5 de janeiro de 2010

Da insónia.

Há uma beleza perversa na insónia, uma mistura de asneira e suspiro. Há algo de interessante na passagem física do tempo enquanto se espera para adormecer - é quase como uma massa nuvens baixas que passa ali rente ao nariz apontado ao tecto, que se move muito muito devagar, mas depressa o suficiente para percebermos que se está a mover. É um tempo com textura, com densidade. Não tem cor nem cheiro, mas é físico, paira ali mesmo por cima da cama, ao alcance de duas mãos quase abertas, dedos flectidos para agarrar essa massa de tempo. Tenho insónias desde criança, é uma condição crónica, com fases melhores e piores, dependendo do quanto consigo gerir a ansiedade e parar a cabeça, congelar as ideias. Recuso-me a tomar comprimidos para dormir, não gosto do sono falso porque não sonho. E eu sonho sempre - sempre que durmo - e lembro-me sempre dos sonhos, coisa que eu achei sempre que era um presente especial só para mim, o cérebro a compensar-me, dorido e culpado, da insónia. Porque o meu cérebro é um pai divorciado: exagera mimos e presentes deliciosos para compensar a ausência. Sonho imenso, com detalhes, nomes, cheiros, texturas e outras fisicalidades perfeitamente distintas, os meus sonhos existem, têm corpo e vida, é estranho, são pedacinhos de real numa dimensão irreal ou numa hiper-realidade. Uma das coisas boas da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Em contrapartida, uma das coisas más da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Tenho uma relação de amor-ódio com a minha insónia: amo-a desmedidamente por ser o meu espaço solitário e livre para a reflexão e, quando acaba, traz-me o presente de sonhar em HD. Odeio-a desmedidamente porque não há nada melhor que dormir bem, profundamente, sem hora para acordar, a preguiça a rebolar naquele tempo gasto entre a lucidez e a possibilidade, cama quente e desapego, desassombro em posição fetal.

6 comentários:

  1. Eu cá é mais drogas! Raramente recordo sonhos, mas são quase sempre influenciados pelas séries que estou a ver no momento :D
    Os meus momentos de reflexão acontecem uma vez por mês, nas minhas viagens solitárias para o Alentejo. Ida e volta são 5 horas de 'insónia'.

    ResponderEliminar
  2. "Porque o meu cérebro é um pai divorciado: exagera mimos e presentes deliciosos para compensar a ausência." Denso.

    ResponderEliminar
  3. Também consigo ser rarefeita, clara, transparente. Mas nesta altura do campeonato já sabes isso Felino :-)

    ResponderEliminar
  4. But, but... i don't want to be shapeless, formeless...
    Be geek my friend, be geek.

    ResponderEliminar
  5. Tenho aqui um artigo giro para ti.
    Eu pelos visto só me lembro dos sonhos que interessam...o que aconteceu prai duas vezes em 30 anos.

    ResponderEliminar