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9 de julho de 2012

Quando as palavras dos outros dizem o que não sabemos dizer - parte 1


"O sol nas suas costas era já uma generosidade grande e não havia mais ninguém. Não havia ninguém. A Isaura disse: eu pensava que o amor era bom. Tão estranho que depois de tanto tempo e tanta mágoa pudesse pensar no amor. Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstracção de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom. E chorou sem qualquer convulsão porque aceitou chorar. Aceitou chorar. Havia muito que não o fazia. Talvez tivesse percebido que a natureza era, toda ela, uma expressão exuberante e que manifestar os seus sentimentos seria uma participação ínfima nessa honestidade do mundo. Talvez tivesse percebido que usava de honestidade consigo mesma pela primeira vez em muitos anos. Disse: estou sozinha. E repetiu: estou sozinha. Desatou a falar como se não suportasse mais a boca fechada. Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

Quando as palavras dos outros dizem o que não sabemos dizer - parte 2

"Um homem chegou aos quarenta e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

22 de maio de 2012

Lugar estranho

Dou por mim a pensar que estou outra vez naquele sítio em que preciso que tudo mude para que tudo fique na mesa. E não sei se gosto de estar aqui.

Faltam 4 minutos para chegar a lado nenhum.

Ou como, de repente, o passado, presente e futuro se misturam numa amálgama de coisas. E tenho ataques de ansiedade quando revivo os dias de ontem trazendo-os para os dias do amanhã. Que, bem vistas as coisas, é uma forma genial de arruinar o dia de hoje. Até quando é que é normal o passado entrar pelo futuro adentro e deixar-nos congelados no presente? Até quando é que podemos viver à sombra do que foi e usar essa desculpa para não nos deitarmos ao sol? Até quando é que é legítimo termos cuidado, porque afinal não somos parvos, aprendemos, sabemos que não devemos repetir? Falta muito? A mim falta-me a voz a dizer "é já a seguir àquela curva". Porque francamente estou cansada e doente por não saber quando. Nem como. Nem se.

14 de dezembro de 2011

Da quietude.

Hoje fiz as contas. Este ano fui 23 vezes a Paris, a maior parte delas em trabalho. Quando me queixo sou insultada pelos meus amigos, mas a verdade é que à maior parte chamo "viagens de ar condicionado": aeroporto-taxi-hotel-escritório-hotel-taxi-aeroporto. Mas às vezes (muito às vezes) acontece conseguir fugir, acontece conseguir respirar ar que não passou por filtros ou centrais de AVAC. E esse foi o caso hoje. Fugi uma hora para o Musée Rodin, o meu lugar preferido na cidade. Deixei-me passear por entre os corpos de bronze, por baixo das árvores de folha caduca que teimam em não caducar. Fiquei quieta no sossego dos corpos vivos das estátuas, a olhar a tragédia, o amor, a alegria, o medo, o prazer, o sufoco, a altivez, a humildade, o despeito, a ternura. Está tudo lá. Cravado no bronze. Escrito na curva de um braço, gravado num olhar penetrante. Diria que vive gente nas estátuas de Rodin. E na total imobilidade, mais quieta que qualquer uma das muitas obras espalhadas pelo jardim, dei de caras com a minha própria humanidade.

17 de outubro de 2010

Quantas vezes se pode começar do zero?

(um post assim à laia de tweet)

12 de outubro de 2010

Quarto acto.

Era pacata e inquieta. Criatura sossegada por fora, desassossegada por dentro. Entrava em cena triunfante, cabeça erguida, costas direitas, peito feito. Ninguém desconfiava. Admiravam-lhe a robustez, a fortaleza, os saltos mortais. 
No primeiro acto era o susto, um medo miudinho que se instalava ali no fundo do dedo do pé. Tinham medo dela porque era capaz de tudo, porque era invencível e dava a volta a qualquer esquina. Diziam que era respeito, mas era só o suor frio de ver o dedo no gatilho. Ela tinha medo do medo e fazia a corte, embalava, dizia que vai ficar tudo bem. Eles sossegavam e deixavam-se ir. Ela sossegava e deixava-se ficar.
No segundo acto era o orgulho, uma certeza incerta de que as pessoas se fazem de fibra e estopa, resistem ao vento. De que o que vale a pena só vem com esforço e de que nascemos para resistir. Olhavam para ela e viam determinação, ela olhava para ela e via obstinação. 
No terceiro acto era a revolta, o aborrecimento feito em forma de mudança, o diletantismo feito em forma de negação. Eles olhavam para ela e viam-na multifacetada, ela olhava para ela e via um desassossego intrínseco que não a deixava dormir.
No quarto acto ela não apareceu. Olharam uns para os outros em espanto, os olhos arregalados que antecipam a desilusão. Poucos perceberam que as pancadas de Molière eram afinal o bater do coração.

7 de março de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me saber cantar e fazer um canção sobre o desassossego.