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12 de fevereiro de 2010

Hóra di bâi.

Já com um pezinho em casa, sento-me a ver o último pôr-do-sol na ilha. Acendo mais um cigarro e um sorriso e penso que está mesmo na hora de voltar. É boa esta sensação de tempo certo. Amanhã voo, domingo levanto voo. Esperam-me revoluções, isso eu sei. Algumas planeadas outras sei-as de instinto. E esta viagem foi - mesmo que não o soubesse quando a marquei - no momento exacto em que tinha de acontecer. Como todas as coisas que me aconteceram recentemente. Portas que se abriram, descobertas que foram feitas, acasos cheios de sentido, ideias cheias de acção. E é maior do que posso descrever a sorte que tenho e a gratidão que trago por, como se fosse magia, as pontas da minha vida se estarem a juntar. Mesmo que só na minha cabeça, isso já é muito. Destruí, afundei, fiz ruir. Escavei, agitei, mordi, lutei. Procurei, não encontrei. Achei. E vim aqui para arrumar essas coisas todas e entrar numa porta aberta, uma sala com lume aceso para me receber. Foram umas férias magníficas, independentemente de ter estado doente o tempo todo. Isso pouco importou. Foram tantas as coisas que descobri. Foram tantas as pazes que fiz. Foram tantos os grãos de pó que limpei. Foram tantas as lições que aprendi. Não numa semana, claro. Numa vida. A semana foi o corolário de uma fórmula qualquer que se desenhou na minha cabeça, um brinquedo de encaixes. A semana foi a bonança depois da tempestade, em que se apanham os lixos e se arruma tudo no seu devido lugar. E de tão inesperado e importante que este processo foi fica-me a sensação boa de missão cumprida. De coisa feita, alinhada. Cama feita de lavado para deitar as pequenas revoluções que estão aí a chegar. É bom. Estupidamente bom.

Da minha cama vejo o mar *suspiro*

telegrama

Madalena dorme e contempla o mar stop Joana funga e assoa-se stop

10 de fevereiro de 2010

Acho que vem aí pifo.

Estou sentada no bar do hotel a tratar de mails e outras maçadas de trabalho e o simpático senhor do bar acabou de me vir oferecer um cocktail alaranjado em copo de pé alto. Aceitei para não fazer a desfeita ao senhor, dei um gole e está cheio de grogue - para quem não sabe o que é faça "grogue cabo verde" no google e descobre rapidamente a que me estou a referir... Cheira-me que hoje isto vai dar em pifo valente.

Dez coisas avulso, sem rei nem roque.

1. Ontem fumei um cigarro sentada ao lado de uma cigarra. Ri-me sozinha do pleonasmo.

2. O meu corpo reconhece instintivamente que está em casa e de repente todo o cabelo se me encaracola e a anca rebola involuntariamente quando ando.

3. A Madalena tem medo de bichos. E isto inclui gatos e cães, não só os gafanhotos gigantes.

4. Os apagões no meu casinhoto tornam-se cada vez mais frequentes, tanto que o senhor da recepção, quando me vê chegar, já diz “23.1 sem luz outra vez?”

5. Há um adónis mulato, responsável pela manutenção da piscina, que se passeia qual pavão em frente a nós e faz piscinas em pose atlética, fazendo questão de se virar para que vejamos as suas costas e ombros. Neste ponto é importante referir que a Madalena e eu somos as únicas no hotel com menos de 60 anos, o que nos garante vantagem concorrencial.

6. O mar continua impenetrável. De vingança, tenho nadado tanto na piscina que já quase parece que passei o inverno todo a ir ao ginásio.

7. Depois de três dias ao sol consegui não apanhar nenhum escaldão e já estou a mudar de pantone de pele e olhos - o verão cai-me definitivamente melhor que o inverno.

8. Ontem jantamos bem pela primeira vez porque a Madalena teve a iluminação de sugerir que pedíssemos duas entradas em vez de entrada e prato principal. Genial.

9. Já li três dos seis livros que trouxe. A Madalena e eu já andamos a fabricar contrabandos de literatura.

10. Ainda não fomos à capital, a Vila de Sal-Rei. É aqui ao lado e tem 2.500 habitantes. Estamos a guardar o único programa possível na ilha para fazer num dia que esteja mau tempo e estejamos aborrecidas.

9 de fevereiro de 2010

Peregrinação interior.

