30 de maio de 2011
Lisboa, a gaiata.
"Está crescida, a gaiata" pensei. Subi a avenida, ar pesado, tropical. Cheirava àquele misto de jacarandá e ulmeiro. Não há outra cidade que me cheire assim, a herança colonial cruzada com europa. Gente na esplanada, crianças a sair do cinema, sombras que se mexem, sotaques que se misturam: a cidade tem trejeitos, tiques e tons. Gosto da imperfeição e detenho-me a pensar que a cidade-gaiata está crescida, adolescente de borbulhas e calças tamanho abaixo. Há esplanadas na avenida, lojas boas de porta fechada. "Deviam fechá-la ao trânsito, a Avenida" pensei alto "enchê-la de mercados de flores e bugigangas". E depois pensei baixinho "não, isso é fazê-la igual às outras". Gosto da cidade, é um amor que trago por ela, gosto dela como gosto dos homens: assimétrica, imperfeita, com coisas por fazer, com histórias por contar, um dente torto, uma ruga aqui e ali, uma falha. E este amor faz-me querer ser melhor, fazer melhor, crescer junto e fazer-me gente.
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