16 de janeiro de 2010
O café a ver o rio.
"Nasci numa tenda no sótão da minha avó", começa por dizer. Com grande fascínio pelos poemas de todos os dias, anoto divertida a frase enquanto lá fora chovem cães e gatos. Filho de retornados - perdão de retornado, no singular, porque quem nasce em Moçambique e veio para Portugal depois do 25 de Abril não retorna, emigra. Melómano e diletante, desfia histórias com camadas e camadas das coisas todas que tem para contar, viagem no solitário banco de trás numa estrada larga de percursos familiares. Arquitecto desassossegado, apaixonado pela estética de todos os dias - "a Vicri, não conheces a Vicri?!" - veste-se de menino grande a fugir ao cinzento. Fuma com prazer as cigarrilhas num dos raros cafés da cidade onde ainda se pode fumar e fala da varanda com som na Avenida de Roma, onde faz os telefonemas do fim do dia a fingir que está na rua. Encontrou no segundo casamento a paz para descansar o desassossego do primeiro e desassossega-se com uma carreira que ainda não acabou de desenhar. Perde-se e encontra-se no meio de histórias e graças como se estivesse a moldar uma peça que não sabe bem o que vai ser, o que ele vai ser. Trocamos partidas para pregar aos amigos, película aderente para embrulhar os dias. Entusiasma-se com fita-cola dupla face que usa para colar telefones ao tecto e isso faz-me sorrir por dentro porque me lembra a S' no seu fascínio da fita-cola. Tem um cabelo de mulher pendurado na haste dos óculos porque se penteou com a escova da M. e ela ficou ali o dia inteiro, como se isso não fosse sempre assim - comovo-me com a pequena intimidade, com as pequenas coisas do amor. Despedimo-nos apressados porque deixámos fugir as horas na amena cavaqueira de quem se está agora a conhecer. Mas sei que um destes dias vou encontrar outra vez o R., numa qualquer mesa onde se possa fumar e jogar conversa fora. Obrigada. O meu dia ficou muito melhor.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário