11 de janeiro de 2010

É pecar ou largar.

Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.

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