21 de março de 2010

Foi oficialmente inaugurado o festival da pituitária desenfreada.

É primavera.

Do optimismo.

Ser optimista é uma escolha. Não é, de todo, uma predestinação ou legado. É uma opção clara de se viver a vida de determinada forma, de se acreditar em coisas boas mesmo nos maus momentos. É uma forma de ver o mundo, de olhar os percalços de frente e ter a convicção de que vai dar certo. Ser optimista não é não hesitar, não é seguir sempre em frente e ignorar os sinais. E muito menos é colocar palas no olhos e viver a vida como um pateta-alegre - dói-me que este seja o rótulo mais frequente. Ser optimista é procurar e guardar o que de maravilhoso nos acontece nos dias para ser mais fácil gerir o que de mau aparece. É ser grato pelas pequenas coisas boas de todos os dias, é resistir à tendência do cinzento. É fácil estar zangado com o mundo, triste, sorumbático - é aliás essa a nossa herança no fado e na saudade. É fácil estar-se "com os azeites" e dar patadas a tudo o que mexe à nossa volta. Esse é, acredito, o caminho mais fácil. Não nos obriga a ser melhores. Tenho por isso um fraquinho por optimistas porque essa é a verdadeira tarefa: ser-se positivo e feliz quando à volta, nas grandes sendas do mundo, pouco há a celebrar. E só por isso faz-me feliz a sorte de tropeçar à porta de casa numa parede pintada com uma mensagem boa. Simplesmente boa. E isso só por si ser capaz de mudar o rumo de um dia, de restaurar um sorriso nublado numa manhã de sábado - com abraços de amigos que regressam, rebuçados acabados de fazer, flores a sorrir à primavera que começa hoje, bilhetes com bonecos, pequenos almoços com gente de bem, ruas iluminadas pelo sol, risos descontrolados e copos de vinho ao anoitecer. O optimista alimenta-se disto. Dos presentes do deus das pequenas coisas, dos pequenos amores, das pequenas surpresas.

17 de março de 2010

Barriga no fogão.

Acho que me vou candidatar ao Guiness como a criatura que mais jantares serve em casa para os amigos. Faz-me profundamente feliz ter sempre a casa cheia de gente que adoro. Mas o prazer também cansa. Para a semana faço greve à barriga no fogão, quem quiser aparecer que leve pão que eu tenho manteiga.

A velhinha do roupão.

Chego cedo. Chego sempre cedo, de um modo geral. A porta da empresa ainda não está aberta e distraio-me com cafés e jornais, com mensagens e notas soltas. Saio para a rua e acendo um cigarro. Invariavelmente - e é este o pequeno prazer da rotina - há uma velhinha que faz a rua toda de roupão turco e chinelos de quarto, a andar devagar com os anos às costas. O tempo que a velhinha de roupão demora a percorrer a rua é o tempo que o meu cigarro demora a arder. Quando passa por mim dizemos "bom dia" uma à outra. Apago o cigarro com o peito cheio de uma história que se repete todos os dias nos olhos enodoados pelas cataratas e nos olhos lavados pela manhã. E é estúpido, mas sei que um dia que este ritual falhe e a velhinha não passe vou ficar preocupada com ela - a precariedade do passo inseguro deixa-me de coração na mão.

14 de março de 2010

Amor é...

J.: querida, dá-me um beijo que a tia vai trabalhar, vai escrever.
Sobrinha maravilhosa: na escola?
J.: Não, hoje é num barco, amanhã na lua e depois  na escola.
Sobrinha maravilhosa: É histórias?
J.: Sim, histórias.
Sobrinha maravilhosa: Então é na escola.

13 de março de 2010

Da versatilidade.

Trolha pela fresca, princesa ao crepúsculo.

12 de março de 2010

Mant(r)as

Repito para mim: mantém os pés quentes com uma manta, sê uma pessoa boa, resiste ao impulso  de combater fogo com fogo, mantém o peito aberto, continua a acreditar nas pessoas, dá a outra face, calça os sapatos dos outros,  dá sem esperar em troca, respira, cala-te se não tens nada de bom para dizer.

Ou mais simplesmente: amarra a um sobreiro a cabra que há em ti.

11 de março de 2010

Do prazer.

Cansa-me a análise do prazer. A intelectualização do instinto, do estômago. Isto, vindo de uma criatura hiper-analítica, é obra. Mas a verdade é que me cansa a dissecação intelectual das coisas boas, viscerais, guturais. Cansa-me que se fale de arte como se o propósito único da criação fosse uma mensagem altamente densa e insondável. Cansa-me que se escrevam poemas mais ou menos bucólico-pastoris nas notas de prova dos vinhos. Cansa-me que se dissequem os amores, as paixões, as tesões até se chegar a uma qualquer classificação que, no fim do dia, de pouco serve. Cansa-me que se desconstrua um filme até à exaustão. Cansa-me que se descreva comida como um épico homérico. Cansa-me a dúvida existencial das coisas que se sentem na pele. Cansa-me a coisa-toda-muito-redondinha-cheia-de-razão-de-ser-tudo-muito-no-seu-lugar. Porque a verdade é que, por mais analítica que seja, nada substitui o arrepio, o cabelo desgrenhado, a arritmia, o sorriso involuntário, a estrada sem mapa, o desalinho. Cansa-me que se racionalize o prazer. Das coisas boas. Das coisas simples. Das coisas que são assim só porque sim, que continuo a achar que é o melhor motivo do mundo para se fazer o que quer que seja. Especialmente o que nos dá prazer. E o meu amor pela falha, pela imperfeição, pela ruga e pelo carácter é o que me faz verdadeiramente feliz. O rigor e a estrutura dão-me planta, referente. Mas quem raio é que quer andar sempre rente ao chão?

Só me apetece dizer palavrões.

(sim, estou enxertada em corno de cabra)

8 de março de 2010

Acabei de realizar...

...que da minha cama vejo o céu.

(antes que o meu querido amigo Felino comente: é literal.)

Da comunicação.

Tudo comunica, tudo fala, tudo diz. Desde o início dos tempos, ainda meios trôpegos e curvados, comunicamos. É impossível não comunicar. Tudo em nós fala, mesmo quando não queremos dizer. Contam-se histórias. Umas mais simples, outras mais complexas. Histórias em rede, que se ligam umas às outras. Histórias em bonecos, gravadas à força em paredes. Histórias em vidas que se cruzam e descruzam, de onde todos nós nascemos. Histórias ditas, histórias caladas. Narradas. Criadas. Descritas. Inventadas. Ampliadas. Tudo tem histórias. E para mim, a comunicação não é mais do que o acto de contar uma história, de narrar um propósito, mundos, referências, nuances, detalhes, personagens. E esta convicção, clara como água, cresce em mim a cada dia que passa nesta profissão. O conteúdo sobrepõem-se e sobrepor-se-á sempre à estética. E confesso que acho que isto não é assim tão difícil de entender. É uma história simples.

Dúvida existencial.

Porque será que, salvo honrosas excepções, só me calham clientes completamente alucinados?

7 de março de 2010

Espumante e aguardente velha.

Falou-se ontem de uma metáfora que afinal mais não era que uma constatação literal. Mas eu sou uma criatura de metáforas e hipérboles, por isso fiquei a conversar com esta ideia: o amor* é espumante e aguardente velha.

* sim, voltei a falar de amor, é mais forte que eu...

Da transcendência.

Não acredito na figura paternalista de deus. Não acredito na lei de punição e castigo, em crescer no medo, no arrependimento do pecado, no moralismo. Não sou fã da cegueira religiosa, não sou fã de cegueiras em geral. Tenho uma relação com a transcedência que não emana das figuras montadas e pintadas. A minha relação com a transcendência está, sobretudo, nas pessoas e nos detalhes. Apaixonam-me as pessoas que me dizem coisas, que me fazem sentido. Apaixona-me o riso, o humor, a curiosidade, as frapas, a pequena insanidade, a generosidade, a empatia, a doçura, a convicção, o enleio, o abraço, o desassossego, o peito aberto, a coragem. Apaixonam-me os detalhes pequeninos dos dias: o primeiro dia de sol depois da tempestade, um copo de vinho, a chuva na janela, um riso, uma rua calcetada, as rugas de um velho, uma porta aberta, um jardim na cidade, uma lareira acesa, a cama feita de lavado, um lanche de amigos, o sal na pele depois dos mergulhos, o cheiro de café a torrar, o vento quente depois do sol se pôr.
A minha relação com a transcendência é assim, pão com manteiga dos dias.

