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14 de janeiro de 2010
hosomaki ou uramaki.
Hoje tenho um almoço onde vou ter de decidir se quero hosomaki ou uramaki. Mais do que uma opção de culinária nipónica vai ser uma decisão que pode mudar a minha vida - alga por fora, arroz por dentro ou arroz por fora, alga por dentro. O peixe, confesso, é-me indiferente. Desde que seja fresco e limpinho, cheio de proteínas.
2 de janeiro de 2010
Da geologia. Ou do ano novo.
O meu primeiro dia do ano é sempre um espécie de ausência. Congelo o tempo, não aceito convites, não faço planos, deixo só o dia escorrer por entre as arestas e escarpas. Vou sempre ver o mar - não que faça disso uma espécie de tradição, mas acaba por acontecer, por mais voltas que dê - volto sempre ao ponto de encontro e constato que não fiz mais do que partir. Acabo por concluir que não se volta, nunca se volta. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba ao que se vai, nem como, nem porquê. Não há nunca regressos, o caminho muda de ano para ano: a erosão, os caminhos dos outros, a vegetação que progride, os sentidos proibidos. Tudo acontece entre parêntesis, de Janeiro a Janeiro, para nos lembrar que não podemos voltar ao lugar onde estivémos no ano anterior. E sentada a olhar o mar, a maldizer a minha incapacidade de me agasalhar convenientemente, fico com uma espécie de sorriso parvo, olhar perdido-encontrado. Deito um olhar vago às camadas geológicas dos meus verbos - querer, perguntar, ir, estar, fazer, morder, ler, escolher, viajar, descobrir, amar, escrever, arrumar, encontrar, morrer. Penso sempre na influência anímica que as palavras - minhas e dos outros - exercem sobre mim. Penso nos gestos mortos e enterrados, nas escolhas fossilizadas, sem retorno ou possibilidade de encontro. Sorrio à sorte que tenho em descobrir, volta não volta, um geodo - sempre me aconteceu, tropeçar inadvertidamente em coisas muito muito boas. Olho para os movimentos tectónicos do ano, de como pequenas coisas se fizeram coisas gigantes ou de como grandes movimentos trouxeram pequenos detalhes. Penso nos terramotos - reais e interiores - e chego novamente à conclusão de que são sempre bons, dei-me sempre muito bem com abalos profundos, saltos mortais, terra a tremer. E tal como a geologia serve para determinar a idade da terra, a minha geologia dá-me a medida exacta do tempo que passou. Deixa-me ver as camadas de registos mais ou menos sólidos do caminho que já percorri. No próximo Janeiro há mais. Nesta entrada a pés juntos no ano novo guardo a profunda convicção de que se avizinham erupções plinianas, de que me farei Vesúvio e Krakatoa. Isso eu sei.
31 de dezembro de 2009
Do ano velho.
No que toca a anos, acredito em fins sem retorno. Acredito na impossibilidade objectiva e real de recuperar o que lá vai. Acredito na linearidade do tempo e na nossa incapacidade de voltar atrás para fazer diferente. Acredito que se pode jogar e ganhar, mesmo quando nos convencemos de que perdemos. E acredito também que podemos perder e estar convencidos de que ganhámos. Acredito que um ano é um caminho que se faz em frente, sempre em frente, mesmo que por estradas diferentes, a velocidades inconstantes, ora a pé, ora de bicicleta, ora de comboio, ora parado. Acredito que à medida que o tempo avança as lembranças se vão esbatendo e o que fica de um ano são traços gerais, como num desenho a carvão guardado num livro, perdem-se os detalhes, esbatem-se as arestas, evapora-se a definição. E como dizia há uns dias a minha adorada Rita, podemos esquecer-nos dos detalhes de uma história, do que foi dito ou feito, mas não nos esquecemos do que se sentiu. Porque o coração tem memória e é imune à oxidação que o tempo produz.
Acredito em balanços, sumários mais ou menos exactos do que foi um dia. Acredito em caminhos que se fazem por um motivo qualquer, mesmo que o motivo não seja óbvio quando se faz o caminho. Acredito no poder do tempo e no nosso poder de mudar o mundo, de o transformar. E isso foi o meu ano de dois mil e nove: A transformação. A ruptura. O destruir para construir. O soltar amarras. A libertação. A limpeza. O fazer ruir anos passados para aceitar de peito aberto os anos que vão chegar.
Foi um ano duro, difícil, solitário, sofrido. E foi um ano maravilhoso, transformador, cheio de esperança e de alegria.
Mudei de vida, mudei de endereço. Sobrevivi mais uma vez. Perdi dois amigos porque precisei de salvar a minha integridade emocional, a minha sanidade mental (às vezes a vida é feita de escolhas espinhosas). Ganhei três amigos que mudaram a minha vida e sei, porque sim, que vão ficar. Deitei ferro e âncora aos meus quatro amigos de sempre. Larguei a convicção antiga de que conheci e perdi o amor da minha vida. Acredito hoje que tive a sorte de o encontrar, mesmo que nos tenhamos desencontrado. Chorei muito. Ri muito mais. Larguei um percurso profissional notável e de ascensão meteórica. Ganhei amplitude e humildade para aprender mais. Desfiz-me de doze anos de coisas acumuladas. Fiz espaço para mais doze. Destruí. Desfiz. Demoli. Aniquilei. E (re)comecei a criar.
Dois mil e nove foi o ano antes da viragem, que antecede o que vai ser. É fim de ciclo. Deixo para trás uma boa parte da minha história. E se tiver saudades, sei que vão ser saudades boas. Por isso deixo-as guardadas num sítio específico, dou-lhes número de porta e nome de rua. Para um dia, se quiser, saber lá chegar.
Acredito em balanços, sumários mais ou menos exactos do que foi um dia. Acredito em caminhos que se fazem por um motivo qualquer, mesmo que o motivo não seja óbvio quando se faz o caminho. Acredito no poder do tempo e no nosso poder de mudar o mundo, de o transformar. E isso foi o meu ano de dois mil e nove: A transformação. A ruptura. O destruir para construir. O soltar amarras. A libertação. A limpeza. O fazer ruir anos passados para aceitar de peito aberto os anos que vão chegar.
Foi um ano duro, difícil, solitário, sofrido. E foi um ano maravilhoso, transformador, cheio de esperança e de alegria.
Mudei de vida, mudei de endereço. Sobrevivi mais uma vez. Perdi dois amigos porque precisei de salvar a minha integridade emocional, a minha sanidade mental (às vezes a vida é feita de escolhas espinhosas). Ganhei três amigos que mudaram a minha vida e sei, porque sim, que vão ficar. Deitei ferro e âncora aos meus quatro amigos de sempre. Larguei a convicção antiga de que conheci e perdi o amor da minha vida. Acredito hoje que tive a sorte de o encontrar, mesmo que nos tenhamos desencontrado. Chorei muito. Ri muito mais. Larguei um percurso profissional notável e de ascensão meteórica. Ganhei amplitude e humildade para aprender mais. Desfiz-me de doze anos de coisas acumuladas. Fiz espaço para mais doze. Destruí. Desfiz. Demoli. Aniquilei. E (re)comecei a criar.
Dois mil e nove foi o ano antes da viragem, que antecede o que vai ser. É fim de ciclo. Deixo para trás uma boa parte da minha história. E se tiver saudades, sei que vão ser saudades boas. Por isso deixo-as guardadas num sítio específico, dou-lhes número de porta e nome de rua. Para um dia, se quiser, saber lá chegar.
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