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14 de dezembro de 2011

Da quietude.

Hoje fiz as contas. Este ano fui 23 vezes a Paris, a maior parte delas em trabalho. Quando me queixo sou insultada pelos meus amigos, mas a verdade é que à maior parte chamo "viagens de ar condicionado": aeroporto-taxi-hotel-escritório-hotel-taxi-aeroporto. Mas às vezes (muito às vezes) acontece conseguir fugir, acontece conseguir respirar ar que não passou por filtros ou centrais de AVAC. E esse foi o caso hoje. Fugi uma hora para o Musée Rodin, o meu lugar preferido na cidade. Deixei-me passear por entre os corpos de bronze, por baixo das árvores de folha caduca que teimam em não caducar. Fiquei quieta no sossego dos corpos vivos das estátuas, a olhar a tragédia, o amor, a alegria, o medo, o prazer, o sufoco, a altivez, a humildade, o despeito, a ternura. Está tudo lá. Cravado no bronze. Escrito na curva de um braço, gravado num olhar penetrante. Diria que vive gente nas estátuas de Rodin. E na total imobilidade, mais quieta que qualquer uma das muitas obras espalhadas pelo jardim, dei de caras com a minha própria humanidade.

8 de dezembro de 2011

Parágrafos e Geografia

"Foi uma maneira óptima de ensinar os alunos sobre parágrafos e geografia", disse uma das professoras do miúdo da Carolina do Norte que escreveu a mensagem na garrafa que chegou aos Açores esta semana. Bem vistas as coisas há pouco mais que as pessoas precisam de aprender: parágrafos e geografia.

21 de março de 2010

Do optimismo.

Ser optimista é uma escolha. Não é, de todo, uma predestinação ou legado. É uma opção clara de se viver a vida de determinada forma, de se acreditar em coisas boas mesmo nos maus momentos. É uma forma de ver o mundo, de olhar os percalços de frente e ter a convicção de que vai dar certo. Ser optimista não é não hesitar, não é seguir sempre em frente e ignorar os sinais. E muito menos é colocar palas no olhos e viver a vida como um pateta-alegre - dói-me que este seja o rótulo mais frequente. Ser optimista é procurar e guardar o que de maravilhoso nos acontece nos dias para ser mais fácil gerir o que de mau aparece. É ser grato pelas pequenas coisas boas de todos os dias, é resistir à tendência do cinzento. É fácil estar zangado com o mundo, triste, sorumbático - é aliás essa a nossa herança no fado e na saudade. É fácil estar-se "com os azeites" e dar patadas a tudo o que mexe à nossa volta. Esse é, acredito, o caminho mais fácil. Não nos obriga a ser melhores. Tenho por isso um fraquinho por optimistas porque essa é a verdadeira tarefa: ser-se positivo e feliz quando à volta, nas grandes sendas do mundo, pouco há a celebrar. E só por isso faz-me feliz a sorte de tropeçar à porta de casa numa parede pintada com uma mensagem boa. Simplesmente boa. E isso só por si ser capaz de mudar o rumo de um dia, de restaurar um sorriso nublado numa manhã de sábado - com abraços de amigos que regressam, rebuçados acabados de fazer, flores a sorrir à primavera que começa hoje, bilhetes com bonecos, pequenos almoços com gente de bem, ruas iluminadas pelo sol, risos descontrolados e copos de vinho ao anoitecer. O optimista alimenta-se disto. Dos presentes do deus das pequenas coisas, dos pequenos amores, das pequenas surpresas.

28 de fevereiro de 2010

Baba de cão.

A saudade é como a baba de cão. Come-se com pão.

26 de fevereiro de 2010

He's not that into you.