Diz que é uma espécie de existencialismo.

Ontem o meu querido amigo às vezes à noite narrava a história de uma mulher que escreveu num blog coisas sobre o amor. Estilo à parte, o conteúdo foi comentado por alguém que despejou um chorrilho de asneiradas que qualificavam a criatura que escrevia sobre o amor como uma encalhada a quem falta... amor (séquementendem). A autora não era eu - esclareço a bem da minha dignidade editorial - mas a carapuça serviu-me em parte: estará este blog a transformar-se numa versão rasca do Sex&The City meets Maria, esse ícone editorial português? Porque, de facto, fazendo um scroll down nas coisas que tenho escrito e fazendo um resumo das minhas conversas mais íntimas das últimas semanas acho que ando a falar demasiado sobre o assunto. Sem prejuízo de continuar a achar que o amor é lindo, prometo tentar diversificar os temas. Apesar de, como todos sabemos, promessas leva-as o vento.

extraordinary minds.





http://www.abeautifulrevolution.com/blog/2009/09/painting-no-8-extraordinary-mind.html

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me saber cantar e fazer um canção sobre o desassossego.

28 de fevereiro de 2010

Baba de cão.

A saudade é como a baba de cão. Come-se com pão.

O amor nos tempos de cólera.

Assalto violentamente o título de um clássico de García Márquez porque há coisas que não me arrogo a tentar dizer melhor. Acredito no amor. Acredito piamente no poder transformador do que sinto ser a energia vital do mundo, força motriz dos dias. Em tracção por peso ou empurrão por expansão - perdoem o fraquinho por geologia e por terramotos - o amor faz e desfaz, constrói e destrói, cura e dói. O amor, em todas as formas e feitios, é bagagem e despojo: trazemo-lo connosco nas histórias que fazemos, abrimos mão por ser a única forma de o ter-ser intrinsecamente. Em tempos de cólera o amor pode inflamar ou ser reduto de salvação, pode cortar ou coser. Em tempos de cólera, quando já pouco se sabe do caminho que se faz, o amor é uma espécie de luz ao fundo do túnel que nos dá a medida exacta do tempo que passou, dos passos que faltam para chegar ou partir. Porque o amor é ponto de partida e ponto de chegada de uma vida, é uma arma para morder os dias e uma manta para o sofá, instrumento de guerra e paz - agora assim de repente assaltei também o Tolstói. Sou feita de amor. Da memória de um amor vencido, da doçura de um amor paternal, da riqueza dos meus amores de caserna, da força de um amor instrínseco pela vida, da catarse do amor pelas letras, da verticalidade do amor pela ciência, da lealdade do amor fraternal, do buraco no peito do amor em potência, da alegria do amor pelo que vou construir, da gratidão pelo amor que o mundo investe em mim. Sei que sou feita de amor (e ocasionais restos do jantar de ontem à noite) e vejo, às vezes obscura outras claramente, a tomografia sísmica do que se faz por dentro: em tracção do amor que pesa e larga âncora e em expansão do lugar onde se guarda o amor. Debaixo da pele, no estômago em cólera.

27 de fevereiro de 2010

Tãobalalão.

Numa semana, há-mais-coisa-menos-coisa-um-ano, a minha vida desabou. Destruí um projecto de vida - a carreira, sempre a carreira. Morreu-me um amigo e levou com ele uma dentada de coração. As paredes da minha casa começaram a apertar, faltou-me o ar. Fui-me embora, fugi a sete pés, fechei portas, virei costas, mergulhei. O meu mundo desabou e, sem saber como nem porquê, passava metade das noites a chorar e a outra metade a rir compulsivamente. Empurrei os meus amigos porta fora, deus-nos-livre-a-todos que me vissem assim, que a minha insanidade se lhes pegasse ao corpo, que a minha demência lhes pesasse na alma. A S' ofereceu-me um sorriso e um livro para crianças que perguntava "o que é a felicidade?". A Rita deu-me a mão no Jardim da Estrela e deixou-me chorar até ao fim do mundo - até hoje não sei quanto tempo ficámos ali. O Miguel distraía-me com histórias dos seus engates e fazia-me rir. O meu grande amigo-amor A. dava-me abracinhos via skype. O Duques sentava-se horas ao meu lado sem conseguir dizer uma palavra e suspirava. Na altura não consegui sentir nada. Sabia-me grata por ter gente linda à minha volta, sabia-me entregue por não estar sozinha. Mas a solidão somos nós que a fazemos e podemos estar no meio de uma multidão e não ser outra coisa que não sozinhos. Não senti nada. Por muito tempo, fui incapaz de sentir o que quer que fosse e por mais que me empurrasse para fora da bolha, sentia-me um penedo, uma fraga. E soltava a lenga-lenga baixinho na minha cabeça: tãobalalão-cabeça-de-cão-orelha-de-gato-não-tem-coração.

Um ano vertido por todos nós abaixo, hoje sou feliz. E ganho, a pouco e pouco, a maravilhosa capacidade de sentir com mais intensidade do que julguei ser capaz. Trago um amor profundo pelos meus amigos, um amor profundo pelas palavras, um amor profundo pelos dias, um amor profundo pelo que faço todos os dias, um amor profundo por poder ir comprar flores a pé numa manhã fria de sábado. Trago um amor. Trago o amor. Sou feliz com a abundância de quem se privou, de quem foi privado. Como quem destrói para construir. Como quem abre mão para segurar. Como quem chega à tona da água quando estava quase-quase a sufocar. Como quem escapa à morte. Como quem vê ruir para ver erguer. Como quem se odeia para se amar. Como quem é grato pela oportunidade maravilhosa de ver os outros sorrir. Sou feliz como só quem foi tãobalalão consegue ser. Feliz como os sobreviventes.

26 de fevereiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me ter 12 anos e dançar um slow piroso numa garagem meia escura.

He's not that into you.

Há um livro escrito por um senhor e uma senhora (Greg Behrendt e Liz Tuccillo): deu um filme; um programa inteirinho da Oprah; uma aparição bastante intensa nesse clássico da vida feminina, a série Sex & The City; uma aparição na série menos badalada Gilmore Girls e uma menção num filme obscuro chamado Zombieland. E não é para menos. Quando o li foi uma imediata lufada de ar fresco sobre a visão romantizada e hollywoodesca que temos das relações e do "antes", da fase de conquista. Profundamente americanizado - na nossa realidade há conceitos que perdem conteúdo - mas brutalmente esclarecedor e imensamente honesto. Amei. Adoro a crueza com que se olha e se escreve sobre uma verdade tão elementar e animal como o "se ele acha graça vai à caça" (a rima foi acidental mas até me correu bem). Ora, eu sou uma criatura relativamente pragmática e algo despudorada, o que faz com que, quando acho graça a alguém, faça questão de o mostrar, nota-se à légua porque a discrição não é o meu forte. A parte tramada é que, numa mulher, isso é perfeitamente contra-producente e na maior parte dos casos é altamente intimidador - o que, confesso, me dá nos nervos - mas acaba por ser uma estratégia válida para separar o trigo do joio. Ou pelo menos, apesar do conselho inverso de um dos meus mais queridos amigos, serve para alimentar o ego de meia dúzia de alminhas que por aí andam, chamemos-lhe um serviço de utilidade pública. Ora, sendo o livro tão esclarecedor, sendo eu uma criatura pragmática com uma crença profunda no amor, sendo esta ideia tão libertadora e, sobretudo, acreditando na transparência e repudiando jogos, não podia deixar de celebrar e partilhar a minha epifania matinal de hoje, citando Humphrey Bogart no Casablanca: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship".

22 de fevereiro de 2010

O amor das coisas que sabem.

Há projectos que me falam ao coração. E de cada vez que isso acontece ilumino-me por dentro com a genuína felicidade de redescobrir o motivo pelo qual faço o que faço. E hoje estou assim, depois de uma reunião à mesa de um café, com canja de galinha e conversas boas. Porque é um enorme prazer juntar num mesmo momento duas coisas que adoro: o que faço e o que se cozinha. E sou infinitamente grata por poder a continuar a cozinhar histórias com prazer.

