27 de dezembro de 2009
Morder-te o coração.
Pedi emprestado à Patrícia Reis o título de um dos livros. Já os li todos e aguardo ansiosamente que ela me ponha nos escaparates mais um ou dois. Desde que o meu Alçada Baptista foi desta para melhor falta-me quem me fale dos afectos como eu os sei. Ninguém como o António ou a Patrícia, com as devidas diferenças geracionais, me soube falar de afectos como os entendo, como os vejo. Ninguém me soube falar da fúria como eles. Ninguém mais me soube contar histórias de guerra. Ninguém mais me soube falar de conquistas e demandas, de braços armados até aos dentes. Muitos leio que me falam de paz, de harmonia, de encontro, de sossego, de equilíbrio mas não encontro aí definições de afectos. Não encontro aí o que é visceral. A violência crua dos socos no estômago. A irascibilidade que explode no peito. A tirania do tempo que nunca é suficiente. A opressão da vida que acontece entre parêntesis até chegar a hora de te ver. O desassossego inato nas cartas que não saem da gaveta, dos telefones que não tocam, das noites sem dormir. Não encontro no sossego uma definição de amor. Não vejo na pacatez um espaço de encontro. Defeito meu, eu sei. Porque já se sabe que a paixão dá lugar ao amor, que a guerra dá lugar à paz, que a força dá lugar à lassidão. Defeito meu, não vejo isso. Não sei o caminho para lá chegar porque o amor para mim é tão simples como o título da Patrícia: gostar de ti é morder-te o coração.
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