28 de fevereiro de 2010
O amor nos tempos de cólera.
Assalto violentamente o título de um clássico de García Márquez porque há coisas que não me arrogo a tentar dizer melhor. Acredito no amor. Acredito piamente no poder transformador do que sinto ser a energia vital do mundo, força motriz dos dias. Em tracção por peso ou empurrão por expansão - perdoem o fraquinho por geologia e por terramotos - o amor faz e desfaz, constrói e destrói, cura e dói. O amor, em todas as formas e feitios, é bagagem e despojo: trazemo-lo connosco nas histórias que fazemos, abrimos mão por ser a única forma de o ter-ser intrinsecamente. Em tempos de cólera o amor pode inflamar ou ser reduto de salvação, pode cortar ou coser. Em tempos de cólera, quando já pouco se sabe do caminho que se faz, o amor é uma espécie de luz ao fundo do túnel que nos dá a medida exacta do tempo que passou, dos passos que faltam para chegar ou partir. Porque o amor é ponto de partida e ponto de chegada de uma vida, é uma arma para morder os dias e uma manta para o sofá, instrumento de guerra e paz - agora assim de repente assaltei também o Tolstói. Sou feita de amor. Da memória de um amor vencido, da doçura de um amor paternal, da riqueza dos meus amores de caserna, da força de um amor instrínseco pela vida, da catarse do amor pelas letras, da verticalidade do amor pela ciência, da lealdade do amor fraternal, do buraco no peito do amor em potência, da alegria do amor pelo que vou construir, da gratidão pelo amor que o mundo investe em mim. Sei que sou feita de amor (e ocasionais restos do jantar de ontem à noite) e vejo, às vezes obscura outras claramente, a tomografia sísmica do que se faz por dentro: em tracção do amor que pesa e larga âncora e em expansão do lugar onde se guarda o amor. Debaixo da pele, no estômago em cólera.
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