25 de janeiro de 2010
Do cheiro.
À terceira vez chegou-me aquele cheiro. Era a terceira vez mas a primeira perto suficiente para me chegar aquele cheiro. Era qualquer coisa com cor, algures entre árvores verdes, café torrado e lençóis lavados. Era qualquer coisa com forma, aquele cheiro. Estava entre o familiar e o novo, entre o sedutor e o desterro. A distância era suficiente para que o cheiro não se colasse a mim mas ficou gravado num lugar qualquer. E de vez em quando aparece-me, aquele cheiro. De vez em quando apanho-o na dobra do cotovelo, outras vezes dentro de um caderno de notas e ainda outras na toalha do banho. De vez em quando prega-me rasteiras, faz-me tropeçar, acelera-me o passo, troca-me as pernas. De vez em quando faz-se vento e entra pelas frestas todas e pelas janelas que, de vez em quando, deixo escancaradas. De vez em quando trepa-me pelas pernas acima, formiga de primavera no parque. De vez em quando escorre-me pelas costas, cabelo encharcado a sair do mar. De vez em quando acorda-me de sobressalto e outras vezes de mansinho, com festas e beijos-sorrisos. Faz-se coisa, aquele cheiro. Faz-se memória de coisas que não aconteceram. Faz-se presença de coisas ausentes. Faz-se vida de coisas que não nasceram. À terceira vez chegou-me aquele cheiro que não me sai daqui.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário