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9 de fevereiro de 2010

Das coisas simples.

Gosto das coisas simples. É um riso, uma palavra, um olhar, os pés descalços na terra, o mar indomável das ilhas, os gafanhotos gigantes, o som do vento que não se cala, as folhas pequenas das acácias, os cocos pequeninos que em criança usávamos como munição em guerras de faz-de-conta. Deixo-me adormecer ao sol, com a familiaridade do som ao fundo. Acordo e mergulho para arrancar o torpor e o calor acumulado. Deixo-me ficar à sombra a ler. Faço o caminho de pedras de volta a casa e a luz é-me familiar. Vejo-me criança a brincar, a jogar à bola na areia, a fazer corridas de caranguejo pirata com lanternas na mão. Olho o mar e o céu, respiro fundo muitas vezes e toco, sempre que posso, a textura sedosa da areia - é quase como tentar que aquele bocadinho de chão me fique gravado na pele. Dou por mim a pensar em pessoas que gosto muito. Dou por mim a apetecer-me partilhar estas coisas com alguém em particular. A apetecer-me dizer-te em palavras escritas estas coisas todas que não têm nome, a descrever cuidadosamente um determinado som para que o ouças também. A contar uma história de mar para que te saiba na boca a quantidade exacta de sal. A dizer-te baixinho uma lenga-lenga de criança neste meu dialecto para que herdes as minhas memórias. A despejar-te um punhado de areia num pé para que a sintas quando mexes os dedos. A soprar-te ao de leve nos olhos fechados para que saibas que nas minhas ilhas não há um momento quieto, sem vento. E espanto-me a querer partilhar contigo estas coisas todas, é-me inesperado. E, como dizia antes, não sei se é da moleza que mata fronteiras ou do gin tónico a falar, mas apetecer-me partilhar estas coisas todas contigo é muito maior do que dizer que gosto de ti. Porque gosto das coisas simples.