A melhor idade.

É certo e sabido, poderão testemunhar os meus amigos, que tenho talento para a terceira idade. Não sei se é por ser antiga ou demodé, mas a verdade é que faço sucesso na faixa etária 65+. Terá provavelmente a ver com a minha paixão por histórias, pelo quanto adoro uma boa novela de época. Pode também estar relacionado com o facto de eu gostar de coisas de velhos: cartas escritas à mão, casacos de malha, iscas, genealogia, alfarrabistas. Gosto de ir à praça pela fresca, de ouvir os galos na madrugada (sim, eu sou uma pessoa do campo), de gente à janela, dos velhos sentados à sombreira da porta. Quem me tira uma conversa interminável sobre os filhos que emigraram nos anos 40 tira-me tudo. Quem me tira uma fotografia com as extremidades corroídas ofende-me. Talvez por isso goste tanto de velhinhos. Gosto da experiência que emana de coisas simples, gosto do tempo que passa devagar numa sala com escalfeta, gosto do cheiro dos baús das memórias, gosto da simplicidade com que se olha a vida depois dos 65 - só aí se começa a aprender o que é de facto fundamental. Gosto de coisas velhas, vividas, sobrevividas. E gosto das minhas pessoas assim: com história, com rugas, com marcas dos dias. Gosto das minhas pessoas antigas. Com idade para saber que, como dizia Saint-Exupéry, o essencial é invisível para os olhos. Talvez por isso os velhos e eu vejamos mal.

20 de fevereiro de 2010

Lusco-fusco.

Escorre a chuva na janela e sinto que me podes salvar dos fantasmas, destas alminhas que correm aos guinchos, em bando, a sapatear no chão de madeira oca, assim que o sol nasce molhado. Sei que conheces por dentro e por fora esta coisa de trazer excesso de bagagem em todas as viagens que se faz, por menos t-shirts que se ponham na mochila. Sei que sabes o que é trazer o coração amarrotado e que há vincos que não vão lá com ferro. Precisam de água, de ser lavados, molhados, lambidos. Sei que me podes fazer uma espécie de exorcismo e lavar-me o coração com sabão azul-e-branco. Sei que me podes redimir, ouvir-me em confissão, vinte-avé-maria-dez-pai-nosso-uma-borrifadela-de-água-benta. Sei que não ouves gritos quando me ponho a falar sem parar, quando esbracejo e viro a caneta na ponta dos dedos. Sei que não ouves e não sabes do meu desassossego, dos gestos exagerados para afastar corvos e gaivotas em terra, abutres em voo circular, rasantes, agoirentos. E sabes que há coisas que não te contei e sabes que não o fiz porque não as quiseste saber, senti-o. Ouvi-te dizer que não, a tapar as orelhas num gesto infantil, a abanar a cabeça com os olhos postos no chão. Não sei se sabes, mas esta hora de semi-luz dá-me sempre algum medo, é uma espécie de maré vazante, água que vai. Mas mesmo assim acho mesmo que me podes lavar.

18 de fevereiro de 2010

Do enviesamento.

M.: que bom que já é quinta, este fim de semana não saio da cama senão para ir à casa-de-banho, beber água e comer qualquer coisa.
J.: então? Estás assim tão de rastos com o trabalho?
M.: estás parva? Tenho é um namorado novo e só o vejo aos fins-de-semana.

(J. a sentir-se estúpida pelo crónico enviesamento dos motivos que nos levam a não querer sair da cama...)

Dos detalhes.

Está no paladar, no cheiro, na temperatura. Está na forma de pousar as coisas no prato com um ar entre o cuidado e o acidental. Está num fim-de-boca de anis no leite creme. Está na ponta dos indicadores que ajeitam  uma peça montada num puzzle bem feito. Está numa textura que se derrete na boca. Está no equilíbrio doce-sal. Está na informalidade numa cozinha que não é vedada a quem passa. Está num vinho que se combina com este ou aquele sabor. Está no riso descomprometido de quem faz por amor. Está no provar o sal e rasgar as folhas com a ponta dos dedos. Não preciso de experiências religiosas para saber que deus está seguramente nos detalhes. Está na mesa.

17 de fevereiro de 2010

tripla-ameaça

O que eu me derreto com homens que cozinham bem. O jantar de hoje é um perigo *suspiro*

15 de fevereiro de 2010

♥♣♠♦

Gatocão.

Tenho aprendido algumas coisas sobre homens (não que isso me sirva de algum coisa porque eu teimo em achar graça aos atípicos). Mas entre as explicações do meu amigo Felino e as explicações do meu amigo Às Vezes à Noite, confesso que me perco - estão em extremos opostos. Feitas algumas reflexões cheguei à conclusão que quero um homem gatocão. Independente, arisco, confiante e caçador como um gato - até eu, o cúmulo da independência, aprecio um "anda-cá-que-és-minha". Leal, incondicional e doce como um cão - como diz a Madalena, sou extremamente fofinha (disfarço é bem). Pode ronronar e pôr as unhas de fora. Pode ficar contente a abanar a cauda quando me vê. Pode largar pêlo que eu não me chateio. Pode babar-se de vez em quando que eu tenho dias em que até preciso de um choque de auto-estima. Pode passear-se entre copos de vidro fino sem derrubar nada e pode também partir a loiça toda de entusiasmo. Era bom também que tivesse polegares oponíveis porque agora dava-me imenso jeito que dominasse o uso do black&decker (e já agora que tivesse um porque perdi o meu no divórcio, junto com as cadeiras de praia) e que tivesse um talento nato para montar estantes para livros. E que gostasse de sol e praia que eu não sou de invernos. E que se deliciasse com um domingo no sofá a ver filmes de mantinha - que eu agora tenho um sofá todo catita. E que fosse bonzinho porque eu não tenho grande apreço por sacanetes. E que não se incomodasse por eu cantar no banho (canto mal, mas tenho muita presença em palco). E que gostasse de ficar à conversa até às quinhentas só porque sim. E que gostasse de bonecos porque eu vou finalmente desencaixotar os meus. E que não achasse que eu sou uma perfeita anormal porque gosto de ir à praça como as velhinhas. Acho que estou pronta para pôr um anúncio nos classificados do Correio da Manhã.

Diz-me a verdade.

Acerca do amor. 
É que eu, qual Platão a citar Socrátes, só sei que nada sei.

12 de fevereiro de 2010

Hóra di bâi.

Já com um pezinho em casa, sento-me a ver o último pôr-do-sol na ilha. Acendo mais um cigarro e um sorriso e penso que está mesmo na hora de voltar. É boa esta sensação de tempo certo. Amanhã voo, domingo levanto voo. Esperam-me revoluções, isso eu sei. Algumas planeadas outras sei-as de instinto. E esta viagem foi - mesmo que não o soubesse quando a marquei - no momento exacto em que tinha de acontecer. Como todas as coisas que me aconteceram recentemente. Portas que se abriram, descobertas que foram feitas, acasos cheios de sentido, ideias cheias de acção. E é maior do que posso descrever a sorte que tenho e a gratidão que trago por, como se fosse magia, as pontas da minha vida se estarem a juntar. Mesmo que só na minha cabeça, isso já é muito. Destruí, afundei, fiz ruir. Escavei, agitei, mordi, lutei. Procurei, não encontrei. Achei. E vim aqui para arrumar essas coisas todas e entrar numa porta aberta, uma sala com lume aceso para me receber. Foram umas férias magníficas, independentemente de ter estado doente o tempo todo. Isso pouco importou. Foram tantas as coisas que descobri. Foram tantas as pazes que fiz. Foram tantos os grãos de pó que limpei. Foram tantas as lições que aprendi. Não numa semana, claro. Numa vida. A semana foi o corolário de uma fórmula qualquer que se desenhou na minha cabeça, um brinquedo de encaixes. A semana foi a bonança depois da tempestade, em que se apanham os lixos e se arruma tudo no seu devido lugar. E de tão inesperado e importante que este processo foi fica-me a sensação boa de missão cumprida. De coisa feita, alinhada. Cama feita de lavado para deitar as pequenas revoluções que estão aí a chegar. É bom. Estupidamente bom.

Da minha cama vejo o mar *suspiro*

telegrama

Madalena dorme e contempla o mar stop Joana funga e assoa-se stop

10 de fevereiro de 2010

Acho que vem aí pifo.

