Desde que soube trago uma bola no peito. Quanto mais penso nisso mais sei - e sinto - que gostar de ti é sentir a tua dor no meu coração. É ver o sorriso da tua filha e o sorriso do teu pai misturados na minha imaginação e querer ver-te sorrir outra vez. Não sei explicar bem isto, nunca tive muito jeito para estas coisas de dizer os sentimentos e, sobretudo, nunca sei o que dizer nestas circunstâncias, talvez por saber que nada do que se possa dizer ameniza a dor ou faz sarar alguma coisa. Só o tempo traz a serenidade, a paz de aceitar que alguém partiu. Soubesse eu rezar e disparava avé-marias a pedir o conforto do teu coração, a pedir que fiques bem, que encontres um lugar qualquer onde esta coisa toda faça um sentido maior. Não sei rezar, por isso escrevo-te um beijo e um abraço: para te dizer que mesmo quando não estou, estou cá. Para o que precisares de mim. Como precisares de mim. Porque gosto muito de ti, do fundo do coração.
Beijos e até já,
J.
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4 de maio de 2012
5 de julho de 2011
Falo contigo.
Falo contigo sem falar porque há um ponto em que só consigo escrever. É uma coisa minha, cá de dentro. Sempre fui assim: quando consigo falar é porque as coisas nem estão muito más, quando pioram só consigo que as coisas saiam escritas, letra a letra, quase a ferros. É terapêutica, esta coisa de escrever. É um saco onde se guardam as letras e se deixam escorrer pelas paredes feitas do tecido invisível dos dias. Falo contigo. Mas não te posso dizer a falar que não durmo duas horas seguidas sem acordar de sobressalto. Não faz sentido que te diga isso quando não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me angustia esta coisa de estar intrinsecamente sozinha e que por mais que esteja acompanhada me sinto só. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que é a primeira vez na vida que duvido da minha tenacidade e do meu valor. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me falha o pé em coisas que sempre soube serem verdade. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me cansa a ruína dos dias. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me dói a dor dos velhos, cá no fundo do coração, como quem desistiu de esperar por amanhã. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que apesar de fazer por me divertir no caminho me pesam as pernas ao andar. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que estou a aprender a viver meia vida com meio coração.
Por isso é que te escrevo, quase rezo. Porque não to sei dizer a falar.
10 de junho de 2011
30 de maio de 2011
28 de dezembro de 2010
20 de julho de 2010
Da inevitabilidade.
Não se segura o riso, não se seguram as lágrimas. Coração na mão, alma na mesa, mesmo ali ao lado do copo de sumo de laranja com maracujá. O maracujá dá sono, pensei. Mas não disse. Quero ajudar as pessoas a não deixar fugir a imaginação, a não deixar de ver cães com asas e céus cor-de-pastel-de-nata. Quero ajudar a crescer na alegria, no riso, no amor. Sabes bem que foi para isso que nasci, para dar aos outros e para ajudar a crescer. Sabias isto desde sempre e esperaste até ao fim do jantar para me trazer a resposta das coisas todas que já sabias, mesmo que não soubesses que sabias. Há uma página por escrever, a primeira das páginas todas. A primeira página das histórias do primeiro namorado de rabicho piroso que na década de noventa tinha uma pinta descomunal. A primeira página das dores de coração que se alastram para a garganta e me prendem a perna esquerda em dor ciática (tive vergonha de te contar). A primeira página de uma história de um amor de caserna que é o nosso, porque sabemos que se não nos tivéssemos encontrado hoje teria de ser amanhã. Porque o mundo era um sítio muito pior se não te tivesse por perto para me dares a mão ao coração e para me contares uma história que começa com "my dog". E eu a comover-me com cada palavra que te saía das mãos porque o meu cão tem mesmo asas. E o meu coração também. Por isso é que é bom e tem coisas para dar, porque pode voar para longe e trazer-te lá dentro, porque podes voar para longe e ficar aqui. Porque há dias em que, às vezes à noite, me salvas a vida. E isso é infinitamente maior que falar da inevitabilidade de estarmos na vida um do outro. Obrigada Rui.
24 de junho de 2010
1 de maio de 2010
Trecho de uma carta a um amigo
"Fazer isto é ser fiel às coisas em que acredito: fazer. agir. andar para a frente. ser agente de transformação. ser motor e gasolina. (...) Sei que tenho de fazer isto. Porque nasci para limpar, para fazer crescer, para empurrar, para puxar carroças, para lidar com empresas e pessoas com potencial e, como tu dizes, "pegar nelas" - lembras-te quando dizias que "devia haver um gajo qualquer a pegar em mim"? Talvez hoje já saibas (pelo menos um bocadinho) que temos tudo em nós, as respostas todas. E que por isso podemos saltar para o vazio se o nosso instinto nos disser para o fazer. Porque o instinto, esse cabrão, é quem nos fala a dizer quem somos, é quem nos guia e nos diz que não faz mal nenhum arriscar, empurrar, puxar. Porque só assim é que se faz movimento. Tudo o resto é ficar parado."
E, quando penso nisso, acho sempre que digo as coisas importantes às pessoas importantes enquanto escrevo. E descubro coisas em mim à medida que o faço.
E, quando penso nisso, acho sempre que digo as coisas importantes às pessoas importantes enquanto escrevo. E descubro coisas em mim à medida que o faço.
21 de março de 2010
Do optimismo.
Ser optimista é uma escolha. Não é, de todo, uma predestinação ou legado. É uma opção clara de se viver a vida de determinada forma, de se acreditar em coisas boas mesmo nos maus momentos. É uma forma de ver o mundo, de olhar os percalços de frente e ter a convicção de que vai dar certo. Ser optimista não é não hesitar, não é seguir sempre em frente e ignorar os sinais. E muito menos é colocar palas no olhos e viver a vida como um pateta-alegre - dói-me que este seja o rótulo mais frequente. Ser optimista é procurar e guardar o que de maravilhoso nos acontece nos dias para ser mais fácil gerir o que de mau aparece. É ser grato pelas pequenas coisas boas de todos os dias, é resistir à tendência do cinzento. É fácil estar zangado com o mundo, triste, sorumbático - é aliás essa a nossa herança no fado e na saudade. É fácil estar-se "com os azeites" e dar patadas a tudo o que mexe à nossa volta. Esse é, acredito, o caminho mais fácil. Não nos obriga a ser melhores. Tenho por isso um fraquinho por optimistas porque essa é a verdadeira tarefa: ser-se positivo e feliz quando à volta, nas grandes sendas do mundo, pouco há a celebrar. E só por isso faz-me feliz a sorte de tropeçar à porta de casa numa parede pintada com uma mensagem boa. Simplesmente boa. E isso só por si ser capaz de mudar o rumo de um dia, de restaurar um sorriso nublado numa manhã de sábado - com abraços de amigos que regressam, rebuçados acabados de fazer, flores a sorrir à primavera que começa hoje, bilhetes com bonecos, pequenos almoços com gente de bem, ruas iluminadas pelo sol, risos descontrolados e copos de vinho ao anoitecer. O optimista alimenta-se disto. Dos presentes do deus das pequenas coisas, dos pequenos amores, das pequenas surpresas.
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17 de março de 2010
Barriga no fogão.
Acho que me vou candidatar ao Guiness como a criatura que mais jantares serve em casa para os amigos. Faz-me profundamente feliz ter sempre a casa cheia de gente que adoro. Mas o prazer também cansa. Para a semana faço greve à barriga no fogão, quem quiser aparecer que leve pão que eu tenho manteiga.
22 de fevereiro de 2010
A melhor idade.
É certo e sabido, poderão testemunhar os meus amigos, que tenho talento para a terceira idade. Não sei se é por ser antiga ou demodé, mas a verdade é que faço sucesso na faixa etária 65+. Terá provavelmente a ver com a minha paixão por histórias, pelo quanto adoro uma boa novela de época. Pode também estar relacionado com o facto de eu gostar de coisas de velhos: cartas escritas à mão, casacos de malha, iscas, genealogia, alfarrabistas. Gosto de ir à praça pela fresca, de ouvir os galos na madrugada (sim, eu sou uma pessoa do campo), de gente à janela, dos velhos sentados à sombreira da porta. Quem me tira uma conversa interminável sobre os filhos que emigraram nos anos 40 tira-me tudo. Quem me tira uma fotografia com as extremidades corroídas ofende-me. Talvez por isso goste tanto de velhinhos. Gosto da experiência que emana de coisas simples, gosto do tempo que passa devagar numa sala com escalfeta, gosto do cheiro dos baús das memórias, gosto da simplicidade com que se olha a vida depois dos 65 - só aí se começa a aprender o que é de facto fundamental. Gosto de coisas velhas, vividas, sobrevividas. E gosto das minhas pessoas assim: com história, com rugas, com marcas dos dias. Gosto das minhas pessoas antigas. Com idade para saber que, como dizia Saint-Exupéry, o essencial é invisível para os olhos. Talvez por isso os velhos e eu vejamos mal.
