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17 de março de 2010

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.