Estou sentada no bar do hotel a tratar de mails e outras maçadas de trabalho e o simpático senhor do bar acabou de me vir oferecer um cocktail alaranjado em copo de pé alto. Aceitei para não fazer a desfeita ao senhor, dei um gole e está cheio de grogue - para quem não sabe o que é faça "grogue cabo verde" no google e descobre rapidamente a que me estou a referir... Cheira-me que hoje isto vai dar em pifo valente.

Dez coisas avulso, sem rei nem roque.

1. Ontem fumei um cigarro sentada ao lado de uma cigarra. Ri-me sozinha do pleonasmo.

2. O meu corpo reconhece instintivamente que está em casa e de repente todo o cabelo se me encaracola e a anca rebola involuntariamente quando ando.

3. A Madalena tem medo de bichos. E isto inclui gatos e cães, não só os gafanhotos gigantes.

4. Os apagões no meu casinhoto tornam-se cada vez mais frequentes, tanto que o senhor da recepção, quando me vê chegar, já diz “23.1 sem luz outra vez?”

5. Há um adónis mulato, responsável pela manutenção da piscina, que se passeia qual pavão em frente a nós e faz piscinas em pose atlética, fazendo questão de se virar para que vejamos as suas costas e ombros. Neste ponto é importante referir que a Madalena e eu somos as únicas no hotel com menos de 60 anos, o que nos garante vantagem concorrencial.

6. O mar continua impenetrável. De vingança, tenho nadado tanto na piscina que já quase parece que passei o inverno todo a ir ao ginásio.

7. Depois de três dias ao sol consegui não apanhar nenhum escaldão e já estou a mudar de pantone de pele e olhos - o verão cai-me definitivamente melhor que o inverno.

8. Ontem jantamos bem pela primeira vez porque a Madalena teve a iluminação de sugerir que pedíssemos duas entradas em vez de entrada e prato principal. Genial.

9. Já li três dos seis livros que trouxe. A Madalena e eu já andamos a fabricar contrabandos de literatura.

10. Ainda não fomos à capital, a Vila de Sal-Rei. É aqui ao lado e tem 2.500 habitantes. Estamos a guardar o único programa possível na ilha para fazer num dia que esteja mau tempo e estejamos aborrecidas.

9 de fevereiro de 2010

Peregrinação interior.

Há muitas coisas boas no momento em que se está de férias: a ruptura com a norma, o abandono do quotidiano, a liberdade nas horas e nos lugares, as pessoas que nos acompanham e as que se cruzam connosco, as coisas que se fazem diferente, as coisas que se fazem igual e sabem diferente, a saudade dos amigos que se traduz numa vontade de partilhar os bocadinhos todos de prazer, o peito cheio do bem que sabe de se pôr a leitura em dia, a vontade de escrever que nasce e renasce todos os dias, os olhos que brilham com as coisas mais simples como o dia que nasce lá fora. Mas de todas as coisas boas de estar de férias, acho que o que mais adoro é o tempo. O tempo que não mora aqui, os relógios que desaparecem e a pergunta que não sai “que horas são?”. O tempo que estica e encolhe à medida das coisas que queremos fazer, o tempo que escorre lento entre os dedos. O tempo para arrumar, para perceber, para sentir, para entender coisas que no bulício dos dias nos passam ao lado, disfarçadas de pequenos entusiasmos. O tempo para descobrir. Para nos descobrir da bruma dos dias, da nuvem que se forma com as urgências, do nevoeiro que se faz em frente aos nossos olhos numa luta diária pela sobrevivência moral e emocional. O tempo das férias é um tempo solto, de peito aberto, sem restrições, em que podemos fantasiar e inventar tudo, reinventar a roda e descobrir nessas viagens coisas importantes sobre nós. O Alçada Baptista chamar-lhe-ia peregrinação interior. É aí que estou, peregrina despida de mim, do meu modo de viver e sobreviver aos dias, peregrina de coração puro e peito aberto, olhos levantados e sorriso posto. É aí que estou. A descobrir bocadinhos de mim que não conhecia e a arrumar os que descobri recentemente. É uma espécie de catarse, o fim de um ciclo que se faz e desfaz com o vai-vem do mar. Arrumo hoje para desarrumar amanhã, sei que é inevitável desarrumar-me. Até porque as coisas que estou a descobrir me desarrumam e desconcertam. Mas de uma forma boa e plena. Uma cartografia do coração, descoberta de peregrino.

Das coisas simples.

Gosto das coisas simples. É um riso, uma palavra, um olhar, os pés descalços na terra, o mar indomável das ilhas, os gafanhotos gigantes, o som do vento que não se cala, as folhas pequenas das acácias, os cocos pequeninos que em criança usávamos como munição em guerras de faz-de-conta. Deixo-me adormecer ao sol, com a familiaridade do som ao fundo. Acordo e mergulho para arrancar o torpor e o calor acumulado. Deixo-me ficar à sombra a ler. Faço o caminho de pedras de volta a casa e a luz é-me familiar. Vejo-me criança a brincar, a jogar à bola na areia, a fazer corridas de caranguejo pirata com lanternas na mão. Olho o mar e o céu, respiro fundo muitas vezes e toco, sempre que posso, a textura sedosa da areia - é quase como tentar que aquele bocadinho de chão me fique gravado na pele. Dou por mim a pensar em pessoas que gosto muito. Dou por mim a apetecer-me partilhar estas coisas com alguém em particular. A apetecer-me dizer-te em palavras escritas estas coisas todas que não têm nome, a descrever cuidadosamente um determinado som para que o ouças também. A contar uma história de mar para que te saiba na boca a quantidade exacta de sal. A dizer-te baixinho uma lenga-lenga de criança neste meu dialecto para que herdes as minhas memórias. A despejar-te um punhado de areia num pé para que a sintas quando mexes os dedos. A soprar-te ao de leve nos olhos fechados para que saibas que nas minhas ilhas não há um momento quieto, sem vento. E espanto-me a querer partilhar contigo estas coisas todas, é-me inesperado. E, como dizia antes, não sei se é da moleza que mata fronteiras ou do gin tónico a falar, mas apetecer-me partilhar estas coisas todas contigo é muito maior do que dizer que gosto de ti. Porque gosto das coisas simples.

Da madrugada.

Acordo antes de o sol nascer. Lá fora o mar, incapaz de sossego e silêncio, diz bom dia com ondas grandes e cinzentas. Não tarda nada far-se-á manhã cor-de-rosa e os dois ou três cães do costume vão saltitar praia fora. Há coisas que me fazem feliz, só porque sim. E este momento é uma dessas coisas: é o antes, o sossego, o vazio. É toda a gente que dorme nas suas pequenas casas iguais à minha, cama de madeira, rede mosquiteira, quadro pintado na parede, pequena varanda sobre a praia. Dá-me um prazer que não consigo explicar sair descalça para a areia fria e molhada da madrugada, gosto de acordar com os pássaros, como se também eu começasse a chilrear com a aurora. Gosto do cheiro molhado do dia antes de nascer, do vento frio que me enfia o cheiro a mar pelo nariz. Gosto das manhãs compridas, do café bebido com a cara enfiada num livro que não consigo largar. As ventoinhas de tecto espalhadas pela sala lembram-me a minha casa de infância. O som do riso, das interjeições - nunca soube explicar este som das interjeições em crioulo, mas é um som que me embala. Ouço longe e perto um dialecto falado que é meu. Sei-o de cor, mesmo que não o fale há anos. Sei-me capaz de conversar neste tom, de me rir e de recuperar os “r” de língua dobrada na ponta, os “l” lânguidos, arrastados- Sei-me capaz de ir buscar as expressões monossilábicas de prazer, de pergunta, de confirmação - nunca outra língua ou dialecto que tenha conhecido tem estes sons tão guturais e simples. Sinto-me em família aqui. Não em casa, em família. O cheiro da terra, o som dos coqueiros, a areia fina entre os dedos dos pés, a água dessalinizada para lavar os dentes, a música que entra e sai por todas as frestas, as peles escuras, o brilho nos olhos, o sorriso sempre pronto a abrir. Sinto-me em família aqui. Mesmo de madrugada.

6 de fevereiro de 2010

A mãe manda dizer.

