28 de janeiro de 2010

Das orquídeas. Ou como se pode mudar o rumo de um dia.

Já pronta para grunhir nomes feios a quem toca à porta às 8.30 da manhã, arrastei-me de frente da máquina de café onde estava a fazer o exercício de pressão psicológica para ver se o dito descia mais depressa. Por sorte o meu pijama não era dos piores, mas o casaco polar preto cheio de pelos de cão não engana ninguém e não dava, de todo, para fazer de conta que estava vestida para ir correr (as pantufas também não ajudam, mas sempre são mais ou menos discretas). Os cães em alvoroço porque, afinal, a esta hora não se entra em casa, só se sai. Vou à porta, mau-feitio a transbordar - os leitores que me conhecem de perto sabem exactamente como é o meu estado pré-café, uma espécie de silêncio imposto onde nada acontece, um sorriso automático por entre olhos inchados. Pode ser o senhor do correios com encomendas do e-bay, a porteira que não joga com o baralho todo, a V. que se esqueceu da chave, a vizinha do lado a pedir que lhe vá passear o cão à hora de almoço, a senhora do infantário que quer que eu vá tirar o carro para a carrinha da fruta descarregar vitaminas para as pestes anãs que gritam no piso de baixo. Mas nunca por nunca me ocorreria abrir a porta a um sorriso simpático com uma orquídea branca na mão. De repente, entra-me no cérebro dormente a vaga memória de um diálogo entre sorrisos: "a orquídea branca que a Sofie me deu morreu do dia para a noite. Acho que lhe devia fazer um funeral condigno". O senhor, que agora combinava o sorriso simpático com uma ligeira irritação por eu estar a demorar demasiado tempo a processar - provavelmente tinha a carrinha de distribuições mal parada - estica-me o vaso com a orquídea branca viva, uma caixa e um cartão. "Usa a caixa para enterrar o que foi. Trata bem o que agora chega.". E eu, que até sou dada a esta coisa dos poemas de todos os dias, sento-me a beber o meu café, a olhar para a orquídea branca e a escrever neste bloco de notas a conclusão de que há pequenas coisas que podem mesmo mudar o rumo de um dia. Obrigada.

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