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24 de janeiro de 2010

Em forma de coisa que sim.

Anda, mexe-te, faz qualquer coisa. Não te deixes ficar aí que me dás nos nervos. Faz-te à vida, treme o chão. Dá um passo: ao lado, em frente, atrás, qualquer coisa. Mas não congeles, não te deixes ficar aí no silêncio. Desassossega-te. Que o desassossego é bom, traz movimento, traz coisas que acontecem e desatam nós. Faz qualquer coisa, um sinal de fumo, um apito, um gesto, que qualquer dia já não sei se aí estás. Mexe-te. Faz qualquer coisa. Ou mexe só um dedo que seja. Uma coisa qualquer em forma de assim, em forma de coisa que vive, em forma de coisa que sim. Dá um laço, dá um nó, desata, dá corda, amarra, solta, larga. Qualquer coisa. Que este fio definido e claro que aqui está vai desaparecer mais dia menos dia e depois é só mais um novelo. Anda, faz. Que eu por mim já não consigo, é um precedente que não volto a abrir. Uma espécie de birra que acordou aqui, que se instalou devagar como uma conversa numa madrugada alentejana. Anda, mexe-te. Faz estações, uma qualquer. Faz temporais ou terramotos, faz brisas suaves ou chuvas de agosto. Mas faz, faz, faz. Que esta coisa do fazer faz-se nota de arranque da música, linha primeira da pauta, entrada em cena. Anda, faz. Faz qualquer coisa em forma de sim.

21 de janeiro de 2010

Pequeno prolapso da válvula mitral.

É uma anomalia congénita. Herdada ou não, nasceu comigo este pequeno deslize de parte de um corpo estranho, esta deformação do objecto cardíaco. Convenci-me de que nasci assim para ter um coração diferente, para ter um objecto disforme, imprevisível, irregular. É uma espécie de desculpa. É uma espécie de descuido. É uma espécie de alegação que legitima o descompasso. É uma espécie de "porquê", um lugar em que me permito guardar coisas que não têm outras caixas, outros lugares. É um saco azul sem dinheiro sujo, é uma caixa de sapatos debaixo da cama, é o prazer, pequena transgressão na racionalidade vertical de quem sabe que não se mete noutra. É a única parte de mim onde tudo pode acontecer, este meu prolapso. É uma lacuna na lei, uma regra incompleta, uma janela mal vedada, uma fresta quase invisível. É um lugar estranho, o prolapso. Sem regras, sem normas, sem tabulações. É um compartimento escondido na bainha das calças, um bolso secreto no casaco de inverno, uma alça de um vestido de verão. É um tesouro escondido, sem "x" a marcar o lugar, é um mapa incerto, cartografia emocional. É um lugar onde guardo amores e amigos, memórias e olhos fechados. É algures entre a garganta e o estômago, ali a meio caminho de tudo o que é vital. 

18 de janeiro de 2010

Da realidade.

Sou de instinto, de impulso. Sou de razão, de lógica. Sou qualquer coisa ali no meio, trapézio montado sem rede, fato de lantejoulas a afinar o corpo dorido. Sou de saltos, sou de voos. Sou de terra, sou de chão. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que não falo, não faço, não dou, não sou. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que digo, que atiro, que atravesso, que arremesso, que ofereço, que mostro, que transpareço. E por mais esquizofrénico que isto possa parecer visto de fora, há uma espécie de razão onde a vida se pode decidir. Um espaço onde a vida acontece e quase se pode respirar. Canso-me. Descanso-me. Arquejo em convulsão, arfo, cuspo, mordo, beijo, lambo, rasgo e toco o dia. Porque esta coisa da realidade é táctil, faz-se coisa e faz-se verbo. Esta coisa da realidade é, nem mais nem menos, tornar real. Tornar-me real. E pode parecer simples, mas às vezes falta consciência e coragem para nos transformarmos naquilo que somos.

12 de janeiro de 2010

Eu sou uma besta.

