4 de fevereiro de 2010

Do amor dos velhos.

De sorriso grande, voz profunda e mãos esguias recebia-nos em casa num abraço apertado contra o fato Chanel coçado e o avental comprado numa loja da Graça. Cozinhava com o prazer das avós e falava com o ímpeto e irreverência contida das mulheres fora de gerações. Num espaço qualquer entre a burguesia e o proletariado, desfiava histórias e ria. Do que mais me lembro é do riso aberto que acabava num sorriso mordaz. Olhava de frente para nós e não condescendia. Quando lia transfigurava-se, era menina, gaiata dos seus doze anos, deslumbrada com a magia de juntar letras para fazer palavras, de juntar palavras para fazer frases, de juntar ideias para fazer dizer. Levantava uma perna para se desviar de uma das pilhas de livros e, ainda não sei como, conseguia não derrubar um tabuleiro de copos vazios. Era também uma espécie de magia, de truque treinado pacientemente nos anos que iam pesando. Olhavam-se nos olhos e transbordava o amor. A nós, na nossa paixão pueril, quase nos envergonhava aquele amor de velhos e sorríamos condescendentes. Sei hoje que não sabíamos nada do amor, só aprendemos mais tarde. Dávamos aos mãos no sofá e ouvíamos embevecidos as histórias dos franciscanos, do teatro, dos calvinistas, da polícia política, dos exílios, da Brasileira, do cinema Paris. Apertava-o num abraço terno - venha cá neta da asinha - e a ela dava-lhe um abraço polido e um beijo leve numa face, como convém à decência geracional. Só anos mais tarde soube que isso pouco importa. Nunca lhe disse que só gostava dos livros dela lidos a viva-voz, sempre fui incapaz de os ler sem a voz rouca e ligeiramente afectada, sem as palavras matigadas uma a uma, perfeitamente ditas num português de cristal. Hoje imagino-os aos dois, sentados frente a frente nas poltronas de couro gasto, a pôr o amor e a escrita em dia, com os olhos molhados da água que parou de correr.

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