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4 de janeiro de 2010

Das hipérboles.

Acho que li demasiados livros, vi demasiados filmes - não no cinema, mas daqueles que se repetem incessantemente na desinteressante televisão de domingo à tarde. Acho que esse facto, aliado a uma imaginação fértil, faz de mim uma pessoa com um fraquinho por hipérboles. Não, não é bem um fraquinho, acho que isso faz de mim uma pessoa de hipérboles por defeito. Sou de exageros, imagino sempre gestos grandiosos, frases épicas, momentos colossais, finais explosivos. Nas mais pacatas situações imagino uma narrativa paralela, em que todos os personagens são de epopeia, coragem irrepreensível, força de leão. Premissas definidas, a narrativa é épica, dramática ou até lírica (sempre tive a mania das bandas sonoras). Vejo sempre uma intriga Queirosiana, um enredo intrincado e complexo, centrado num conflito digno da mais nobre literatura. Faço heróis, vilões, pares românticos e, na maior parte das vezes, trago a cena um comic relief. O narrador, de voz profunda e grave, vai explicando e acrescentando detalhes, assinala peripécias, antecipa reviravoltas - o meu narrador é normalmente omnisciente, mas é discreto, o sacana, bem que podia interferir e fazer-se também realizador.
As minhas narrativas paralelas são excitantes. Falam de proibições, de armadilhas, de conivência, de magia, de confronto, de castigo. Ao herói - que normalmente nem sou eu - acontece de tudo: a punição, a injustiça, o reconhecimento, a vitória, a partida, a transfiguração. Ao anti-herói acontecem as mesmas coisas, mas normalmente, à medida que se aproxima o clímax, as coisas não lhe correm muito bem. Claro está que isto é verdade nas minhas narrativas paralelas. Na esfera real a coisa é muito mais simples - a realidade raramente supera a ficção. Falta vigor aos gestos. Os personagens são indolentes, tímidos ou simplesmente não estão para se dar ao trabalho. As palavras são ocas. Os cenários são tudo menos cinematográficos. Os diálogos pobres. A banda sonora é uma mistura sem critério. O argumento é, vezes demais, banal. Os efeitos especiais são nada de especial. O guarda-roupa falha imensas vezes nos tamanhos - ora grande, ora pequeno. Sucedem-se os erros de raccord. E o casting, nem vale a pena começar a falar do casting.
A conclusão a que chego é que os tempos não estão para grandes épicos, hoje é tudo mais ou menos simples, minimal. É quase como se a vida fosse um filme de série B: tem o seu encanto, um infinito potencial, mas faz-se o que se pode com o que se tem. Mas isso não faz com que goste menos de hipérboles.