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21 de março de 2010

Ele é que a sabe toda.

O amigo às vezes à noite é que a sabe toda - desculpa Felino, ele ganhou desta vez. A conclusão do mês é que os homens gostam mesmo é de ser maltratados. Apreciam. E isso explica tanta coisa... É que eu não tenho talento para destratar, para ser má com as pessoas, para as massacrar. Sou, apesar de disfarçar bem, uma criatura de amor. Gosto de abraços, de dar colo e coração. Gosto de tratar bem e ser bem tratada, de dar amor e algodão doce. Gosto de estar perto para o que for preciso. Em geral, não maltrato, não desprezo, não espezinho, não evito, não dou patadas, não escorraço, não corroo. E, se calhar, esta coisa toda de ser boazinha e viver na "la-la-land" é o maior anti-tesão do mundo. Enjoa. Isso explica mesmo muita coisa (só me apetece dizer palavrões).

15 de fevereiro de 2010

Gatocão.

Tenho aprendido algumas coisas sobre homens (não que isso me sirva de algum coisa porque eu teimo em achar graça aos atípicos). Mas entre as explicações do meu amigo Felino e as explicações do meu amigo Às Vezes à Noite, confesso que me perco - estão em extremos opostos. Feitas algumas reflexões cheguei à conclusão que quero um homem gatocão. Independente, arisco, confiante e caçador como um gato - até eu, o cúmulo da independência, aprecio um "anda-cá-que-és-minha". Leal, incondicional e doce como um cão - como diz a Madalena, sou extremamente fofinha (disfarço é bem). Pode ronronar e pôr as unhas de fora. Pode ficar contente a abanar a cauda quando me vê. Pode largar pêlo que eu não me chateio. Pode babar-se de vez em quando que eu tenho dias em que até preciso de um choque de auto-estima. Pode passear-se entre copos de vidro fino sem derrubar nada e pode também partir a loiça toda de entusiasmo. Era bom também que tivesse polegares oponíveis porque agora dava-me imenso jeito que dominasse o uso do black&decker (e já agora que tivesse um porque perdi o meu no divórcio, junto com as cadeiras de praia) e que tivesse um talento nato para montar estantes para livros. E que gostasse de sol e praia que eu não sou de invernos. E que se deliciasse com um domingo no sofá a ver filmes de mantinha - que eu agora tenho um sofá todo catita. E que fosse bonzinho porque eu não tenho grande apreço por sacanetes. E que não se incomodasse por eu cantar no banho (canto mal, mas tenho muita presença em palco). E que gostasse de ficar à conversa até às quinhentas só porque sim. E que gostasse de bonecos porque eu vou finalmente desencaixotar os meus. E que não achasse que eu sou uma perfeita anormal porque gosto de ir à praça como as velhinhas. Acho que estou pronta para pôr um anúncio nos classificados do Correio da Manhã.

11 de janeiro de 2010

É pecar ou largar.

Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.

10 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão subliminar, tão subliminar que se transformou numa elipse.

9 de janeiro de 2010

Metam a tesão para dentro.

Os meus sábados são feitos de encontros. De sol a sol, a bater perna pela cidade velha, a saltar de café em café para cumprir a agenda cheia de gente para ver, conversas para pôr em dia, apoio moral, novidades bombásticas, histórias tristes, pequenas histerias passageiras, partilhas das mais diversas. Hoje calhou ser um sábado só de mulheres - cinco encontros com cinco mulheres que, umas mais presentes que outras, vão estando na minha vida. É refrescante ter um dia assim, sendo que a grande maioria das pessoas na minha vida são homens e sempre me vão faltando pelo caminho algumas referências de lipstick jungle.

Das cinco mulheres quatro são casadas, emparelhadas, amatizadas ou qualquer outra definição do género que implique um "nós". E as quatro estão a atravessar momentos difíceis nos respectivos emparelhamentos. Ainda não percebi porque é que estas criaturas maravilhosas vêm ter comigo com pedidos de conselhos e opiniões, sendo que é do domínio público que eu tenho pouco talento para o "nós" e parca experiência em relações bem sucedidas. Confrontadas com este facto, em uníssono alegam a minha lucidez, o meu pragmatismo e a determinação com que "mordo" a vida. Aceito os elogios mas continuo na mesma, sem perceber porquê.

Estas quatro mulheres emparelhadas, todas entre os 30 e os 40, vivem hoje momentos de ruptura e há-os para todos os gostos: o homem que saiu de casa com uma criança de meses porque se apaixonou perdidamente por outra pessoa, o homem que dá umas voltinhas por fora e esconde tão bem que frustra qualquer instinto apurado, o homem que dá voltinhas por fora e não faz qualquer esforço para esconder. Não digo que as minhas mulheres não tenham culpas no cartório nem que sejam monumentos irrepreensíveis à vida conjugal - mas também não vou entrar por aí porque não tenho qualquer legitimidade para avaliar o que quer que seja.

A grande conclusão do dia está no papel que assumi hoje (um papel no qual sou sempre boa): o advogado do diabo. Estive então o dia inteiro a defender os homens destas minhas mulheres - não necessariamente a defender o indefensável, mas a trazer à mesa uma perspectiva diferente. Dei por mim a racionalizar infidelidades, a defender o amor paternal, a proteger os homens destas minhas mulheres de pequenas vinganças e humilhações (as mulheres conseguem chegar a um extremo assustador de insanidade quando rejeitadas).

Chegado o fim do dia e antes de ir para "o senhor que se segue", dei por mim a reiterar uma conclusão já antiga que me frustra no sexo oposto - e sinto-me com legitimidade para o dizer porque o meu círculo é muito masculino - falta coragem aos homens. Falta verticalidade. Falta que os tenham no sítio. Porque jamais conheci um homem que tenha deixado de fazer parte de um "nós" sem ter um novo "nós" adiante, sem ter uma razão concreta e objectiva para perseguir e conquistar a seguir. E isso frustra-me. Por mais que adore os meus homens, revejo neles também esta característica. E por mais que adore os meus homens tenho muito mais mulheres que assumem na personalidade, atitude e escolhas de vida a característica morfológica predominante da masculinidade. Sem punhos de renda, conheço mais mulheres com tomates do que homens.

E por isso, apesar de ter passado o dia inteiro em defesa dos homens, vou - aqui que ninguém nos ouve - parafrasear uma senhora de quem muito gosto e dizer: Homens deste mundo, metam a tesão para dentro e façam o favor de erguer outra coisa.

8 de janeiro de 2010

Há elogios que nos tiram a respiração.

"Ontem vi finalmente o dvd do Coco avant Chanel e passei o filme todo a ver-te ali a costurar destinos."

6 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão bem vestido, tão bem vestido que se transformou numa figura de estilo.