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14 de julho de 2010

O país dentro de mim.

Dentro de mim há um país. Povoado de gente estranha, singular, excessiva, um circo de cores e vozes, de gente feliz que dança e corre de pés descalços. Dentro de mim há um país sem regras nem leis que não as do sorriso, da paz, da alegria, do fazer crescer, do correr atrás dos sonhos, do imaginar, do voar tão alto quanto quisermos. Dentro de mim há um país de vegetação imensa, fulgurante, viva, colorida, de sequóias gigantes e nenúfares mínusculos. Dentro de mim há um país de mil línguas e dialectos, linguagem gestual e coisas que não precisam ser ditas porque essas são mesmo aquelas que é preciso saber. Dentro de mim há um país sem fronteiras, sem muros, sem rei, sem arame farpado. Dentro de mim há um país sem guerras, só batalhas, convulsões que se fazem para proteger a geografia interior das invasões que o podem destruir. Dentro de mim há um país de histórias de gente que tropeça e vem cá parar, um país de memórias boas que as más são para guardar no seu lugar: nas histórias e fábulas que se contam às crianças para que aprendam a distinguir o certo do errado. Dentro de mim há um país de portas abertas, outras portas fechadas no trinco sem dar a volta à chave, de janelas abertas sobre o mar, de tapetes e soalhos de madeira velha polida pelo tempo. Dentro de mim há um país de sonhos, de coisas que se vê acontecer num futuro próspero e de paz. Dentro de mim há um país feliz, bom, enorme, com tudo por descobrir. Dentro de mim há um país. E só quero voltar a encontrar o caminho que vai lá dar.

29 de dezembro de 2009

Da geografia.

Tenho as minhas incoerências - e ai de quem mas vier querer tirar. Tenho os meus momentos de discrepância entre o que sinto e o que faço, entre o que sei e o que não quero saber, entre o que faço e o que acredito. Tenho os meus momentos de dissonância cognitiva, de tensão entre o que me é verdade e as coisas que me levo a fazer. É quase como nos desejos animados, o anjinho e o diabinho, o grilo falante, que de vez em quando sacudo e deixo andar a coisa como se não houvesse mal nenhum. Porque a tensão, o desconforto de ser incoerente é quase como um diapasão com que se afinam os dias - e há dias em que afino comigo mesma. O conflito, esse grande filho da puta, balança entre um sorriso honesto e um sorriso pernicioso, é ao mesmo tempo lobo-mau e capuchinho vermelho. É como se algures entre as coisas que acredito e as coisas que faço houvesse um fio que se rompe temporariamente e aniquila a auto-censura necessária à sobrevivência. E quando dou por mim, escorrem-me entre os dedos duplas leituras e desafios, saem-me coisas que não deviam sair - comporta-te, diz o grilo. E, sacudido o grilo, lá sai mais uma mensagem, mais uma linha numa conversa escrita, mais um e-mail escrito à pressa para o grilo não ter tempo de saltar do ombro, heróico, e fazer delete, maçã-z. Todos temos as nossas incoerências. Mas as minhas contradições moem-me e sentam-me ali no meio, entre o preto e o branco, entre o impossível e o vagamente possível, entre o sim e o não, entre o norte e o sul, entre o sossego e o desassossego, entre a distância geográfica e a vizinhança de um pescoço. A minha contradição está geograficamente entre 2.200km e 3cm, a meio caminho entre o estômago e o esófago.