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10 de junho de 2011
8 de maio de 2011
Vai ficar tudo bem. Isso eu sei.
Se há coisa que sei é que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E fica sabendo que não tenho medo. Que não tenho pudor ou moral quando me levanto do chão, apanho a roupa espalhada e abro as janelas. Não há religião que me salve, nem livro de auto-ajuda que me valha. Sou rija, como dizem os antigos. Apesar de, volta-não-volta, me liquefazer por dentro - para o bem e para o mal. Faço fitas às vezes. Mas na maior parte dos dias guardo-me quieta, tento não falar muito porque se abro a boca jorram coisas que depois não sei como engolir outra vez. É uma espécie de poltergeist das palavras, não tem volta. Dá-se mais no papel que na voz, dá-se mais nas letras gravadas que nas ditas. E há irremediavelmente em mim a conviccção de que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E às tantas tropeço em ti, que me és tão tão difícil quanto inesperado. E fico muda, tudo muda, num silêncio algo embaraçoso porque afinal ainda não o conquistámos, ao silêncio. Fosse este um dia como outro qualquer e perdia-me nas tuas mãos, nas rugas fugidias nos olhos, no sorriso imperfeito, na perna direita esticada, no pousar do copo. Fosse este um dia como outro qualquer misturava-me em ti a falar com esse sotaque falso que enfiarás distraído na minha boca, empurrando-o com a língua. Fosse este um dia como outro qualquer pedia que ficasses, que subisses. Quero-te perto, nas redondezas, não me interessa se agora não dá, traz pijama e escova de dentes, vem de malas aviadas que a estada pode prolongar-se. Mesmo sabendo - e aviso de antemão - que o meu amor é esquisito, tão depressa foge de ti como te quer aqui colado. Mas tem coração. E dá como se fosse para sempre, mesmo que para sempre seja só amanhã, para o ano que vem e mais dois dias. O meu amor não é petulante, abre os braços e o peito. Faz sol no meu amor. Isso eu sei. Por isso é que, se há coisa que eu sei, é que vai ficar tudo bem.
31 de outubro de 2010
14 de março de 2010
Amor é...
J.: querida, dá-me um beijo que a tia vai trabalhar, vai escrever.
Sobrinha maravilhosa: na escola?
J.: Não, hoje é num barco, amanhã na lua e depois na escola.
Sobrinha maravilhosa: É histórias?
J.: Sim, histórias.
Sobrinha maravilhosa: Então é na escola.
Sobrinha maravilhosa: na escola?
J.: Não, hoje é num barco, amanhã na lua e depois na escola.
Sobrinha maravilhosa: É histórias?
J.: Sim, histórias.
Sobrinha maravilhosa: Então é na escola.
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11 de março de 2010
Do prazer.
Cansa-me a análise do prazer. A intelectualização do instinto, do estômago. Isto, vindo de uma criatura hiper-analítica, é obra. Mas a verdade é que me cansa a dissecação intelectual das coisas boas, viscerais, guturais. Cansa-me que se fale de arte como se o propósito único da criação fosse uma mensagem altamente densa e insondável. Cansa-me que se escrevam poemas mais ou menos bucólico-pastoris nas notas de prova dos vinhos. Cansa-me que se dissequem os amores, as paixões, as tesões até se chegar a uma qualquer classificação que, no fim do dia, de pouco serve. Cansa-me que se desconstrua um filme até à exaustão. Cansa-me que se descreva comida como um épico homérico. Cansa-me a dúvida existencial das coisas que se sentem na pele. Cansa-me a coisa-toda-muito-redondinha-cheia-de-razão-de-ser-tudo-muito-no-seu-lugar. Porque a verdade é que, por mais analítica que seja, nada substitui o arrepio, o cabelo desgrenhado, a arritmia, o sorriso involuntário, a estrada sem mapa, o desalinho. Cansa-me que se racionalize o prazer. Das coisas boas. Das coisas simples. Das coisas que são assim só porque sim, que continuo a achar que é o melhor motivo do mundo para se fazer o que quer que seja. Especialmente o que nos dá prazer. E o meu amor pela falha, pela imperfeição, pela ruga e pelo carácter é o que me faz verdadeiramente feliz. O rigor e a estrutura dão-me planta, referente. Mas quem raio é que quer andar sempre rente ao chão?
12 de fevereiro de 2010
Hóra di bâi.
Já com um pezinho em casa, sento-me a ver o último pôr-do-sol na ilha. Acendo mais um cigarro e um sorriso e penso que está mesmo na hora de voltar. É boa esta sensação de tempo certo. Amanhã voo, domingo levanto voo. Esperam-me revoluções, isso eu sei. Algumas planeadas outras sei-as de instinto. E esta viagem foi - mesmo que não o soubesse quando a marquei - no momento exacto em que tinha de acontecer. Como todas as coisas que me aconteceram recentemente. Portas que se abriram, descobertas que foram feitas, acasos cheios de sentido, ideias cheias de acção. E é maior do que posso descrever a sorte que tenho e a gratidão que trago por, como se fosse magia, as pontas da minha vida se estarem a juntar. Mesmo que só na minha cabeça, isso já é muito. Destruí, afundei, fiz ruir. Escavei, agitei, mordi, lutei. Procurei, não encontrei. Achei. E vim aqui para arrumar essas coisas todas e entrar numa porta aberta, uma sala com lume aceso para me receber. Foram umas férias magníficas, independentemente de ter estado doente o tempo todo. Isso pouco importou. Foram tantas as coisas que descobri. Foram tantas as pazes que fiz. Foram tantos os grãos de pó que limpei. Foram tantas as lições que aprendi. Não numa semana, claro. Numa vida. A semana foi o corolário de uma fórmula qualquer que se desenhou na minha cabeça, um brinquedo de encaixes. A semana foi a bonança depois da tempestade, em que se apanham os lixos e se arruma tudo no seu devido lugar. E de tão inesperado e importante que este processo foi fica-me a sensação boa de missão cumprida. De coisa feita, alinhada. Cama feita de lavado para deitar as pequenas revoluções que estão aí a chegar. É bom. Estupidamente bom.
9 de fevereiro de 2010
Das coisas simples.
Gosto das coisas simples. É um riso, uma palavra, um olhar, os pés descalços na terra, o mar indomável das ilhas, os gafanhotos gigantes, o som do vento que não se cala, as folhas pequenas das acácias, os cocos pequeninos que em criança usávamos como munição em guerras de faz-de-conta. Deixo-me adormecer ao sol, com a familiaridade do som ao fundo. Acordo e mergulho para arrancar o torpor e o calor acumulado. Deixo-me ficar à sombra a ler. Faço o caminho de pedras de volta a casa e a luz é-me familiar. Vejo-me criança a brincar, a jogar à bola na areia, a fazer corridas de caranguejo pirata com lanternas na mão. Olho o mar e o céu, respiro fundo muitas vezes e toco, sempre que posso, a textura sedosa da areia - é quase como tentar que aquele bocadinho de chão me fique gravado na pele. Dou por mim a pensar em pessoas que gosto muito. Dou por mim a apetecer-me partilhar estas coisas com alguém em particular. A apetecer-me dizer-te em palavras escritas estas coisas todas que não têm nome, a descrever cuidadosamente um determinado som para que o ouças também. A contar uma história de mar para que te saiba na boca a quantidade exacta de sal. A dizer-te baixinho uma lenga-lenga de criança neste meu dialecto para que herdes as minhas memórias. A despejar-te um punhado de areia num pé para que a sintas quando mexes os dedos. A soprar-te ao de leve nos olhos fechados para que saibas que nas minhas ilhas não há um momento quieto, sem vento. E espanto-me a querer partilhar contigo estas coisas todas, é-me inesperado. E, como dizia antes, não sei se é da moleza que mata fronteiras ou do gin tónico a falar, mas apetecer-me partilhar estas coisas todas contigo é muito maior do que dizer que gosto de ti. Porque gosto das coisas simples.
2 de fevereiro de 2010
Das cerejas.