Em criança eu era a pior pessoa do mundo para mandar recados. É um clássico familiar a minha prestação: "Está? Tia, a mãe manda dizer que não está". E hoje é isso mesmo, diz que este blog vai de férias. Portanto não está. Ou pelo menos, mandar dizer que não está. Estará?

4 de fevereiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me um abracinho daqueles que não acabam.

Do amor dos velhos.

De sorriso grande, voz profunda e mãos esguias recebia-nos em casa num abraço apertado contra o fato Chanel coçado e o avental comprado numa loja da Graça. Cozinhava com o prazer das avós e falava com o ímpeto e irreverência contida das mulheres fora de gerações. Num espaço qualquer entre a burguesia e o proletariado, desfiava histórias e ria. Do que mais me lembro é do riso aberto que acabava num sorriso mordaz. Olhava de frente para nós e não condescendia. Quando lia transfigurava-se, era menina, gaiata dos seus doze anos, deslumbrada com a magia de juntar letras para fazer palavras, de juntar palavras para fazer frases, de juntar ideias para fazer dizer. Levantava uma perna para se desviar de uma das pilhas de livros e, ainda não sei como, conseguia não derrubar um tabuleiro de copos vazios. Era também uma espécie de magia, de truque treinado pacientemente nos anos que iam pesando. Olhavam-se nos olhos e transbordava o amor. A nós, na nossa paixão pueril, quase nos envergonhava aquele amor de velhos e sorríamos condescendentes. Sei hoje que não sabíamos nada do amor, só aprendemos mais tarde. Dávamos aos mãos no sofá e ouvíamos embevecidos as histórias dos franciscanos, do teatro, dos calvinistas, da polícia política, dos exílios, da Brasileira, do cinema Paris. Apertava-o num abraço terno - venha cá neta da asinha - e a ela dava-lhe um abraço polido e um beijo leve numa face, como convém à decência geracional. Só anos mais tarde soube que isso pouco importa. Nunca lhe disse que só gostava dos livros dela lidos a viva-voz, sempre fui incapaz de os ler sem a voz rouca e ligeiramente afectada, sem as palavras matigadas uma a uma, perfeitamente ditas num português de cristal. Hoje imagino-os aos dois, sentados frente a frente nas poltronas de couro gasto, a pôr o amor e a escrita em dia, com os olhos molhados da água que parou de correr.

3 de fevereiro de 2010

Frase do dia

Se tu fosses um jogo da playstation chamavas-te "the inverse game".

2 de fevereiro de 2010

Das cerejas.

Anda, fumamos um cigarro antes de ir para casa. O som da pedra do isqueiro quebra o silêncio de uma noite que achava no fim. Como todos os fins, foi um princípio. O fumo sai dos teus dedos em espiral, sobe e enrola-se por nós acima. Fumamos um, dois, dez cigarros. A cada um que apago apetece-me acender outro, não por vício ou tique, mas por vontade de que o cigarro-antes-de-ir-para-casa dure só mais um bocadinho. Entre risos e conversas acho às vezes que te conheço melhor do que é possível. Há coisas que sei sobre ti e não sei dizer. Reconheço de instinto o teu desassossego, o que te tira a paz. Tropeço em cavilhas de granadas que me são familiares. Descubro-te em ângulos que me tiram o tapete, kriptonite dos dias, não fosse eu um geek disfarçado de gente normal. Desarmas-me sem sequer te aperceberes, destróis aqui qualquer coisa de essencial, arruinas sem tentar muros cuidadosamente erguidos e rebocados para ninguém dar por eles. Sei-te na confiança minada. Sei que sabes e sentes que há uma linha clara que só se quebra uma vez. Sei que sabes a verdade essencial de algumas coisas que me são fundamentais. Sei que percebes de instinto que a confiança se constrói passo a passo e que nunca ta reclamarei. Porque sei que sabes que nunca te direi "confia em mim" porque não preciso de to pedir. Faço e farei por merecer. E há coisas que tenho para te dizer. Às vezes não me lembro bem do que é, porque é uma bola que se faz coisa e que um dia se fará palavra e, aí - só aí - vou ser capaz de te explicar o que sei que tenho para te dizer. Porque as conversas são como as cerejas. Têm caroço. Fazem-se semente, largam-se na terra. E talvez um dia - está fora da nossa mão - se façam primavera. Porque às vezes abrir mão é a única forma de alcançar.

Renhaunhau

Ontem foi dia de encontros e conversas, algumas planeadas outras espontâneas. Os meus encontros de ontem souberam-me pela vida. Jantei com o meu amigo Felino, costurámos 26 baínhas e rimos muito. Falou-se de homens, mulheres, de histórias de vida, passados e amanhãs. Falou-se, como não podia deixar de ser, da história da pornografia, dos avós e da genética. Falou-se de amor e querer, falou-se de amigos. E falou-se do nosso tema preferido: a curiosidade. E é engraçado, agora que penso nisso, que quando se gosta de um amigo como eu gosto do Felino, a curiosidade é coisa que não passa. Há tantas coisas mais que tem para me contar, para me dizer, para me ensinar, que eu por mim amarrava-o a uma máquina de costura em chão de pedra e fazia um bolo de chocolate mágico que não acabasse nunca. Obrigada.  

1 de fevereiro de 2010

A solidão da pressa.

A melhor hora parece um minuto. A pior hora parece um dia inteiro. E é esta relatividade que me deixa a pensar que o tempo só se sente, só existe quando não é bom. Porque se quer estar em outro lugar, porque o que está a acontecer não é agradável, porque se está impaciente ou ansioso, porque o que vem a seguir é supostamente melhor. O tempo, na sua dimensão mais real, mais física, mais palpável, é uma coisa que se deixa ficar, que se materializa por cima da cabeça como uma pequena nuvem que nos segura a uma cadeira, que nos amarra a um lugar. O tempo que custa a passar é quase como uma mão invisível que se agarra ao tornozelo e dificulta o andar, correr, saltar por cima de obstáculos. Faz-se muro, faz-se buraco, faz-se desnível no caminho. O tempo que custa a passar faz-se bola de jornal e rebola por nós abaixo. O tempo que custa a passar atravessa-se na passadeira em passo de caracol, arrogante e altivo, age como se não tivéssemos mais que fazer. E, às tantas, percebo a escrever que o meu tempo que custa a passar sou eu que o faço, sou eu que lhe dou corpo e espada, com a ansiedade e a impaciência a borbulhar. Sou eu que deixo que este tempo que custa a passar me faça rasteiras e me puxe o tapete. Porque quando aprender a abrir mão do tempo, a respirar fundo a saber que vai chegar, terei a amplitude do salto de braços abertos e olhos para cima, terei a força do passo seguro. Porque esta coisa de correr e querer tudo-muito-já-muito-agora-ainda-aí-estás é provavelmente a chave para dominar a minha habilidade extraordinária de fazer fugas para a frente. E confesso, aqui que ninguém nos ouve, que esta coisa da pressa intrínseca é profundamente solitária.

31 de janeiro de 2010

Eu domingo

Tu domingas, ele dominga, nós domingamos, vós domingais, eles domingam.

Conclusões sobre o furto (ensinou-me o Agente Marta que só é roubo quando há interacção com o sujeito criminoso)

1. A PSP foi mais eficiente e diligente que a TMN.
2. O Agente Marta é brutal.
3. O ladrão era homem: só isso explica que deixe uma carteira da Osklen para trás, uma mulher perceberia que valia mais que o dinheiro que lá estava.
4. O ladrão tinha mau gosto: levou um casaco piroso de lantejoulas (era uma máscara, ok?) e deixou uma mala verde linda.
5. O ladrão faz compras no Continente e põe gasolina na BP.
6. Hoje já não durmo com o taco de baseball ao lado. Pena, até me estava a afeiçoar.

Não se fala mais nisso.

Eliana.

