29 de dezembro de 2009

Da geografia.

Tenho as minhas incoerências - e ai de quem mas vier querer tirar. Tenho os meus momentos de discrepância entre o que sinto e o que faço, entre o que sei e o que não quero saber, entre o que faço e o que acredito. Tenho os meus momentos de dissonância cognitiva, de tensão entre o que me é verdade e as coisas que me levo a fazer. É quase como nos desejos animados, o anjinho e o diabinho, o grilo falante, que de vez em quando sacudo e deixo andar a coisa como se não houvesse mal nenhum. Porque a tensão, o desconforto de ser incoerente é quase como um diapasão com que se afinam os dias - e há dias em que afino comigo mesma. O conflito, esse grande filho da puta, balança entre um sorriso honesto e um sorriso pernicioso, é ao mesmo tempo lobo-mau e capuchinho vermelho. É como se algures entre as coisas que acredito e as coisas que faço houvesse um fio que se rompe temporariamente e aniquila a auto-censura necessária à sobrevivência. E quando dou por mim, escorrem-me entre os dedos duplas leituras e desafios, saem-me coisas que não deviam sair - comporta-te, diz o grilo. E, sacudido o grilo, lá sai mais uma mensagem, mais uma linha numa conversa escrita, mais um e-mail escrito à pressa para o grilo não ter tempo de saltar do ombro, heróico, e fazer delete, maçã-z. Todos temos as nossas incoerências. Mas as minhas contradições moem-me e sentam-me ali no meio, entre o preto e o branco, entre o impossível e o vagamente possível, entre o sim e o não, entre o norte e o sul, entre o sossego e o desassossego, entre a distância geográfica e a vizinhança de um pescoço. A minha contradição está geograficamente entre 2.200km e 3cm, a meio caminho entre o estômago e o esófago.

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