Desde que soube trago uma bola no peito. Quanto mais penso nisso mais sei - e sinto - que gostar de ti é sentir a tua dor no meu coração. É ver o sorriso da tua filha e o sorriso do teu pai misturados na minha imaginação e querer ver-te sorrir outra vez. Não sei explicar bem isto, nunca tive muito jeito para estas coisas de dizer os sentimentos e, sobretudo, nunca sei o que dizer nestas circunstâncias, talvez por saber que nada do que se possa dizer ameniza a dor ou faz sarar alguma coisa. Só o tempo traz a serenidade, a paz de aceitar que alguém partiu. Soubesse eu rezar e disparava avé-marias a pedir o conforto do teu coração, a pedir que fiques bem, que encontres um lugar qualquer onde esta coisa toda faça um sentido maior. Não sei rezar, por isso escrevo-te um beijo e um abraço: para te dizer que mesmo quando não estou, estou cá. Para o que precisares de mim. Como precisares de mim. Porque gosto muito de ti, do fundo do coração.
Beijos e até já,
J.
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4 de maio de 2012
20 de fevereiro de 2010
Lusco-fusco.
Escorre a chuva na janela e sinto que me podes salvar dos fantasmas, destas alminhas que correm aos guinchos, em bando, a sapatear no chão de madeira oca, assim que o sol nasce molhado. Sei que conheces por dentro e por fora esta coisa de trazer excesso de bagagem em todas as viagens que se faz, por menos t-shirts que se ponham na mochila. Sei que sabes o que é trazer o coração amarrotado e que há vincos que não vão lá com ferro. Precisam de água, de ser lavados, molhados, lambidos. Sei que me podes fazer uma espécie de exorcismo e lavar-me o coração com sabão azul-e-branco. Sei que me podes redimir, ouvir-me em confissão, vinte-avé-maria-dez-pai-nosso-uma-borrifadela-de-água-benta. Sei que não ouves gritos quando me ponho a falar sem parar, quando esbracejo e viro a caneta na ponta dos dedos. Sei que não ouves e não sabes do meu desassossego, dos gestos exagerados para afastar corvos e gaivotas em terra, abutres em voo circular, rasantes, agoirentos. E sabes que há coisas que não te contei e sabes que não o fiz porque não as quiseste saber, senti-o. Ouvi-te dizer que não, a tapar as orelhas num gesto infantil, a abanar a cabeça com os olhos postos no chão. Não sei se sabes, mas esta hora de semi-luz dá-me sempre algum medo, é uma espécie de maré vazante, água que vai. Mas mesmo assim acho mesmo que me podes lavar.
4 de fevereiro de 2010
Apetecia-me.
Hoje apetecia-me um abracinho daqueles que não acabam.
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