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9 de fevereiro de 2010

Peregrinação interior.

Há muitas coisas boas no momento em que se está de férias: a ruptura com a norma, o abandono do quotidiano, a liberdade nas horas e nos lugares, as pessoas que nos acompanham e as que se cruzam connosco, as coisas que se fazem diferente, as coisas que se fazem igual e sabem diferente, a saudade dos amigos que se traduz numa vontade de partilhar os bocadinhos todos de prazer, o peito cheio do bem que sabe de se pôr a leitura em dia, a vontade de escrever que nasce e renasce todos os dias, os olhos que brilham com as coisas mais simples como o dia que nasce lá fora. Mas de todas as coisas boas de estar de férias, acho que o que mais adoro é o tempo. O tempo que não mora aqui, os relógios que desaparecem e a pergunta que não sai “que horas são?”. O tempo que estica e encolhe à medida das coisas que queremos fazer, o tempo que escorre lento entre os dedos. O tempo para arrumar, para perceber, para sentir, para entender coisas que no bulício dos dias nos passam ao lado, disfarçadas de pequenos entusiasmos. O tempo para descobrir. Para nos descobrir da bruma dos dias, da nuvem que se forma com as urgências, do nevoeiro que se faz em frente aos nossos olhos numa luta diária pela sobrevivência moral e emocional. O tempo das férias é um tempo solto, de peito aberto, sem restrições, em que podemos fantasiar e inventar tudo, reinventar a roda e descobrir nessas viagens coisas importantes sobre nós. O Alçada Baptista chamar-lhe-ia peregrinação interior. É aí que estou, peregrina despida de mim, do meu modo de viver e sobreviver aos dias, peregrina de coração puro e peito aberto, olhos levantados e sorriso posto. É aí que estou. A descobrir bocadinhos de mim que não conhecia e a arrumar os que descobri recentemente. É uma espécie de catarse, o fim de um ciclo que se faz e desfaz com o vai-vem do mar. Arrumo hoje para desarrumar amanhã, sei que é inevitável desarrumar-me. Até porque as coisas que estou a descobrir me desarrumam e desconcertam. Mas de uma forma boa e plena. Uma cartografia do coração, descoberta de peregrino.

21 de janeiro de 2010

Pequeno prolapso da válvula mitral.

É uma anomalia congénita. Herdada ou não, nasceu comigo este pequeno deslize de parte de um corpo estranho, esta deformação do objecto cardíaco. Convenci-me de que nasci assim para ter um coração diferente, para ter um objecto disforme, imprevisível, irregular. É uma espécie de desculpa. É uma espécie de descuido. É uma espécie de alegação que legitima o descompasso. É uma espécie de "porquê", um lugar em que me permito guardar coisas que não têm outras caixas, outros lugares. É um saco azul sem dinheiro sujo, é uma caixa de sapatos debaixo da cama, é o prazer, pequena transgressão na racionalidade vertical de quem sabe que não se mete noutra. É a única parte de mim onde tudo pode acontecer, este meu prolapso. É uma lacuna na lei, uma regra incompleta, uma janela mal vedada, uma fresta quase invisível. É um lugar estranho, o prolapso. Sem regras, sem normas, sem tabulações. É um compartimento escondido na bainha das calças, um bolso secreto no casaco de inverno, uma alça de um vestido de verão. É um tesouro escondido, sem "x" a marcar o lugar, é um mapa incerto, cartografia emocional. É um lugar onde guardo amores e amigos, memórias e olhos fechados. É algures entre a garganta e o estômago, ali a meio caminho de tudo o que é vital.