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28 de janeiro de 2010
Das orquídeas. Ou como se pode mudar o rumo de um dia.
Já pronta para grunhir nomes feios a quem toca à porta às 8.30 da manhã, arrastei-me de frente da máquina de café onde estava a fazer o exercício de pressão psicológica para ver se o dito descia mais depressa. Por sorte o meu pijama não era dos piores, mas o casaco polar preto cheio de pelos de cão não engana ninguém e não dava, de todo, para fazer de conta que estava vestida para ir correr (as pantufas também não ajudam, mas sempre são mais ou menos discretas). Os cães em alvoroço porque, afinal, a esta hora não se entra em casa, só se sai. Vou à porta, mau-feitio a transbordar - os leitores que me conhecem de perto sabem exactamente como é o meu estado pré-café, uma espécie de silêncio imposto onde nada acontece, um sorriso automático por entre olhos inchados. Pode ser o senhor do correios com encomendas do e-bay, a porteira que não joga com o baralho todo, a V. que se esqueceu da chave, a vizinha do lado a pedir que lhe vá passear o cão à hora de almoço, a senhora do infantário que quer que eu vá tirar o carro para a carrinha da fruta descarregar vitaminas para as pestes anãs que gritam no piso de baixo. Mas nunca por nunca me ocorreria abrir a porta a um sorriso simpático com uma orquídea branca na mão. De repente, entra-me no cérebro dormente a vaga memória de um diálogo entre sorrisos: "a orquídea branca que a Sofie me deu morreu do dia para a noite. Acho que lhe devia fazer um funeral condigno". O senhor, que agora combinava o sorriso simpático com uma ligeira irritação por eu estar a demorar demasiado tempo a processar - provavelmente tinha a carrinha de distribuições mal parada - estica-me o vaso com a orquídea branca viva, uma caixa e um cartão. "Usa a caixa para enterrar o que foi. Trata bem o que agora chega.". E eu, que até sou dada a esta coisa dos poemas de todos os dias, sento-me a beber o meu café, a olhar para a orquídea branca e a escrever neste bloco de notas a conclusão de que há pequenas coisas que podem mesmo mudar o rumo de um dia. Obrigada.
25 de janeiro de 2010
Apetecia-me.
Hoje apetecia-me sentar-me num passeio e não chegar com os pés ao chão.
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12 de janeiro de 2010
Poemas de todos os dias.
Happiness isn't always the best way to be happy.
Maurice Sendak, Where the wild things are.
Maurice Sendak, Where the wild things are.
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do amor e outros fatalismos,
poemas de todos os dias
10 de janeiro de 2010
Monstros e histórias.
Fico com ebejeebies por saber que amanhã vou ver em filme uma história que tantas vezes li, que tantas vezes aconteceu na minha imaginação. Gosto de antecipações, como aquele momento antes do primeiro beijo. Gosto de pensar como serão os monstros desenhados por outras imaginações que não a minha. E, por gostar muito de histórias infantis, fico maravilhada com essa antecipação. Porque as histórias não dizem às crianças que os monstros existem - isso as crianças sabem de ginjeira. As histórias ensinam às crianças que os monstros podem ser encantados, expulsos (se forem maus), conquistados. As histórias infantis não (nos) dizem que os monstros existem, só dizem as coisas infinitas que podemos fazer com eles.
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8 de janeiro de 2010
Da sombra do sobreiro.
Tenho um sobreiro. Tenho, aliás, dois mas só um é meu. Tenho um sobreiro de que gosto muito porque o vi nascer de uma semente pequenina que bem podia ter sido dada ao porcos no Alentejo para se fazerem gordinhos para a matança de Setembro. Mas não, a semente pequenina veio parar-me às mãos porque a mulher do O. queria que os sobreiros se fizessem grandes e frondosos para um dia filhos ou netos se deliciarem com a sombra fresca e húmida que as árvores grandes dão. O meu sobreiro foi plantado com amor, rompeu na dúvida e foi crescendo no alheamento. Tinha já um simpático (quase) metro quando mudou de casa e continuou a crescer, mesmo sem vista para o rio. Manteve-se hirto e verde-vivo num verão tórrido. Aguentou-se às agruras de um outono quente demais. Sobreviveu à violência de um início de inverno que se tornou bruscamente glacial. Hoje estava morto. Tive vontade de lhe declarar o óbito em voz alta e publicar-lhe uma fotografia e elogio fúnebre num jornal. Foi um bom sobreiro, apesar de não ter crescido o suficiente para que me pudesse, velhinha, deitar à sua sombra a ler um livro do futuro. O segundo sobreiro sobrevive, desfolhado mas vertical, com força anímica para aguentar o inverno que falta. Um destes dias regressa à sua terra natal, ao quintal onde pertence. E a mim, que me escapa por vezes o pé para coisas assim mais para o metafísico, fica-me a saudade boa do sobreiro e a vaga sensação de que esta morte natural é sinal de renovação.
4 de janeiro de 2010
Da bipolaridade. Ou hiper-lucidez.
(ou como fiquei quase duas horas com ebejeebies por causa da cópia autografada do meu livro preferido do Andre Jordan)
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3 de janeiro de 2010
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