20 de fevereiro de 2010

Lusco-fusco.

Escorre a chuva na janela e sinto que me podes salvar dos fantasmas, destas alminhas que correm aos guinchos, em bando, a sapatear no chão de madeira oca, assim que o sol nasce molhado. Sei que conheces por dentro e por fora esta coisa de trazer excesso de bagagem em todas as viagens que se faz, por menos t-shirts que se ponham na mochila. Sei que sabes o que é trazer o coração amarrotado e que há vincos que não vão lá com ferro. Precisam de água, de ser lavados, molhados, lambidos. Sei que me podes fazer uma espécie de exorcismo e lavar-me o coração com sabão azul-e-branco. Sei que me podes redimir, ouvir-me em confissão, vinte-avé-maria-dez-pai-nosso-uma-borrifadela-de-água-benta. Sei que não ouves gritos quando me ponho a falar sem parar, quando esbracejo e viro a caneta na ponta dos dedos. Sei que não ouves e não sabes do meu desassossego, dos gestos exagerados para afastar corvos e gaivotas em terra, abutres em voo circular, rasantes, agoirentos. E sabes que há coisas que não te contei e sabes que não o fiz porque não as quiseste saber, senti-o. Ouvi-te dizer que não, a tapar as orelhas num gesto infantil, a abanar a cabeça com os olhos postos no chão. Não sei se sabes, mas esta hora de semi-luz dá-me sempre algum medo, é uma espécie de maré vazante, água que vai. Mas mesmo assim acho mesmo que me podes lavar.

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