Anda, fumamos um cigarro antes de ir para casa. O som da pedra do isqueiro quebra o silêncio de uma noite que achava no fim. Como todos os fins, foi um princípio. O fumo sai dos teus dedos em espiral, sobe e enrola-se por nós acima. Fumamos um, dois, dez cigarros. A cada um que apago apetece-me acender outro, não por vício ou tique, mas por vontade de que o cigarro-antes-de-ir-para-casa dure só mais um bocadinho. Entre risos e conversas acho às vezes que te conheço melhor do que é possível. Há coisas que sei sobre ti e não sei dizer. Reconheço de instinto o teu desassossego, o que te tira a paz. Tropeço em cavilhas de granadas que me são familiares. Descubro-te em ângulos que me tiram o tapete, kriptonite dos dias, não fosse eu um geek disfarçado de gente normal. Desarmas-me sem sequer te aperceberes, destróis aqui qualquer coisa de essencial, arruinas sem tentar muros cuidadosamente erguidos e rebocados para ninguém dar por eles. Sei-te na confiança minada. Sei que sabes e sentes que há uma linha clara que só se quebra uma vez. Sei que sabes a verdade essencial de algumas coisas que me são fundamentais. Sei que percebes de instinto que a confiança se constrói passo a passo e que nunca ta reclamarei. Porque sei que sabes que nunca te direi "confia em mim" porque não preciso de to pedir. Faço e farei por merecer. E há coisas que tenho para te dizer. Às vezes não me lembro bem do que é, porque é uma bola que se faz coisa e que um dia se fará palavra e, aí - só aí - vou ser capaz de te explicar o que sei que tenho para te dizer. Porque as conversas são como as cerejas. Têm caroço. Fazem-se semente, largam-se na terra. E talvez um dia - está fora da nossa mão - se façam primavera. Porque às vezes abrir mão é a única forma de alcançar.
28 de janeiro de 2010
Da sabedoria.
A minha amiga S' não sabe que é sábia. E às vezes arremessa pérolas de sabedoria sem sequer perceber que se pode demorar uma vida até aprender coisas que ela tem o privilégio de ser capaz de saber hoje. Por entre galões, franjas, croissants do Careca e conversas sérias, deixou-me hoje boquiaberta com uma ideia com a qual vou ficar a conversar algum tempo: o conhecimento e as oportunidades nunca chegam ao mesmo tempo. A minha amiga S' é brutal. E eu sou uma sortuda, infinitamente grata por ter na minha vida pessoas tão magníficas. Farei por merecer. Faço por merecer.
25 de janeiro de 2010
Do cheiro.
À terceira vez chegou-me aquele cheiro. Era a terceira vez mas a primeira perto suficiente para me chegar aquele cheiro. Era qualquer coisa com cor, algures entre árvores verdes, café torrado e lençóis lavados. Era qualquer coisa com forma, aquele cheiro. Estava entre o familiar e o novo, entre o sedutor e o desterro. A distância era suficiente para que o cheiro não se colasse a mim mas ficou gravado num lugar qualquer. E de vez em quando aparece-me, aquele cheiro. De vez em quando apanho-o na dobra do cotovelo, outras vezes dentro de um caderno de notas e ainda outras na toalha do banho. De vez em quando prega-me rasteiras, faz-me tropeçar, acelera-me o passo, troca-me as pernas. De vez em quando faz-se vento e entra pelas frestas todas e pelas janelas que, de vez em quando, deixo escancaradas. De vez em quando trepa-me pelas pernas acima, formiga de primavera no parque. De vez em quando escorre-me pelas costas, cabelo encharcado a sair do mar. De vez em quando acorda-me de sobressalto e outras vezes de mansinho, com festas e beijos-sorrisos. Faz-se coisa, aquele cheiro. Faz-se memória de coisas que não aconteceram. Faz-se presença de coisas ausentes. Faz-se vida de coisas que não nasceram. À terceira vez chegou-me aquele cheiro que não me sai daqui.
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24 de janeiro de 2010
Das palavras. Do silêncio.