Eu sou uma besta. Um tractor. Bruta como as casas. Dura que nem um portão. Mas com uma particularidade, só sou assim para as pessoas de quem gosto muito. Quando me é indiferente não sou capaz de hipérboles. É uma espécie de equilíbrio, o gostar muito vem com arestas duras e com brutalidades ditas de coração, porque tem de ser. Não sei fazer de outra maneira. Acredito no gostar incondicionalmente das pessoas que escolho e com isso vem uma dose de bestialidade que não sei domar. Sou excessiva. Sou excessiva no amor, sou excessiva na amizade (que é igual ao amor mas com menos pele e sem trocas de fluidos). Sou excessiva na atenção. Sou excessiva na dedicação. Sou excessiva nas coisas que digo, faço, escrevo, desenho (como diz a minha Madalena, não sei desenhar mas gosto). Sou excessiva quando gosto. Sou um tractor, levo tudo à frente, defendo com unhas e dentes as pessoas que escolho, estou lá para o bem e para o mal, em todos os sentidos. Rio-me e brinco com as "minhas pessoas", como choro e me zango com elas. Não consigo ser indiferente, apática, desapaixonada. Porque só escolho as pessoas que, por algum motivo, me apaixonam. E isso é verdade para dar colo e é verdade para ter conversas duras - desculpa, às vezes à noite sou bruta. Sou uma besta. Vem com o pacote.

11 de janeiro de 2010

É pecar ou largar.

Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.

4 de janeiro de 2010

Das hipérboles.

Acho que li demasiados livros, vi demasiados filmes - não no cinema, mas daqueles que se repetem incessantemente na desinteressante televisão de domingo à tarde. Acho que esse facto, aliado a uma imaginação fértil, faz de mim uma pessoa com um fraquinho por hipérboles. Não, não é bem um fraquinho, acho que isso faz de mim uma pessoa de hipérboles por defeito. Sou de exageros, imagino sempre gestos grandiosos, frases épicas, momentos colossais, finais explosivos. Nas mais pacatas situações imagino uma narrativa paralela, em que todos os personagens são de epopeia, coragem irrepreensível, força de leão. Premissas definidas, a narrativa é épica, dramática ou até lírica (sempre tive a mania das bandas sonoras). Vejo sempre uma intriga Queirosiana, um enredo intrincado e complexo, centrado num conflito digno da mais nobre literatura. Faço heróis, vilões, pares românticos e, na maior parte das vezes, trago a cena um comic relief. O narrador, de voz profunda e grave, vai explicando e acrescentando detalhes, assinala peripécias, antecipa reviravoltas - o meu narrador é normalmente omnisciente, mas é discreto, o sacana, bem que podia interferir e fazer-se também realizador.
As minhas narrativas paralelas são excitantes. Falam de proibições, de armadilhas, de conivência, de magia, de confronto, de castigo. Ao herói - que normalmente nem sou eu - acontece de tudo: a punição, a injustiça, o reconhecimento, a vitória, a partida, a transfiguração. Ao anti-herói acontecem as mesmas coisas, mas normalmente, à medida que se aproxima o clímax, as coisas não lhe correm muito bem. Claro está que isto é verdade nas minhas narrativas paralelas. Na esfera real a coisa é muito mais simples - a realidade raramente supera a ficção. Falta vigor aos gestos. Os personagens são indolentes, tímidos ou simplesmente não estão para se dar ao trabalho. As palavras são ocas. Os cenários são tudo menos cinematográficos. Os diálogos pobres. A banda sonora é uma mistura sem critério. O argumento é, vezes demais, banal. Os efeitos especiais são nada de especial. O guarda-roupa falha imensas vezes nos tamanhos - ora grande, ora pequeno. Sucedem-se os erros de raccord. E o casting, nem vale a pena começar a falar do casting.
A conclusão a que chego é que os tempos não estão para grandes épicos, hoje é tudo mais ou menos simples, minimal. É quase como se a vida fosse um filme de série B: tem o seu encanto, um infinito potencial, mas faz-se o que se pode com o que se tem. Mas isso não faz com que goste menos de hipérboles.