"Trabalho aqui à noite e de dia sou camionista". De estatura baixa e olhos brilhantes, Eliana desfia histórias de roubos e substâncias colocadas em bebidas nas discotecas. Tem quatro fins-de-semana livres por ano e quando sai à noite não leva carteira. "multibanco, 20 euros e cartão de cidadão. O telemóvel fica no carro". Entusiasma-se com a conversa e larga algumas expressões menos cerimoniosas que denunciam imediatamente a alma ribatejana. Fica feliz quando as pessoas suspiram de alívio por ver as chaves de casa e os documentos, largados na noite anterior numa casa-de-banho, depois de extirpado o conteúdo valioso de uma qualquer carteira. Fala de um documentário do National Geografic em que carteiristas habilidosos fazem o impensável de forma invisível e não consegue disfarçar o misto de fascínio e reprovação. Eliana trabalha na noite há 12 anos e hoje devolveu-me a mala verde, com a carteira vazia, chaves de casa e documentos. Mais do que eu podia esperar.

30 de janeiro de 2010

*suspiro*

Mad Hatter

O Mad Hatter - ou o Chapeleiro Louco - é um dos personagens que mais me diverte nas Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Além de ser completamente excêntrico e alucinado (todos sabemos que eu tenho um fraquinho pelo non-sense), adoro o facto de ter sido condenado à morte pela Rainha de Copas pelo crime de assassinar o tempo. Na história o chapeleiro escapa à decapitação e continua a inventar disparates, como fazer festas de "desaniversário". Ontem fui o Mad Hatter. E tal foi a loucura naquele país das maravilhas, que me desapareceram os parcos haveres - tão avassalador que é o meu guarda-roupa que uma alminha não resistiu à mala verde da Skunk Funk e, por acaso, acabou por levar tudo o que tinha lá dentro que provasse a minha existência, um dinheirinho valente, as chaves de casa e telefone. Qual truque de magia, debaixo das barbas da grupeta que eu acompanhava, a alminha fez um truque de prestidigitador e puffff. Felizmente não tinha lá o passaporte, o que significa que nada perturba a minha viagem de férias (aí sim, ficava louca, com ou sem chapéu). Tudo o resto se resolve - mesmo que a dormir armada com um taco de baseball - não vá a(s) alminha(s) decidir fazer uma visita, já que tem a morada. Pelo menos até que a empresa alemã de nome impronunciável se digne a vir cá substituir o canhão da porta-blindada-mega-segurança-xpto-não-passa-uma-formiga. E a mim, que às vezes me escapa o pézinho para as coisas assim mais para o metafísico, só me ocorre que isto tenha acontecido porque os documentos, telefone e chave de casa eram mesmo mesmo as últimas coisas que faltavam renovar na minha vida. Ao fim ao cabo, ainda na personagem, só me resta rir e perguntar,  Why is a raven like a writing desk? E a seguir responder: não faço ideia.

28 de janeiro de 2010

Da sabedoria.

A minha amiga S' não sabe que é sábia. E às vezes arremessa pérolas de sabedoria sem sequer perceber que se pode demorar uma vida até aprender coisas que ela tem o privilégio de ser capaz de saber hoje. Por entre galões, franjas, croissants do Careca e conversas sérias, deixou-me hoje boquiaberta com uma ideia com a qual vou ficar a conversar algum tempo: o conhecimento e as oportunidades nunca chegam ao mesmo tempo. A minha amiga S' é brutal. E eu sou uma sortuda, infinitamente grata por ter na minha vida pessoas tão magníficas. Farei por merecer. Faço por merecer.

Das orquídeas. Ou como se pode mudar o rumo de um dia.

Já pronta para grunhir nomes feios a quem toca à porta às 8.30 da manhã, arrastei-me de frente da máquina de café onde estava a fazer o exercício de pressão psicológica para ver se o dito descia mais depressa. Por sorte o meu pijama não era dos piores, mas o casaco polar preto cheio de pelos de cão não engana ninguém e não dava, de todo, para fazer de conta que estava vestida para ir correr (as pantufas também não ajudam, mas sempre são mais ou menos discretas). Os cães em alvoroço porque, afinal, a esta hora não se entra em casa, só se sai. Vou à porta, mau-feitio a transbordar - os leitores que me conhecem de perto sabem exactamente como é o meu estado pré-café, uma espécie de silêncio imposto onde nada acontece, um sorriso automático por entre olhos inchados. Pode ser o senhor do correios com encomendas do e-bay, a porteira que não joga com o baralho todo, a V. que se esqueceu da chave, a vizinha do lado a pedir que lhe vá passear o cão à hora de almoço, a senhora do infantário que quer que eu vá tirar o carro para a carrinha da fruta descarregar vitaminas para as pestes anãs que gritam no piso de baixo. Mas nunca por nunca me ocorreria abrir a porta a um sorriso simpático com uma orquídea branca na mão. De repente, entra-me no cérebro dormente a vaga memória de um diálogo entre sorrisos: "a orquídea branca que a Sofie me deu morreu do dia para a noite. Acho que lhe devia fazer um funeral condigno". O senhor, que agora combinava o sorriso simpático com uma ligeira irritação por eu estar a demorar demasiado tempo a processar - provavelmente tinha a carrinha de distribuições mal parada - estica-me o vaso com a orquídea branca viva, uma caixa e um cartão. "Usa a caixa para enterrar o que foi. Trata bem o que agora chega.". E eu, que até sou dada a esta coisa dos poemas de todos os dias, sento-me a beber o meu café, a olhar para a orquídea branca e a escrever neste bloco de notas a conclusão de que há pequenas coisas que podem mesmo mudar o rumo de um dia. Obrigada.

27 de janeiro de 2010

Papel de 25 linhas.

O meu amigo Felino queixou-se, em papel azul de 25 linhas, que o meu blog é tão denso tão denso que demora a carregar (sentido de humor acutilante, como sempre). Como eu gosto de manter os meus leitores satisfeitos, deixo aqui dez notas de ligeireza:
1. Aproxima-se a passos largos o momento de entrar no bikini e realizo que talvez não tivesse sido má ideia ter começado a fazer abdominais em Novembro.
2. Não fui aos saldos e por isso acho que estou a precisar de terapia.
3. Ando a gastar algum tempo a tentar perceber se a Serena de Gossip Girl é "dos bons" ou "dos maus".
4. Tenho investido algum tempo a pensar em homens (ok, num em concreto, mas isso são detalhes que eu quero dar aquele ar de que acho graça a imensa gente quando isso não é bem verdade).
5. Ando maçada com o facto de o meu carro cheirar imenso a cigarros - até comprei uma daquelas árvores dos taxistas e juro que um dia destes a penduro no retrovisor.
6. Penso todos os dias que falta muito pouco para ir de férias e já só consigo visualizar o ritual dormir-comer-nadar-dormir-beber-nadar-comer-dormir. Tudo ao sol, na adorável companhia da Madalena.
7. Apetecia-me não estar entalada com trabalho para poder ir para os parques da cidade rebolar na relva e aproveitar o sol.
8. Ando a namorar duas casas e a adorar a ideia de voltar a montar a minha vida.
9. Apetece-me ir beber copos na sexta-feira e maça-me que ainda seja quarta.
10. Ando a pensar na indumentária para a festa do Lux, sendo que já prometi o fato  de coelho à Sofia.

Ronrona de felicidade o Felino?

26 de janeiro de 2010

Felino, esta é para ti.

O meu reino por uma manicure e uma massagem decente.

25 de janeiro de 2010

Apetecia-me.

Hoje apetecia-me sentar-me num passeio e não chegar com os pés ao chão.

Angustiazinhas de trazer por casa.

Por melhor que se esteja há sempre uma p&%# de uma angustiazinha de trazer por casa daquelas que se inventam porque afinal estava tudo tão bem e sem pequeninos dramas a coisa não vai lá e eu agora que penso nisso tenho sempre de encontrar uma coisa qualquer que me dê a volta ao miolo porque não sei nem quero nem consigo estar sossegada e agora só agora e depois logo se vê essa angustiazinha tem nome próprio apelido morada e numero de contribuinte e a mim não me sai da cabeça esta incapacidade de a perceber porque tenho sempre de inventar uma coisa qualquer que me faça faltar o ar e falar assim muito muito depressa e escrever um bocado como o rui no seu blog surreal mesmo que isto não faça nada o meu estilo porque eu sou das coisas certinhas e nada de erros gramaticais e faltas de pontuação mas o que é que querem caros leitores que isto está a dar-me nos nervos e como não posso refilar com ninguém neste momento venho para aqui disparar e despejar vitupérios porque me maça esta coisa de não perceber e porque me irrita estar à nora mesmo sabendo que faz parte de crescer e se calhar vocês até têm razão e eu cheguei foi tarde a esta coisa de não entender tudo tim tim por tim tim e tenho é de ficar sossegada no meu canto porque aquele livro americano meio piroso que passou na série das miúdas bem vestidas é que tem razão e ponto final.

