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24 de janeiro de 2010
Das palavras. Do silêncio.
As palavras são fáceis para mim, são quase todas fáceis. E por pensar nisso dei por mim a chegar à conclusão que difíceis são os silêncios que nos caem bem na pele, os alheamentos que não nos fazem mal, as ausências que não nos roem por dentro. Por enquanto só tenho as palavras e os pequenos silêncios entre elas.
11 de janeiro de 2010
É pecar ou largar.
Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.
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25 de dezembro de 2009
Hoje é a mim que me dói a garganta.
É manhã de natal e está tudo muito silencioso. Gosto dele assim, do dia. Quieto, parado, como se estivesse a preparar alguma. Gosto dele assim, a guardar verdades num silêncio cortado por um ou outro carro que passa apressado lá fora, atrasado para o almoço de natal, a arrastar a ressaca do vinho a mais ontem à noite. Está tudo tão quieto que quase acho que me vai aparecer aqui o menino jesus a pregar-me uma partida, a dizer "bú!". Despido, a arrastar as palhinhas, de dedos em riste como se tivesse alguma legitimidade para apontar os males do mundo. Cala-te pá. O que é que tu sabes da vida? Eu, por outro lado, não nasci ontem (não sou como uns e outros, sé-que-mentendes).
Sento-me aqui no sossego a olhar para o leque de cartões-oferta à minha frente, uma mão de poker multicolor, e chego à conclusão de que ainda não decidi se é triste ou divertido que as pessoas nunca saibam o que me oferecer. E acho que por isso é que me dói a garganta, porque se me prendeu aqui alguma coisa que não uma espinha do bacalhau com couves, alguma coisa que não há meio de saltar cá para fora. Alguma coisa que talvez explique porque é que não gozo a quadra, o quadro. Hoje é a mim que me dói a garganta - o menino ófáxavor que explique que eu é mais bolos. Mas eu acho, aqui na minha infinita ignorância destas coisas todas assim mais para o obscuro, que sou aquelas coisas todas que não digo, não faço, não falo. E se calhar, vais a ver ò menino, que é por isso que me dói a garganta.
Sento-me aqui no sossego a olhar para o leque de cartões-oferta à minha frente, uma mão de poker multicolor, e chego à conclusão de que ainda não decidi se é triste ou divertido que as pessoas nunca saibam o que me oferecer. E acho que por isso é que me dói a garganta, porque se me prendeu aqui alguma coisa que não uma espinha do bacalhau com couves, alguma coisa que não há meio de saltar cá para fora. Alguma coisa que talvez explique porque é que não gozo a quadra, o quadro. Hoje é a mim que me dói a garganta - o menino ófáxavor que explique que eu é mais bolos. Mas eu acho, aqui na minha infinita ignorância destas coisas todas assim mais para o obscuro, que sou aquelas coisas todas que não digo, não faço, não falo. E se calhar, vais a ver ò menino, que é por isso que me dói a garganta.
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