15 de janeiro de 2010

Da teoria dos contrários. Ou a lata descomunal.

Eu trabalho com ideias. Trabalho com negócios, pessoas, informação, argumentos, soluções criativas. Neste campo sempre tive uma tendência natural para contra-argumentar, para virar as coisas ao contrário, fazer muitas perguntas, procurar outras respostas, experimentar coisas diferentes, processos e métodos que não os meus. Tenho uma tendência nata para me atirar para fora de pé. Não é bom nem é mau, é assim. Saio naturalmente das minhas zonas de conforto e dou saltos de fé. Comecei por fazê-lo de olhos fechados e testa franzida, cheia de medinhos. Correu bem. E fiz outra vez. E outra. E outra. Foi correndo sempre bem e acabou por se tornar um hábito e por se transformar num traço de personalidade. Esse caminho fez de mim uma pessoa de saltos mortais. Como aliás, de cada vez que tenho de apresentar o meu percurso profissional, se nota à légua. Como aliás, de cada vez que conheço alguém que me interessa ou fascina, se sente de imediato. Se no campo profissional isto fez de mim alguém relativamente reconhecido (presunção e água benta...), no campo pessoal já me deu alguns dissabores. Entre leituras enviesadas - dos próprios ou dos outros - falhas de comunicação e castelos de areia, já me aconteceu de tudo. Porque a verdade é que tenho uma lata descomunal, daquelas latas grandes-contentor-de-porto-marítimo. E se gosto de alguém - homem, mulher, por pura curiosidade, por puro interesse humano, por empatia, por simpatia, por humor, por-amizade-ou-algo-mais - faço por isso. Faço por conhecer melhor, por perceber, por descobrir. Porque se há coisa que amo perdidamente e que me fascina até ao último fôlego são as pessoas. E as grandes conquistas da minha vida, os meus mais queridos amigos, foram descobertas assim, a dar o flanco, a perguntar, a combinar coisas inusitadas, a criar oportunidades para conhecer. Porque também com as pessoas ponho em prática a teoria dos contrários, venço a timidez, refreio a auto-censura, subverto as regras. Porque confio que vai correr tudo bem. Mesmo que do outro lado a primeira leitura seja desconfiada e cuidadosa, seja precavida ou apreensiva. Porque todos os meus saltos mortais com pessoas - o exercício da minha lata descomunal - trouxeram à minha vida, à minha história, as pessoas notáveis e magníficas com quem tenho o privilégio de partilhar o caminho. Continuarei por isso a fazer saltos mortais. Mesmo que isso, de vez em quando, me custe um crânio rachado no asfalto (sim, daqueles cheios de sangue e nhanha como se vê nos filmes). O que é que tenho a perder? Talvez um pouco de mistério - ai o que eu adorava ser aquela morena misteriosa dos filmes. Um pouco de paz - por causa dos mal entendidos. Um pouco de dignidade - ainda há quem ache que eu sou mesmo só maluquinha, sendo que acredito piamente que quem não está para se dar ao trabalho de ver o livro além da capa interessa-me pouco. O que tenho a ganhar? Eventualmente mais uma pessoa fantástica na minha vida. Feitas as contas, compensa em larga escala.

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