Há um livro escrito por um senhor e uma senhora (Greg Behrendt e Liz Tuccillo): deu um filme; um programa inteirinho da Oprah; uma aparição bastante intensa nesse clássico da vida feminina, a série Sex & The City; uma aparição na série menos badalada Gilmore Girls e uma menção num filme obscuro chamado Zombieland. E não é para menos. Quando o li foi uma imediata lufada de ar fresco sobre a visão romantizada e hollywoodesca que temos das relações e do "antes", da fase de conquista. Profundamente americanizado - na nossa realidade há conceitos que perdem conteúdo - mas brutalmente esclarecedor e imensamente honesto. Amei. Adoro a crueza com que se olha e se escreve sobre uma verdade tão elementar e animal como o "se ele acha graça vai à caça" (a rima foi acidental mas até me correu bem). Ora, eu sou uma criatura relativamente pragmática e algo despudorada, o que faz com que, quando acho graça a alguém, faça questão de o mostrar, nota-se à légua porque a discrição não é o meu forte. A parte tramada é que, numa mulher, isso é perfeitamente contra-producente e na maior parte dos casos é altamente intimidador - o que, confesso, me dá nos nervos - mas acaba por ser uma estratégia válida para separar o trigo do joio. Ou pelo menos, apesar do conselho inverso de um dos meus mais queridos amigos, serve para alimentar o ego de meia dúzia de alminhas que por aí andam, chamemos-lhe um serviço de utilidade pública. Ora, sendo o livro tão esclarecedor, sendo eu uma criatura pragmática com uma crença profunda no amor, sendo esta ideia tão libertadora e, sobretudo, acreditando na transparência e repudiando jogos, não podia deixar de celebrar e partilhar a minha epifania matinal de hoje, citando Humphrey Bogart no Casablanca: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship".

2 de fevereiro de 2010

Das cerejas.

Anda, fumamos um cigarro antes de ir para casa. O som da pedra do isqueiro quebra o silêncio de uma noite que achava no fim. Como todos os fins, foi um princípio. O fumo sai dos teus dedos em espiral, sobe e enrola-se por nós acima. Fumamos um, dois, dez cigarros. A cada um que apago apetece-me acender outro, não por vício ou tique, mas por vontade de que o cigarro-antes-de-ir-para-casa dure só mais um bocadinho. Entre risos e conversas acho às vezes que te conheço melhor do que é possível. Há coisas que sei sobre ti e não sei dizer. Reconheço de instinto o teu desassossego, o que te tira a paz. Tropeço em cavilhas de granadas que me são familiares. Descubro-te em ângulos que me tiram o tapete, kriptonite dos dias, não fosse eu um geek disfarçado de gente normal. Desarmas-me sem sequer te aperceberes, destróis aqui qualquer coisa de essencial, arruinas sem tentar muros cuidadosamente erguidos e rebocados para ninguém dar por eles. Sei-te na confiança minada. Sei que sabes e sentes que há uma linha clara que só se quebra uma vez. Sei que sabes a verdade essencial de algumas coisas que me são fundamentais. Sei que percebes de instinto que a confiança se constrói passo a passo e que nunca ta reclamarei. Porque sei que sabes que nunca te direi "confia em mim" porque não preciso de to pedir. Faço e farei por merecer. E há coisas que tenho para te dizer. Às vezes não me lembro bem do que é, porque é uma bola que se faz coisa e que um dia se fará palavra e, aí - só aí - vou ser capaz de te explicar o que sei que tenho para te dizer. Porque as conversas são como as cerejas. Têm caroço. Fazem-se semente, largam-se na terra. E talvez um dia - está fora da nossa mão - se façam primavera. Porque às vezes abrir mão é a única forma de alcançar.

31 de janeiro de 2010

Eliana.

"Trabalho aqui à noite e de dia sou camionista". De estatura baixa e olhos brilhantes, Eliana desfia histórias de roubos e substâncias colocadas em bebidas nas discotecas. Tem quatro fins-de-semana livres por ano e quando sai à noite não leva carteira. "multibanco, 20 euros e cartão de cidadão. O telemóvel fica no carro". Entusiasma-se com a conversa e larga algumas expressões menos cerimoniosas que denunciam imediatamente a alma ribatejana. Fica feliz quando as pessoas suspiram de alívio por ver as chaves de casa e os documentos, largados na noite anterior numa casa-de-banho, depois de extirpado o conteúdo valioso de uma qualquer carteira. Fala de um documentário do National Geografic em que carteiristas habilidosos fazem o impensável de forma invisível e não consegue disfarçar o misto de fascínio e reprovação. Eliana trabalha na noite há 12 anos e hoje devolveu-me a mala verde, com a carteira vazia, chaves de casa e documentos. Mais do que eu podia esperar.

28 de janeiro de 2010

Da sabedoria.

A minha amiga S' não sabe que é sábia. E às vezes arremessa pérolas de sabedoria sem sequer perceber que se pode demorar uma vida até aprender coisas que ela tem o privilégio de ser capaz de saber hoje. Por entre galões, franjas, croissants do Careca e conversas sérias, deixou-me hoje boquiaberta com uma ideia com a qual vou ficar a conversar algum tempo: o conhecimento e as oportunidades nunca chegam ao mesmo tempo. A minha amiga S' é brutal. E eu sou uma sortuda, infinitamente grata por ter na minha vida pessoas tão magníficas. Farei por merecer. Faço por merecer.

19 de janeiro de 2010

A bola.

Foi a segunda vez na vida que comprei a Bola. Sim, o jornal. Sim, o jornal desportivo. A primeira vez que comprei a Bola foi pesquisa - tinha de perceber alguma coisa do mundo do futebol porque tinha de fazer um projecto nessa área. O projecto correu bem. A segunda vez que comprei a Bola - ontem, por sinal - foi para dar os parabéns a um benfiquista. Diz que o clube encarnado fez um jogo bom e fartou-se de marcar golos. Ganhei por falta de comparência. Perdi por falta de comparência. Mas ao menos aprendi que o Ricardo Carvalho está ansioso por reencontrar Mourinho; que o Mourinho, por sua vez, não perdoou o Ibrahimovic por ter ido para Barcelona; que no Brasil, o Santos procura renovar com Léo e que o Yuri está sem limitações. Acho que esta novela compensou o facto de não ter visto o Gossip Girl.

17 de janeiro de 2010

Da leveza.

Hoje escrevia alguém:

Tomava erradamente por leviandade a falsa leveza com que ela se passeava pelas coisas. Não era falsa, e não era leviandade.

12 de janeiro de 2010

Do uivo.

Acho que, em geral, uivamos pouco.

10 de janeiro de 2010

Monstros e histórias.

Fico com ebejeebies por saber que amanhã vou ver em filme uma história que tantas vezes li, que tantas vezes aconteceu na minha imaginação. Gosto de antecipações, como aquele momento antes do primeiro beijo. Gosto de pensar como serão os monstros desenhados por outras imaginações que não a minha. E, por gostar muito de histórias infantis, fico maravilhada com essa antecipação. Porque as histórias não dizem às crianças que os monstros existem - isso as crianças sabem de ginjeira. As histórias ensinam às crianças que os monstros podem ser encantados, expulsos (se forem maus), conquistados. As histórias infantis não (nos) dizem que os monstros existem, só dizem as coisas infinitas que podemos fazer com eles.

9 de janeiro de 2010

burn, burn, burn.

"They danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn..."

Jack Kerouac, On the Road.

8 de janeiro de 2010

Há elogios que nos tiram a respiração.

"Ontem vi finalmente o dvd do Coco avant Chanel e passei o filme todo a ver-te ali a costurar destinos."

7 de janeiro de 2010

A mercearia cá do bairro.