2 de fevereiro de 2010
Renhaunhau
Ontem foi dia de encontros e conversas, algumas planeadas outras espontâneas. Os meus encontros de ontem souberam-me pela vida. Jantei com o meu amigo Felino, costurámos 26 baínhas e rimos muito. Falou-se de homens, mulheres, de histórias de vida, passados e amanhãs. Falou-se, como não podia deixar de ser, da história da pornografia, dos avós e da genética. Falou-se de amor e querer, falou-se de amigos. E falou-se do nosso tema preferido: a curiosidade. E é engraçado, agora que penso nisso, que quando se gosta de um amigo como eu gosto do Felino, a curiosidade é coisa que não passa. Há tantas coisas mais que tem para me contar, para me dizer, para me ensinar, que eu por mim amarrava-o a uma máquina de costura em chão de pedra e fazia um bolo de chocolate mágico que não acabasse nunca. Obrigada.
28 de janeiro de 2010
Da sabedoria.
A minha amiga S' não sabe que é sábia. E às vezes arremessa pérolas de sabedoria sem sequer perceber que se pode demorar uma vida até aprender coisas que ela tem o privilégio de ser capaz de saber hoje. Por entre galões, franjas, croissants do Careca e conversas sérias, deixou-me hoje boquiaberta com uma ideia com a qual vou ficar a conversar algum tempo: o conhecimento e as oportunidades nunca chegam ao mesmo tempo. A minha amiga S' é brutal. E eu sou uma sortuda, infinitamente grata por ter na minha vida pessoas tão magníficas. Farei por merecer. Faço por merecer.
23 de janeiro de 2010
À nora.
Acho que os meus amigos se habituaram a ver-me sempre muito segura, confiante, com as respostas na ponta da língua, com tudo controlado, com um plano feito, com o instinto de ir buscar o que quero, com um mapa mais ou menos exacto de onde vou a seguir, do caminho, do veículo, das paragens. Acho que todos se habituaram a sentir em mim a solidez inabalável da preparação para todos os cenários, do jogo de cintura para lidar com tudo, do estofo para reagir. E nesta nova fase de aprender a flexibilidade, em que não me preocupo tanto com as variáveis e mais com a essência do caminho, confesso que esperava que os meus amigos ficassem à nora por me ver à nora. Confesso que esperava que ficassem à deriva por me ver navegar à bolina. E a parte mais engraçada - e que me apaixona nestas pessoas - é que em vez de ficarem à nora, brincam e espicaçam-me. Divertem-se quando me baralho e não entendo, riem-se quando pergunto e duvido, fazem piadas quando, por instinto e hábito, faço o gesto de pôr o pé na porta (que com um esforço consciente evito). E é também por isso que são tão importantes para mim, os meus amigos: porque têm uma infindável capacidade de me surpreender.
16 de janeiro de 2010
Como é que se faz?
Como raio é que se conjuga o verbo ir? Como é que se explica que as coisas são afinal simples e ou se está ou não se está? Como é que se diz ao outro que se sabe que a dor não passa de uma estrada de sentido único, sem atalhos, sem cruzamentos, sem tesouras como em Brasília. Como é que se mostra que é um caminho que tem de se fazer, sem desculpas, um quilómetro mais ou menos comprido por onde temos todos de passar. Como é que se evidencia a inevitabilidade dos percursos da dor. Como é que se mostra que há luz ao fundo do túnel e que este caminho vai dar - só pode dar - numa rotunda grande que tem outros caminhos para o que nos espera desde sempre. Como é que se lambem lágrimas a dizer que vai ficar tudo bem e como é que se faz para que outro tenha fé de que vai ser assim. Como é que se diz a certeza de que amanhã vai ser um bocadinho pior, vai pesar mais, mas que isso faz parte de um caminho que sobe e um destes dias o outro acorda e consegue respirar. Como é que se diz sem dizer que se sente a dor do outro como se fosse nossa, não tivesse eu lá estado antes. Como é que se escreve que se sabe que o outro vai ser feliz, mesmo depois disto, mesmo depois de ter visto tudo a ruir, tsunami de banheira, tremor de terra de elevador. Como