As palavras são fáceis para mim, são quase todas fáceis. E por pensar nisso dei por mim a chegar à conclusão que difíceis são os silêncios que nos caem bem na pele, os alheamentos que não nos fazem mal, as ausências que não nos roem por dentro. Por enquanto só tenho as palavras e os pequenos silêncios entre elas.
21 de janeiro de 2010
Pequeno prolapso da válvula mitral.
É uma anomalia congénita. Herdada ou não, nasceu comigo este pequeno deslize de parte de um corpo estranho, esta deformação do objecto cardíaco. Convenci-me de que nasci assim para ter um coração diferente, para ter um objecto disforme, imprevisível, irregular. É uma espécie de desculpa. É uma espécie de descuido. É uma espécie de alegação que legitima o descompasso. É uma espécie de "porquê", um lugar em que me permito guardar coisas que não têm outras caixas, outros lugares. É um saco azul sem dinheiro sujo, é uma caixa de sapatos debaixo da cama, é o prazer, pequena transgressão na racionalidade vertical de quem sabe que não se mete noutra. É a única parte de mim onde tudo pode acontecer, este meu prolapso. É uma lacuna na lei, uma regra incompleta, uma janela mal vedada, uma fresta quase invisível. É um lugar estranho, o prolapso. Sem regras, sem normas, sem tabulações. É um compartimento escondido na bainha das calças, um bolso secreto no casaco de inverno, uma alça de um vestido de verão. É um tesouro escondido, sem "x" a marcar o lugar, é um mapa incerto, cartografia emocional. É um lugar onde guardo amores e amigos, memórias e olhos fechados. É algures entre a garganta e o estômago, ali a meio caminho de tudo o que é vital.
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18 de janeiro de 2010
Da realidade.
Sou de instinto, de impulso. Sou de razão, de lógica. Sou qualquer coisa ali no meio, trapézio montado sem rede, fato de lantejoulas a afinar o corpo dorido. Sou de saltos, sou de voos. Sou de terra, sou de chão. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que não falo, não faço, não dou, não sou. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que digo, que atiro, que atravesso, que arremesso, que ofereço, que mostro, que transpareço. E por mais esquizofrénico que isto possa parecer visto de fora, há uma espécie de razão onde a vida se pode decidir. Um espaço onde a vida acontece e quase se pode respirar. Canso-me. Descanso-me. Arquejo em convulsão, arfo, cuspo, mordo, beijo, lambo, rasgo e toco o dia. Porque esta coisa da realidade é táctil, faz-se coisa e faz-se verbo. Esta coisa da realidade é, nem mais nem menos, tornar real. Tornar-me real. E pode parecer simples, mas às vezes falta consciência e coragem para nos transformarmos naquilo que somos.
17 de janeiro de 2010
Da leveza.
16 de janeiro de 2010
Como é que se faz?
Como raio é que se conjuga o verbo ir? Como é que se explica que as coisas são afinal simples e ou se está ou não se está? Como é que se diz ao outro que se sabe que a dor não passa de uma estrada de sentido único, sem atalhos, sem cruzamentos, sem tesouras como em Brasília. Como é que se mostra que é um caminho que tem de se fazer, sem desculpas, um quilómetro mais ou menos comprido por onde temos todos de passar. Como é que se evidencia a inevitabilidade dos percursos da dor. Como é que se mostra que há luz ao fundo do túnel e que este caminho vai dar - só pode dar - numa rotunda grande que tem outros caminhos para o que nos espera desde sempre. Como é que se lambem lágrimas a dizer que vai ficar tudo bem e como é que se faz para que outro tenha fé de que vai ser assim. Como é que se diz a certeza de que amanhã vai ser um bocadinho pior, vai pesar mais, mas que isso faz parte de um caminho que sobe e um destes dias o outro acorda e consegue respirar. Como é que se diz sem dizer que se sente a dor do outro como se fosse nossa, não tivesse eu lá estado antes. Como é que se escreve que se sabe que o outro vai ser feliz, mesmo depois disto, mesmo depois de ter visto tudo a ruir, tsunami de banheira, tremor de terra de elevador. Como é que se faz para mostrar ao outro que