Do cheiro.

À terceira vez chegou-me aquele cheiro. Era a terceira vez mas a primeira perto suficiente para me chegar aquele cheiro. Era qualquer coisa com cor, algures entre árvores verdes, café torrado e lençóis lavados. Era qualquer coisa com forma, aquele cheiro. Estava entre o familiar e o novo, entre o sedutor e o desterro. A distância era suficiente para que o cheiro não se colasse a mim mas ficou gravado num lugar qualquer. E de vez em quando aparece-me, aquele cheiro. De vez em quando apanho-o na dobra do cotovelo, outras vezes dentro de um caderno de notas e ainda outras na toalha do banho. De vez em quando prega-me rasteiras, faz-me tropeçar, acelera-me o passo, troca-me as pernas. De vez em quando faz-se vento e entra pelas frestas todas e pelas janelas que, de vez em quando, deixo escancaradas. De vez em quando trepa-me pelas pernas acima, formiga de primavera no parque. De vez em quando escorre-me pelas costas, cabelo encharcado a sair do mar. De vez em quando acorda-me de sobressalto e outras vezes de mansinho, com festas e beijos-sorrisos. Faz-se coisa, aquele cheiro. Faz-se memória de coisas que não aconteceram. Faz-se presença de coisas ausentes. Faz-se vida de coisas que não nasceram. À terceira vez chegou-me aquele cheiro que não me sai daqui.

24 de janeiro de 2010

Das palavras. Do silêncio.

As palavras são fáceis para mim, são quase todas fáceis. E por pensar nisso dei por mim a chegar à conclusão que difíceis são os silêncios que nos caem bem na pele, os alheamentos que não nos fazem mal, as ausências que não nos roem por dentro. Por enquanto só tenho as palavras e os pequenos silêncios entre elas.

Em forma de coisa que sim.

Anda, mexe-te, faz qualquer coisa. Não te deixes ficar aí que me dás nos nervos. Faz-te à vida, treme o chão. Dá um passo: ao lado, em frente, atrás, qualquer coisa. Mas não congeles, não te deixes ficar aí no silêncio. Desassossega-te. Que o desassossego é bom, traz movimento, traz coisas que acontecem e desatam nós. Faz qualquer coisa, um sinal de fumo, um apito, um gesto, que qualquer dia já não sei se aí estás. Mexe-te. Faz qualquer coisa. Ou mexe só um dedo que seja. Uma coisa qualquer em forma de assim, em forma de coisa que vive, em forma de coisa que sim. Dá um laço, dá um nó, desata, dá corda, amarra, solta, larga. Qualquer coisa. Que este fio definido e claro que aqui está vai desaparecer mais dia menos dia e depois é só mais um novelo. Anda, faz. Que eu por mim já não consigo, é um precedente que não volto a abrir. Uma espécie de birra que acordou aqui, que se instalou devagar como uma conversa numa madrugada alentejana. Anda, mexe-te. Faz estações, uma qualquer. Faz temporais ou terramotos, faz brisas suaves ou chuvas de agosto. Mas faz, faz, faz. Que esta coisa do fazer faz-se nota de arranque da música, linha primeira da pauta, entrada em cena. Anda, faz. Faz qualquer coisa em forma de sim.

23 de janeiro de 2010

Vou fazer uma linha.

Nem que seja editorial.

À nora.

Acho que os meus amigos se habituaram a ver-me sempre muito segura, confiante, com as respostas na ponta da língua, com tudo controlado, com um plano feito, com o instinto de ir buscar o que quero, com um mapa mais ou menos exacto de onde vou a seguir, do caminho, do veículo, das paragens. Acho que todos se habituaram a sentir em mim a solidez inabalável da preparação para todos os cenários, do jogo de cintura para lidar com tudo, do estofo para reagir. E nesta nova fase de aprender a flexibilidade, em que não me preocupo tanto com as variáveis e mais com a essência do caminho, confesso que esperava que os meus amigos ficassem à nora por me ver à nora. Confesso que esperava que ficassem à deriva por me ver navegar à bolina. E a parte mais engraçada - e que me apaixona nestas pessoas - é que em vez de ficarem à nora, brincam e espicaçam-me. Divertem-se quando me baralho e não entendo, riem-se quando pergunto e duvido, fazem piadas quando, por instinto e hábito, faço o gesto de pôr o pé na porta (que com um esforço consciente evito). E é também por isso que são tão importantes para mim, os meus amigos: porque têm uma infindável capacidade de me surpreender.

21 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão grande, tão grande que se transformou numa personificação.

Pequeno prolapso da válvula mitral.

É uma anomalia congénita. Herdada ou não, nasceu comigo este pequeno deslize de parte de um corpo estranho, esta deformação do objecto cardíaco. Convenci-me de que nasci assim para ter um coração diferente, para ter um objecto disforme, imprevisível, irregular. É uma espécie de desculpa. É uma espécie de descuido. É uma espécie de alegação que legitima o descompasso. É uma espécie de "porquê", um lugar em que me permito guardar coisas que não têm outras caixas, outros lugares. É um saco azul sem dinheiro sujo, é uma caixa de sapatos debaixo da cama, é o prazer, pequena transgressão na racionalidade vertical de quem sabe que não se mete noutra. É a única parte de mim onde tudo pode acontecer, este meu prolapso. É uma lacuna na lei, uma regra incompleta, uma janela mal vedada, uma fresta quase invisível. É um lugar estranho, o prolapso. Sem regras, sem normas, sem tabulações. É um compartimento escondido na bainha das calças, um bolso secreto no casaco de inverno, uma alça de um vestido de verão. É um tesouro escondido, sem "x" a marcar o lugar, é um mapa incerto, cartografia emocional. É um lugar onde guardo amores e amigos, memórias e olhos fechados. É algures entre a garganta e o estômago, ali a meio caminho de tudo o que é vital. 

19 de janeiro de 2010

A bola.

Foi a segunda vez na vida que comprei a Bola. Sim, o jornal. Sim, o jornal desportivo. A primeira vez que comprei a Bola foi pesquisa - tinha de perceber alguma coisa do mundo do futebol porque tinha de fazer um projecto nessa área. O projecto correu bem. A segunda vez que comprei a Bola - ontem, por sinal - foi para dar os parabéns a um benfiquista. Diz que o clube encarnado fez um jogo bom e fartou-se de marcar golos. Ganhei por falta de comparência. Perdi por falta de comparência. Mas ao menos aprendi que o Ricardo Carvalho está ansioso por reencontrar Mourinho; que o Mourinho, por sua vez, não perdoou o Ibrahimovic por ter ido para Barcelona; que no Brasil, o Santos procura renovar com Léo e que o Yuri está sem limitações. Acho que esta novela compensou o facto de não ter visto o Gossip Girl.

A ideia.

De uma conversa nasceu uma ideia. Vai daí que fiquei a conversar com ela, com a ideia. E o que a ideia me disse é que talvez fosse uma boa ideia ir atrás da ideia. Claro que mudei de ideias assim que percebi que a ideia não fazia ideia da ideia que ia ser. Mas logo a seguir mudei outra vez de ideias porque estava com a ideia de que a ideia talvez até nem fosse tão má ideia quanto isso. Idealmente, uma ideia é uma boa ideia e, caso não se mude de ideias muitas vezes, até é boa ideia ir atrás dela. Conversar com ela. Puxar por ela. Fazê-la ceder. Fazê-la ganhar. Fazê-la perder. Esticá-la até não aguentar mais. E eu sei que isto parece idealista e que talvez nem funcione. Mas só tentando é que sei. Se vai resultar? Não faço ideia.

18 de janeiro de 2010

Da realidade.