é que se faz para mostrar ao outro que a felicidade chega com a consciência da dor e do porque é que dói. Como é que se diz que se sabe, porque sim, que um destes dias, inesperado, vai chegar o fim do caminho das pedras e há um arco-íris com um pote de ouro à espera. Como é que desenha a alegria de ver as pernas entrançadas nas outras, de reconhecer a cavilha da granada que se pode puxar e fazer explodir, o cabelo desarrumado na almofada, os olhares esquecidos nos olhos do outro, os dedos descansados na pele, os braços fechados num abraço dormente que não se quer largar, o pé com formigueiro debaixo da coxa, a língua a desenhar bonecos invisíveis. Como é que se explica que isto tudo é real mesmo que não esteja lá. Como é que se evita o sorriso sarcástico do outro quando se diz sem poder dar o exemplo, olha para mim. Olha para mim, as olheiras pisadas e os olhos molhados fazem de conta que não sei. Mas sei, olha para mim. Sei que no fim do caminho te vais erguer mais forte. Olha para mim, que sei muito da vida e nada do amor, e continuo a fazer o caminho porque sei que vou lá chegar. Olha para mim, vem comigo que eu dou-te a mão e ao meu lado o avião não cai. E podemos fazer juntos o caminho para chegar à rotunda e depois vai cada um à sua bifurcação. Anda comigo, um pé à frente do outro, sempre em frente que não há nada a fazer senão o caminho, isto só tem um sentido. E é o sentido que nos faz. Vem comigo que eu sou capaz de acreditar sem ver e com insistência e abraços posso talvez fazer-te sentir que os caminhos da dor são caminhos que têm de ser feitos, não podem ser evitados - perseguir a cauda leva a lado nenhum. Anda comigo que só te quero bem, só te quero dar a mão e dizer baixinho que vai dar tudo certo. Porque mesmo os caminhos da dor são melhores a dois e porque a verdade é raquidiana e não lhe podemos escapar. Tem fé em mim, já que não que não és capaz de ter em fé em nada. E a única coisa que te posso dar é a mão.
O café a ver o rio.
"Nasci numa tenda no sótão da minha avó", começa por dizer. Com grande fascínio pelos poemas de todos os dias, anoto divertida a frase enquanto lá fora chovem cães e gatos. Filho de retornados - perdão de retornado, no singular, porque quem nasce em Moçambique e veio para Portugal depois do 25 de Abril não retorna, emigra. Melómano e diletante, desfia histórias com camadas e camadas das coisas todas que tem para contar, viagem no solitário banco de trás numa estrada larga de percursos familiares. Arquitecto desassossegado, apaixonado pela estética de todos os dias - "a Vicri, não conheces a Vicri?!" - veste-se de menino grande a fugir ao cinzento. Fuma com prazer as cigarrilhas num dos raros cafés da cidade onde ainda se pode fumar e fala da varanda com som na Avenida de Roma, onde faz os telefonemas do fim do dia a fingir que está na rua. Encontrou no segundo casamento a paz para descansar o desassossego do primeiro e desassossega-se com uma carreira que ainda não acabou de desenhar. Perde-se e encontra-se no meio de histórias e graças como se estivesse a moldar uma peça que não sabe bem o que vai ser, o que ele vai ser. Trocamos partidas para pregar aos amigos, película aderente para embrulhar os dias. Entusiasma-se com fita-cola dupla face que usa para colar telefones ao tecto e isso faz-me sorrir por dentro porque me lembra a S' no seu fascínio da fita-cola. Tem um cabelo de mulher pendurado na haste dos óculos porque se penteou com a escova da M. e ela ficou ali o dia inteiro, como se isso não fosse sempre assim - comovo-me com a pequena intimidade, com as pequenas coisas do amor. Despedimo-nos apressados porque deixámos fugir as horas na amena cavaqueira de quem se está agora a conhecer. Mas sei que um destes dias vou encontrar outra vez o R., numa qualquer mesa onde se possa fumar e jogar conversa fora. Obrigada. O meu dia ficou muito melhor.
15 de janeiro de 2010
Da teoria dos contrários. Ou a lata descomunal.