a felicidade chega com a consciência da dor e do porque é que dói. Como é que se diz que se sabe, porque sim, que um destes dias, inesperado, vai chegar o fim do caminho das pedras e há um arco-íris com um pote de ouro à espera. Como é que desenha a alegria de ver as pernas entrançadas nas outras, de reconhecer a cavilha da granada que se pode puxar e fazer explodir, o cabelo desarrumado na almofada, os olhares esquecidos nos olhos do outro, os dedos descansados na pele, os braços fechados num abraço dormente que não se quer largar, o pé com formigueiro debaixo da coxa, a língua a desenhar bonecos invisíveis. Como é que se explica que isto tudo é real mesmo que não esteja lá. Como é que se evita o sorriso sarcástico do outro quando se diz sem poder dar o exemplo, olha para mim. Olha para mim, as olheiras pisadas e os olhos molhados fazem de conta que não sei. Mas sei, olha para mim. Sei que no fim do caminho te vais erguer mais forte. Olha para mim, que sei muito da vida e nada do amor, e continuo a fazer o caminho porque sei que vou lá chegar. Olha para mim, vem comigo que eu dou-te a mão e ao meu lado o avião não cai. E podemos fazer juntos o caminho para chegar à rotunda e depois vai cada um à sua bifurcação. Anda comigo, um pé à frente do outro, sempre em frente que não há nada a fazer senão o caminho, isto só tem um sentido. E é o sentido que nos faz. Vem comigo que eu sou capaz de acreditar sem ver e com insistência e abraços posso talvez fazer-te sentir que os caminhos da dor são caminhos que têm de ser feitos, não podem ser evitados - perseguir a cauda leva a lado nenhum. Anda comigo que só te quero bem, só te quero dar a mão e dizer baixinho que vai dar tudo certo. Porque mesmo os caminhos da dor são melhores a dois e porque a verdade é raquidiana e não lhe podemos escapar. Tem fé em mim, já que não que não és capaz de ter em fé em nada. E a única coisa que te posso dar é a mão.
13 de janeiro de 2010
De tanto bater o meu coração parou.
Falamos sobre o amor. De visões romantizadas, pragmáticas, paradigmáticas, pueris, realistas, literárias. Salta - fatal - a pergunta: mas tu sabes o que é o amor? E fico inevitavelmente a pensar nisso, numa apneia, letra suspensa. Porque bem vistas e ditas as coisas, essa é a única pergunta. Não sei se sei o que é o amor, porque sei que o amor tem essa coisa muito muito boa que é ser sempre capaz de se transformar. Sei que o amor se reinventa e refaz como pode. Sei que o amor se aninha de maneiras diferentes no mesmo sofá. Sei que o amor nos tem, não somos nós que temos o amor. Sei que o amor cresce e diminui para crescer outra vez. Sei que o amor é as coisas todas e é coisa nenhuma. Sei pouco sobre o amor. O amor que sei é o amor que conheço e sei como esse foi. Mas sei também que, um dia que ele volte a aparecer, vai ser outra coisa - por isso não. Não sei o que é "o" amor. O amor que conheço, aquele que tive a sorte que se tenha aninhado por aqui, foi um amor discricionário, indivisível. Foi um amor que tomou conta de mim - logo comigo, que tomo sempre sozinha conta de mim. Foi um amor educativo, transformador. Foi um amor que soube receber e que deu até doer. Foi um amor imenso que me tomou por dentro e me virou do avesso. Foi um amor inabalável até abalar. Foi um amor justo, bem-aventurado. Foi um amor aventureiro, desafiador. Foi um amor visceral e um amor sossegado. Foi um amor mexido e um amor quieto. Foi um amor que foi muitas coisas, tantas coisas quantas consigo dizer. Foi um amor que ficou, que se deixou estar muito muito tempo. Foi um amor que não se foi embora quando foi embora. Mas não. Não sei o que é "o" amor.
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11 de janeiro de 2010
É pecar ou largar.
Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.
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8 de janeiro de 2010
Há elogios que nos tiram a respiração.
"Ontem vi finalmente o dvd do Coco avant Chanel e passei o filme todo a ver-te ali a costurar destinos."
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