8 de janeiro de 2010
Da sombra do sobreiro.
Tenho um sobreiro. Tenho, aliás, dois mas só um é meu. Tenho um sobreiro de que gosto muito porque o vi nascer de uma semente pequenina que bem podia ter sido dada ao porcos no Alentejo para se fazerem gordinhos para a matança de Setembro. Mas não, a semente pequenina veio parar-me às mãos porque a mulher do O. queria que os sobreiros se fizessem grandes e frondosos para um dia filhos ou netos se deliciarem com a sombra fresca e húmida que as árvores grandes dão. O meu sobreiro foi plantado com amor, rompeu na dúvida e foi crescendo no alheamento. Tinha já um simpático (quase) metro quando mudou de casa e continuou a crescer, mesmo sem vista para o rio. Manteve-se hirto e verde-vivo num verão tórrido. Aguentou-se às agruras de um outono quente demais. Sobreviveu à violência de um início de inverno que se tornou bruscamente glacial. Hoje estava morto. Tive vontade de lhe declarar o óbito em voz alta e publicar-lhe uma fotografia e elogio fúnebre num jornal. Foi um bom sobreiro, apesar de não ter crescido o suficiente para que me pudesse, velhinha, deitar à sua sombra a ler um livro do futuro. O segundo sobreiro sobrevive, desfolhado mas vertical, com força anímica para aguentar o inverno que falta. Um destes dias regressa à sua terra natal, ao quintal onde pertence. E a mim, que me escapa por vezes o pé para coisas assim mais para o metafísico, fica-me a saudade boa do sobreiro e a vaga sensação de que esta morte natural é sinal de renovação.
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