Há muitas coisas boas no momento em que se está de férias: a ruptura com a norma, o abandono do quotidiano, a liberdade nas horas e nos lugares, as pessoas que nos acompanham e as que se cruzam connosco, as coisas que se fazem diferente, as coisas que se fazem igual e sabem diferente, a saudade dos amigos que se traduz numa vontade de partilhar os bocadinhos todos de prazer, o peito cheio do bem que sabe de se pôr a leitura em dia, a vontade de escrever que nasce e renasce todos os dias, os olhos que brilham com as coisas mais simples como o dia que nasce lá fora. Mas de todas as coisas boas de estar de férias, acho que o que mais adoro é o tempo. O tempo que não mora aqui, os relógios que desaparecem e a pergunta que não sai “que horas são?”. O tempo que estica e encolhe à medida das coisas que queremos fazer, o tempo que escorre lento entre os dedos. O tempo para arrumar, para perceber, para sentir, para entender coisas que no bulício dos dias nos passam ao lado, disfarçadas de pequenos entusiasmos. O tempo para descobrir. Para nos descobrir da bruma dos dias, da nuvem que se forma com as urgências, do nevoeiro que se faz em frente aos nossos olhos numa luta diária pela sobrevivência moral e emocional. O tempo das férias é um tempo solto, de peito aberto, sem restrições, em que podemos fantasiar e inventar tudo, reinventar a roda e descobrir nessas viagens coisas importantes sobre nós. O Alçada Baptista chamar-lhe-ia peregrinação interior. É aí que estou, peregrina despida de mim, do meu modo de viver e sobreviver aos dias, peregrina de coração puro e peito aberto, olhos levantados e sorriso posto. É aí que estou. A descobrir bocadinhos de mim que não conhecia e a arrumar os que descobri recentemente. É uma espécie de catarse, o fim de um ciclo que se faz e desfaz com o vai-vem do mar. Arrumo hoje para desarrumar amanhã, sei que é inevitável desarrumar-me. Até porque as coisas que estou a descobrir me desarrumam e desconcertam. Mas de uma forma boa e plena. Uma cartografia do coração, descoberta de peregrino.

Das coisas simples.

Gosto das coisas simples. É um riso, uma palavra, um olhar, os pés descalços na terra, o mar indomável das ilhas, os gafanhotos gigantes, o som do vento que não se cala, as folhas pequenas das acácias, os cocos pequeninos que em criança usávamos como munição em guerras de faz-de-conta. Deixo-me adormecer ao sol, com a familiaridade do som ao fundo. Acordo e mergulho para arrancar o torpor e o calor acumulado. Deixo-me ficar à sombra a ler. Faço o caminho de pedras de volta a casa e a luz é-me familiar. Vejo-me criança a brincar, a jogar à bola na areia, a fazer corridas de caranguejo pirata com lanternas na mão. Olho o mar e o céu, respiro fundo muitas vezes e toco, sempre que posso, a textura sedosa da areia - é quase como tentar que aquele bocadinho de chão me fique gravado na pele. Dou por mim a pensar em pessoas que gosto muito. Dou por mim a apetecer-me partilhar estas coisas com alguém em particular. A apetecer-me dizer-te em palavras escritas estas coisas todas que não têm nome, a descrever cuidadosamente um determinado som para que o ouças também. A contar uma história de mar para que te saiba na boca a quantidade exacta de sal. A dizer-te baixinho uma lenga-lenga de criança neste meu dialecto para que herdes as minhas memórias. A despejar-te um punhado de areia num pé para que a sintas quando mexes os dedos. A soprar-te ao de leve nos olhos fechados para que saibas que nas minhas ilhas não há um momento quieto, sem vento. E espanto-me a querer partilhar contigo estas coisas todas, é-me inesperado. E, como dizia antes, não sei se é da moleza que mata fronteiras ou do gin tónico a falar, mas apetecer-me partilhar estas coisas todas contigo é muito maior do que dizer que gosto de ti. Porque gosto das coisas simples.

Da madrugada.

Acordo antes de o sol nascer. Lá fora o mar, incapaz de sossego e silêncio, diz bom dia com ondas grandes e cinzentas. Não tarda nada far-se-á manhã cor-de-rosa e os dois ou três cães do costume vão saltitar praia fora. Há coisas que me fazem feliz, só porque sim. E este momento é uma dessas coisas: é o antes, o sossego, o vazio. É toda a gente que dorme nas suas pequenas casas iguais à minha, cama de madeira, rede mosquiteira, quadro pintado na parede, pequena varanda sobre a praia. Dá-me um prazer que não consigo explicar sair descalça para a areia fria e molhada da madrugada, gosto de acordar com os pássaros, como se também eu começasse a chilrear com a aurora. Gosto do cheiro molhado do dia antes de nascer, do vento frio que me enfia o cheiro a mar pelo nariz. Gosto das manhãs compridas, do café bebido com a cara enfiada num livro que não consigo largar. As ventoinhas de tecto espalhadas pela sala lembram-me a minha casa de infância. O som do riso, das interjeições - nunca soube explicar este som das interjeições em crioulo, mas é um som que me embala. Ouço longe e perto um dialecto falado que é meu. Sei-o de cor, mesmo que não o fale há anos. Sei-me capaz de conversar neste tom, de me rir e de recuperar os “r” de língua dobrada na ponta, os “l” lânguidos, arrastados- Sei-me capaz de ir buscar as expressões monossilábicas de prazer, de pergunta, de confirmação - nunca outra língua ou dialecto que tenha conhecido tem estes sons tão guturais e simples. Sinto-me em família aqui. Não em casa, em família. O cheiro da terra, o som dos coqueiros, a areia fina entre os dedos dos pés, a água dessalinizada para lavar os dentes, a música que entra e sai por todas as frestas, as peles escuras, o brilho nos olhos, o sorriso sempre pronto a abrir. Sinto-me em família aqui. Mesmo de madrugada.

6 de fevereiro de 2010

A mãe manda dizer.

Em criança eu era a pior pessoa do mundo para mandar recados. É um clássico familiar a minha prestação: "Está? Tia, a mãe manda dizer que não está". E hoje é isso mesmo, diz que este blog vai de férias. Portanto não está. Ou pelo menos, mandar dizer que não está. Estará?