Eu trabalho com ideias. Trabalho com negócios, pessoas, informação, argumentos, soluções criativas. Neste campo sempre tive uma tendência natural para contra-argumentar, para virar as coisas ao contrário, fazer muitas perguntas, procurar outras respostas, experimentar coisas diferentes, processos e métodos que não os meus. Tenho uma tendência nata para me atirar para fora de pé. Não é bom nem é mau, é assim. Saio naturalmente das minhas zonas de conforto e dou saltos de fé. Comecei por fazê-lo de olhos fechados e testa franzida, cheia de medinhos. Correu bem. E fiz outra vez. E outra. E outra. Foi correndo sempre bem e acabou por se tornar um hábito e por se transformar num traço de personalidade. Esse caminho fez de mim uma pessoa de saltos mortais. Como aliás, de cada vez que tenho de apresentar o meu percurso profissional, se nota à légua. Como aliás, de cada vez que conheço alguém que me interessa ou fascina, se sente de imediato. Se no campo profissional isto fez de mim alguém relativamente reconhecido (presunção e água benta...), no campo pessoal já me deu alguns dissabores. Entre leituras enviesadas - dos próprios ou dos outros - falhas de comunicação e castelos de areia, já me aconteceu de tudo. Porque a verdade é que tenho uma lata descomunal, daquelas latas grandes-contentor-de-porto-marítimo. E se gosto de alguém - homem, mulher, por pura curiosidade, por puro interesse humano, por empatia, por simpatia, por humor, por-amizade-ou-algo-mais - faço por isso. Faço por conhecer melhor, por perceber, por descobrir. Porque se há coisa que amo perdidamente e que me fascina até ao último fôlego são as pessoas. E as grandes conquistas da minha vida, os meus mais queridos amigos, foram descobertas assim, a dar o flanco, a perguntar, a combinar coisas inusitadas, a criar oportunidades para conhecer. Porque também com as pessoas ponho em prática a teoria dos contrários, venço a timidez, refreio a auto-censura, subverto as regras. Porque confio que vai correr tudo bem. Mesmo que do outro lado a primeira leitura seja desconfiada e cuidadosa, seja precavida ou apreensiva. Porque todos os meus saltos mortais com pessoas - o exercício da minha lata descomunal - trouxeram à minha vida, à minha história, as pessoas notáveis e magníficas com quem tenho o privilégio de partilhar o caminho. Continuarei por isso a fazer saltos mortais. Mesmo que isso, de vez em quando, me custe um crânio rachado no asfalto (sim, daqueles cheios de sangue e nhanha como se vê nos filmes). O que é que tenho a perder? Talvez um pouco de mistério - ai o que eu adorava ser aquela morena misteriosa dos filmes. Um pouco de paz - por causa dos mal entendidos. Um pouco de dignidade - ainda há quem ache que eu sou mesmo só maluquinha, sendo que acredito piamente que quem não está para se dar ao trabalho de ver o livro além da capa interessa-me pouco. O que tenho a ganhar? Eventualmente mais uma pessoa fantástica na minha vida. Feitas as contas, compensa em larga escala.
12 de janeiro de 2010
Eu sou uma besta.
Eu sou uma besta. Um tractor. Bruta como as casas. Dura que nem um portão. Mas com uma particularidade, só sou assim para as pessoas de quem gosto muito. Quando me é indiferente não sou capaz de hipérboles. É uma espécie de equilíbrio, o gostar muito vem com arestas duras e com brutalidades ditas de coração, porque tem de ser. Não sei fazer de outra maneira. Acredito no gostar incondicionalmente das pessoas que escolho e com isso vem uma dose de bestialidade que não sei domar. Sou excessiva. Sou excessiva no amor, sou excessiva na amizade (que é igual ao amor mas com menos pele e sem trocas de fluidos). Sou excessiva na atenção. Sou excessiva na dedicação. Sou excessiva nas coisas que digo, faço, escrevo, desenho (como diz a minha Madalena, não sei desenhar mas gosto). Sou excessiva quando gosto. Sou um tractor, levo tudo à frente, defendo com unhas e dentes as pessoas que escolho, estou lá para o bem e para o mal, em todos os sentidos. Rio-me e brinco com as "minhas pessoas", como choro e me zango com elas. Não consigo ser indiferente, apática, desapaixonada. Porque só escolho as pessoas que, por algum motivo, me apaixonam. E isso é verdade para dar colo e é verdade para ter conversas duras - desculpa, às vezes à noite sou bruta. Sou uma besta. Vem com o pacote.
9 de janeiro de 2010
burn, burn, burn.
"They danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn..."
Jack Kerouac, On the Road.
Jack Kerouac, On the Road.
7 de janeiro de 2010
A mercearia cá do bairro.
Se há coisa que me dá prazer é tropeçar em pessoas. Não em sentido literal - embora aconteça frequentemente porque acho que nasci com dois pés esquerdos - mas tropeçar como quem interrompe inesperadamente um caminho de todos os dias e muda de direcção. É ir à mercearia do bairro e, em vez de trazer as maçãs e o açúcar que estão na lista, chega-se a casa com um sabor bom de conversas entre gente que se entende e fala o mesmo dialecto, tantas vezes alienígena. E pensando nisso não posso deixar de ficar contente pelo simples facto de isso ser possível. Sem mais nada. Sem planos ou expectativas, sem pressões ou equívocos. É o que é. E há dias em que isso faz infinitamente mais sentido do que todas as outras coisas escritas, cinematográficas, densas, complexas, intrincadas. Isto hoje é muito muito simples: tenho uma sorte extraordinária nos meus tropeções. E isso é muito bom. Só porque sim.
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