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18 de janeiro de 2010

Da realidade.

Sou de instinto, de impulso. Sou de razão, de lógica. Sou qualquer coisa ali no meio, trapézio montado sem rede, fato de lantejoulas a afinar o corpo dorido. Sou de saltos, sou de voos. Sou de terra, sou de chão. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que não falo, não faço, não dou, não sou. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que digo, que atiro, que atravesso, que arremesso, que ofereço, que mostro, que transpareço. E por mais esquizofrénico que isto possa parecer visto de fora, há uma espécie de razão onde a vida se pode decidir. Um espaço onde a vida acontece e quase se pode respirar. Canso-me. Descanso-me. Arquejo em convulsão, arfo, cuspo, mordo, beijo, lambo, rasgo e toco o dia. Porque esta coisa da realidade é táctil, faz-se coisa e faz-se verbo. Esta coisa da realidade é, nem mais nem menos, tornar real. Tornar-me real. E pode parecer simples, mas às vezes falta consciência e coragem para nos transformarmos naquilo que somos.