaz e corrosivo, desconfiado e pessimista. Difícil e louvável, acredito, é ser-se capaz de aceitar o outro com as heranças que se traz, com as coisas menos boas, com os defeitos, com a bagagem. É aceitar-se de peito aberto o que as viagens alheias provocam na nossa viagem, o que os tropeções dos outros nos trazem de lição. E abraçar o erro, o medo, a bagagem, a herança. De peito aberto, sem listas ou regras de como deve ser. Por isso é que, quando for grande, quero ser maior.