Hoje já sei o que é a precipitação além da química. Mas ainda não a consegui resolver.
7 de setembro de 2010
Da precipitação.
Filha de um químico, nunca me faltaram o Lavoisier, o Chang, o Mendeleev, o Boyle, o Raoult. Cresci no meio da ideia de que a química fazia tudo no mundo e que o mundo fazia tudo da química. Fui criada e fiz-me gente numa educação cartesiana, embalada na lógica matemática, abraçada na sedução mágica da razão, açoitada pela racionalidade porque se-não-vês-não-existe-e-se-não-se-repete-não-se-pode-provar. Quando sonhava alto, sonhava nos corredores de míticos laboratórios secretos, uma alquimia de Panoramix. Nunca aprendi música, nunca aprendi dança, nunca aprendi a desenhar - a não ser aquela disciplina herdada do estado novo, aquela do desenho técnico e da tortuosa linha perfeita a tinta-da-china (sem borrar nada senão a menina tem de começar tudo de novo). Cresci cartesiana, penso logo existo. "É disciplinada mas muito dramática." dizia a professora primária em tom de uma-no-cravo-outra-na-ferradura. "É inteligente mas muito precipitada." dizia a outra da preparatória, exactamente no mesmo tom. E nesta crítica (a que o meu pai chamava lição e dizia, com razão, que era só assim que se aprendia) eu frustrava os meu imberbes complexos de super-herói e fazia beicinho porque tinha tido 19.8 em vez de 20, com certeza era burra. Ficou-me a lição da precipitação. Lembro-me de não percebido e de ter andado às voltas com aquilo muito tempo. É que a precipitação para mim era aquele fenómeno químico em que o sólido se separa do líquido em que está diluído e se deposita quieto no fundo do balão de erlenmeyer. E lembro-me de pensar que se a lição era ficar quieta no fundo eu não queria - e por isso tinha porque tinha de aprender a resolver a precipitação.
Hoje já sei o que é a precipitação além da química. Mas ainda não a consegui resolver.
Hoje já sei o que é a precipitação além da química. Mas ainda não a consegui resolver.
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A química é uma disciplina solitária. Tal como a física. Daí terem criado a fisico-química. You put those two in the same room and sparks will fly... ;)
ResponderEliminarAs aulas de fisico-química no liceu davam de facto faísca ;-)
ResponderEliminarJoani, a solução para ti é um reagente químico. Uma pitada de cloreto de sódio - o 'sal da vida' :-)
ResponderEliminarS', my fellow chemist... :-) Isso fez-me lembrar aquele poema do António Gedeão (lágrima de preta, o único poema que memorizei inteirinho na vida.
ResponderEliminaré lindo, é. e tu fizeste-me lembrar a minha outra vida. touché :P
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