Se há coisa que me dá prazer é tropeçar em pessoas. Não em sentido literal - embora aconteça frequentemente porque acho que nasci com dois pés esquerdos - mas tropeçar como quem interrompe inesperadamente um caminho de todos os dias e muda de direcção. É ir à mercearia do bairro e, em vez de trazer as maçãs e o açúcar que estão na lista, chega-se a casa com um sabor bom de conversas entre gente que se entende e fala o mesmo dialecto, tantas vezes alienígena. E pensando nisso não posso deixar de ficar contente pelo simples facto de isso ser possível. Sem mais nada. Sem planos ou expectativas, sem pressões ou equívocos. É o que é. E há dias em que isso faz infinitamente mais sentido do que todas as outras coisas escritas, cinematográficas, densas, complexas, intrincadas. Isto hoje é muito muito simples: tenho uma sorte extraordinária nos meus tropeções. E isso é muito bom. Só porque sim.

6 de janeiro de 2010

Diálogos surreais.

senhor do café: desculpe a pergunta, é professora?
ela: sou...
senhor do café: ali da escola? (aponta com a cabeça na direcção do jardim infantil/escola primária)
ela: não, não, dou aulas a adultos, numa faculdade. (sorriso) Porquê? Tenho cara de professora primária?
senhor do café: por acaso até tem...
ela: não percebi bem se isso era um elogio...
senhor do café: eu também não.

(Aconteceu algures em Setembro, mas lembro-me sempre desta conversa quando entro no café e o senhor me diz "olá sôprossora")

Dr. Strangelove.

Descobri que há uma desordem neurológica a que se chama Dr. Strangelove syndrome. E é, nem mais nem menos, do que uma forma de apraxia em que os membros (tipicamente as mãos, mas nunca se sabe...) fazem tarefas involuntariamente. Uma mão, por exemplo, pode abrir botões de uma camisa ou despir roupa sem que, na maioria das vezes, o "dono" da mão se aperceba.

(http://en.wikipedia.org/wiki/Alien_hand_syndrome)

Acabei de juntar mais esta desordem à minha pequena lista de alegadas anormalidades clínicas. A partir de agora a minha lista passa a ser:
- Tourette
- Narcolepsia
- Dr. Strangelove syndrome

Há coisas extraordinárias, não há?!

Maçã-s, maçã z.

Muitos foram os anos em que perdi documentos por não gravar - ora a bateria do computador cedia, ora o programa dava erro, ora acontecia qualquer outra carnificina típica da vida de um documento com prazos apertados. O "save" tornou-se por isso o meu porto de abrigo para evitar a falha, o meu reduto de salvação que impedia o taberneiro que há em mim de "baixar" e soltar esconjuros em forma de palavrões cabeludos. Em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-s.
Outro fiel amigo ganho a pulso nestas lides foi o "undo" - a possibilidade de, a cada passo, voltar atrás, reverter e fazer de conta que o erro não aconteceu. Duas teclas, dois dedos (de testa?) e tinha de novo a folha em branco, o potencial, a ausência de erro. Num segundo, nada tinha corrido mal, aquela palavra não estava no lugar errado à hora errada, o erro ortográfico deixava de existir, a conclusão precipitada desaparecia por magia, a falibilidade estava blindada num truque de prestidigitador: agora vês, agora não. E em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-z.
Com estes tiques e truques, acho natural que este método se transfira para a vida fora do processador de texto: gravar insistentemente coisas na memória. Ter um plano B para o caso de erro. Só dar um passo em frente se o soubermos reversível, não vamos nós correr o risco de perder o que já fizemos. Por isso acho perfeitamente natural que, à medida que vamos processando cada vez mais e mais palavras, histórias, tratados e declarações, nos tornemos cautelosos por defeito.

(a minha sorte é que há oito anos trabalho em computadores que falham menos que os do Sr. Gates, o que me vai permitindo moderar os tiques. É uma espécie de maçã-r.)

4 de janeiro de 2010

Da bipolaridade. Ou hiper-lucidez.

(ou como fiquei quase duas horas com ebejeebies por causa da cópia autografada do meu livro preferido do Andre Jordan)

3 de janeiro de 2010

Surgiste de repente no meio de coisas proibidas.

Até no Correio da Manhã há poesia. A fé tem destas coisas.