8 de maio de 2011
Vai ficar tudo bem. Isso eu sei.
Se há coisa que sei é que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E fica sabendo que não tenho medo. Que não tenho pudor ou moral quando me levanto do chão, apanho a roupa espalhada e abro as janelas. Não há religião que me salve, nem livro de auto-ajuda que me valha. Sou rija, como dizem os antigos. Apesar de, volta-não-volta, me liquefazer por dentro - para o bem e para o mal. Faço fitas às vezes. Mas na maior parte dos dias guardo-me quieta, tento não falar muito porque se abro a boca jorram coisas que depois não sei como engolir outra vez. É uma espécie de poltergeist das palavras, não tem volta. Dá-se mais no papel que na voz, dá-se mais nas letras gravadas que nas ditas. E há irremediavelmente em mim a conviccção de que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E às tantas tropeço em ti, que me és tão tão difícil quanto inesperado. E fico muda, tudo muda, num silêncio algo embaraçoso porque afinal ainda não o conquistámos, ao silêncio. Fosse este um dia como outro qualquer e perdia-me nas tuas mãos, nas rugas fugidias nos olhos, no sorriso imperfeito, na perna direita esticada, no pousar do copo. Fosse este um dia como outro qualquer misturava-me em ti a falar com esse sotaque falso que enfiarás distraído na minha boca, empurrando-o com a língua. Fosse este um dia como outro qualquer pedia que ficasses, que subisses. Quero-te perto, nas redondezas, não me interessa se agora não dá, traz pijama e escova de dentes, vem de malas aviadas que a estada pode prolongar-se. Mesmo sabendo - e aviso de antemão - que o meu amor é esquisito, tão depressa foge de ti como te quer aqui colado. Mas tem coração. E dá como se fosse para sempre, mesmo que para sempre seja só amanhã, para o ano que vem e mais dois dias. O meu amor não é petulante, abre os braços e o peito. Faz sol no meu amor. Isso eu sei. Por isso é que, se há coisa que eu sei, é que vai ficar tudo bem.
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