1 de maio de 2011
Subprime dos afectos.
A minha crise é outra. Do crédito de alto risco que me ofereço, com baixo rendimento e alta instabilidade, o colapso generalizado das instituições que reconhecia, o descontrolo das coisas todas que achava inabaláveis, que acreditava estarem lá sem hesitação. A minha crise é outra. E não consigo deixar de pensar que esta coisa toda do FMI-e-diabo-a-quatro se aplica a papel químico no meu mapa dos afectos. Que "troika" em russo significa "três" ou "triplo" e que isso, para mim, é veneno lento e corrosivo que se vê à flor da pele. A minha crise é outra. Falência moral, crise de confiança, retracção, asfixia. Porque, ao fim ao cabo, o que procuro e teimo em não encontrar, é uma matemática simples dos dias, feita a lápis de carvão numa toalha de mesa enrugada. Não preciso de grandes projecções ou análises profundas, 1+1=2 chega-me, sem cinzentos, teorias avançadas ou corolários complexos. Não tenho programação quantitativa no coração para descodificar as subtilezas dos "sim, mas..." ou do "é para casar ou para coiso" ou do peso que tem o rabo da miúda da TV contra o meu que até nem é mau mas não tem direito a três horas de ginásio por dia porque são três horas a mais nas minhas sobrelotadas vinte-e-quatro. E às tantas, eu que até sou das ciências e não tenho medo das matemáticas, perco-me nas progressões e interpolações aritméticas dos afectos. Não me admira que me ocorra precisar de consultar um híbrido de Dr. Phil e prémio nobel da matemática, oráculo de óculos de massa grossa sem lentes e sentido de humor acutilante. Porque eu, confesso, já não sei fazer as contas.
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