16 de janeiro de 2010
Como é que se faz?
Como raio é que se conjuga o verbo ir? Como é que se explica que as coisas são afinal simples e ou se está ou não se está? Como é que se diz ao outro que se sabe que a dor não passa de uma estrada de sentido único, sem atalhos, sem cruzamentos, sem tesouras como em Brasília. Como é que se mostra que é um caminho que tem de se fazer, sem desculpas, um quilómetro mais ou menos comprido por onde temos todos de passar. Como é que se evidencia a inevitabilidade dos percursos da dor. Como é que se mostra que há luz ao fundo do túnel e que este caminho vai dar - só pode dar - numa rotunda grande que tem outros caminhos para o que nos espera desde sempre. Como é que se lambem lágrimas a dizer que vai ficar tudo bem e como é que se faz para que outro tenha fé de que vai ser assim. Como é que se diz a certeza de que amanhã vai ser um bocadinho pior, vai pesar mais, mas que isso faz parte de um caminho que sobe e um destes dias o outro acorda e consegue respirar. Como é que se diz sem dizer que se sente a dor do outro como se fosse nossa, não tivesse eu lá estado antes. Como é que se escreve que se sabe que o outro vai ser feliz, mesmo depois disto, mesmo depois de ter visto tudo a ruir, tsunami de banheira, tremor de terra de elevador. Como é que se faz para mostrar ao outro que a felicidade chega com a consciência da dor e do porque é que dói. Como é que se diz que se sabe, porque sim, que um destes dias, inesperado, vai chegar o fim do caminho das pedras e há um arco-íris com um pote de ouro à espera. Como é que desenha a alegria de ver as pernas entrançadas nas outras, de reconhecer a cavilha da granada que se pode puxar e fazer explodir, o cabelo desarrumado na almofada, os olhares esquecidos nos olhos do outro, os dedos descansados na pele, os braços fechados num abraço dormente que não se quer largar, o pé com formigueiro debaixo da coxa, a língua a desenhar bonecos invisíveis. Como é que se explica que isto tudo é real mesmo que não esteja lá. Como é que se evita o sorriso sarcástico do outro quando se diz sem poder dar o exemplo, olha para mim. Olha para mim, as olheiras pisadas e os olhos molhados fazem de conta que não sei. Mas sei, olha para mim. Sei que no fim do caminho te vais erguer mais forte. Olha para mim, que sei muito da vida e nada do amor, e continuo a fazer o caminho porque sei que vou lá chegar. Olha para mim, vem comigo que eu dou-te a mão e ao meu lado o avião não cai. E podemos fazer juntos o caminho para chegar à rotunda e depois vai cada um à sua bifurcação. Anda comigo, um pé à frente do outro, sempre em frente que não há nada a fazer senão o caminho, isto só tem um sentido. E é o sentido que nos faz. Vem comigo que eu sou capaz de acreditar sem ver e com insistência e abraços posso talvez fazer-te sentir que os caminhos da dor são caminhos que têm de ser feitos, não podem ser evitados - perseguir a cauda leva a lado nenhum. Anda comigo que só te quero bem, só te quero dar a mão e dizer baixinho que vai dar tudo certo. Porque mesmo os caminhos da dor são melhores a dois e porque a verdade é raquidiana e não lhe podemos escapar. Tem fé em mim, já que não que não és capaz de ter em fé em nada. E a única coisa que te posso dar é a mão.
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