Sou de instinto, de impulso. Sou de razão, de lógica. Sou qualquer coisa ali no meio, trapézio montado sem rede, fato de lantejoulas a afinar o corpo dorido. Sou de saltos, sou de voos. Sou de terra, sou de chão. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que não falo, não faço, não dou, não sou. Sou, na maior parte das vezes, as coisas todas que digo, que atiro, que atravesso, que arremesso, que ofereço, que mostro, que transpareço. E por mais esquizofrénico que isto possa parecer visto de fora, há uma espécie de razão onde a vida se pode decidir. Um espaço onde a vida acontece e quase se pode respirar. Canso-me. Descanso-me. Arquejo em convulsão, arfo, cuspo, mordo, beijo, lambo, rasgo e toco o dia. Porque esta coisa da realidade é táctil, faz-se coisa e faz-se verbo. Esta coisa da realidade é, nem mais nem menos, tornar real. Tornar-me real. E pode parecer simples, mas às vezes falta consciência e coragem para nos transformarmos naquilo que somos.

17 de janeiro de 2010

Da leveza.

Hoje escrevia alguém:

Tomava erradamente por leviandade a falsa leveza com que ela se passeava pelas coisas. Não era falsa, e não era leviandade.

16 de janeiro de 2010

Como é que se faz?

Como raio é que se conjuga o verbo ir? Como é que se explica que as coisas são afinal simples e ou se está ou não se está? Como é que se diz ao outro que se sabe que a dor não passa de uma estrada de sentido único, sem atalhos, sem cruzamentos, sem tesouras como em Brasília. Como é que se mostra que é um caminho que tem de se fazer, sem desculpas, um quilómetro mais ou menos comprido por onde temos todos de passar. Como é que se evidencia a inevitabilidade dos percursos da dor. Como é que se mostra que há luz ao fundo do túnel e que este caminho vai dar - só pode dar - numa rotunda grande que tem outros caminhos para o que nos espera desde sempre. Como é que se lambem lágrimas a dizer que vai ficar tudo bem e como é que se faz para que outro tenha fé de que vai ser assim. Como é que se diz a certeza de que amanhã vai ser um bocadinho pior, vai pesar mais, mas que isso faz parte de um caminho que sobe e um destes dias o outro acorda e consegue respirar. Como é que se diz sem dizer que se sente a dor do outro como se fosse nossa, não tivesse eu lá estado antes. Como é que se escreve que se sabe que o outro vai ser feliz, mesmo depois disto, mesmo depois de ter visto tudo a ruir, tsunami de banheira, tremor de terra de elevador. Como é que se faz para mostrar ao outro que a felicidade chega com a consciência da dor e do porque é que dói. Como é que se diz que se sabe, porque sim, que um destes dias, inesperado, vai chegar o fim do caminho das pedras e há um arco-íris com um pote de ouro à espera. Como é que desenha a alegria de ver as pernas entrançadas nas outras, de reconhecer a cavilha da granada que se pode puxar e fazer explodir, o cabelo desarrumado na almofada, os olhares esquecidos nos olhos do outro, os dedos descansados na pele, os braços fechados num abraço dormente que não se quer largar, o pé com formigueiro debaixo da coxa, a língua a desenhar bonecos invisíveis. Como é que se explica que isto tudo é real mesmo que não esteja lá. Como é que se evita o sorriso sarcástico do outro quando se diz sem poder dar o exemplo, olha para mim. Olha para mim, as olheiras pisadas e os olhos molhados fazem de conta que não sei. Mas sei, olha para mim. Sei que no fim do caminho te vais erguer mais forte. Olha para mim, que sei muito da vida e nada do amor, e continuo a fazer o caminho porque sei que vou lá chegar. Olha para mim, vem comigo que eu dou-te a mão e ao meu lado o avião não cai. E podemos fazer juntos o caminho para chegar à rotunda e depois vai cada um à sua bifurcação. Anda comigo, um pé à frente do outro, sempre em frente que não há nada a fazer senão o caminho, isto só tem um sentido. E é o sentido que nos faz. Vem comigo que eu sou capaz de acreditar sem ver e com insistência e abraços posso talvez fazer-te sentir que os caminhos da dor são caminhos que têm de ser feitos, não podem ser evitados - perseguir a cauda leva a lado nenhum. Anda comigo que só te quero bem, só te quero dar a mão e dizer baixinho que vai dar tudo certo. Porque mesmo os caminhos da dor são melhores a dois e porque a verdade é raquidiana e não lhe podemos escapar. Tem fé em mim, já que não que não és capaz de ter em fé em nada. E a única coisa que te posso dar é a mão.

O café a ver o rio.

"Nasci numa tenda no sótão da minha avó", começa por dizer. Com grande fascínio pelos poemas de todos os dias, anoto divertida a frase enquanto lá fora chovem cães e gatos. Filho de retornados - perdão de retornado, no singular, porque quem nasce em Moçambique e veio para Portugal depois do 25 de Abril não retorna, emigra. Melómano e diletante, desfia histórias com camadas e camadas das coisas todas que tem para contar, viagem no solitário banco de trás numa estrada larga de percursos familiares. Arquitecto desassossegado, apaixonado pela estética de todos os dias - "a Vicri, não conheces a Vicri?!" - veste-se de menino grande a fugir ao cinzento. Fuma com prazer as cigarrilhas num dos raros cafés da cidade onde ainda se pode fumar e fala da varanda com som na Avenida de Roma, onde faz os telefonemas do fim do dia a fingir que está na rua. Encontrou no segundo casamento a paz para descansar o desassossego do primeiro e desassossega-se com uma carreira que ainda não acabou de desenhar. Perde-se e encontra-se no meio de histórias e graças como se estivesse a moldar uma peça que não sabe bem o que vai ser, o que ele vai ser. Trocamos partidas para pregar aos amigos, película aderente para embrulhar os dias. Entusiasma-se com fita-cola dupla face que usa para colar telefones ao tecto e isso faz-me sorrir por dentro porque me lembra a S' no seu fascínio da fita-cola. Tem um cabelo de mulher pendurado na haste dos óculos porque se penteou com a escova da M. e ela ficou ali o dia inteiro, como se isso não fosse sempre assim - comovo-me com a pequena intimidade, com as pequenas coisas do amor. Despedimo-nos apressados porque deixámos fugir as horas na amena cavaqueira de quem se está agora a conhecer. Mas sei que um destes dias vou encontrar outra vez o R., numa qualquer mesa onde se possa fumar e jogar conversa fora. Obrigada. O meu dia ficou muito melhor.

15 de janeiro de 2010

Da teoria dos contrários. Ou a lata descomunal.

Eu trabalho com ideias. Trabalho com negócios, pessoas, informação, argumentos, soluções criativas. Neste campo sempre tive uma tendência natural para contra-argumentar, para virar as coisas ao contrário, fazer muitas perguntas, procurar outras respostas, experimentar coisas diferentes, processos e métodos que não os meus. Tenho uma tendência nata para me atirar para fora de pé. Não é bom nem é mau, é assim. Saio naturalmente das minhas zonas de conforto e dou saltos de fé. Comecei por fazê-lo de olhos fechados e testa franzida, cheia de medinhos. Correu bem. E fiz outra vez. E outra. E outra. Foi correndo sempre bem e acabou por se tornar um hábito e por se transformar num traço de personalidade. Esse caminho fez de mim uma pessoa de saltos mortais. Como aliás, de cada vez que tenho de apresentar o meu percurso profissional, se nota à légua. Como aliás, de cada vez que conheço alguém que me interessa ou fascina, se sente de imediato. Se no campo profissional isto fez de mim alguém relativamente reconhecido (presunção e água benta...), no campo pessoal já me deu alguns dissabores. Entre leituras enviesadas - dos próprios ou dos outros - falhas de comunicação e castelos de areia, já me aconteceu de tudo. Porque a verdade é que tenho uma lata descomunal, daquelas latas grandes-contentor-de-porto-marítimo. E se gosto de alguém - homem, mulher, por pura curiosidade, por puro interesse humano, por empatia, por simpatia, por humor, por-amizade-ou-algo-mais - faço por isso. Faço por conhecer melhor, por perceber, por descobrir. Porque se há coisa que amo perdidamente e que me fascina até ao último fôlego são as pessoas. E as grandes conquistas da minha vida, os meus mais queridos amigos, foram descobertas assim, a dar o flanco, a perguntar, a combinar coisas inusitadas, a criar oportunidades para conhecer. Porque também com as pessoas ponho em prática a teoria dos contrários, venço a timidez, refreio a auto-censura, subverto as regras. Porque confio que vai correr tudo bem. Mesmo que do outro lado a primeira leitura seja desconfiada e cuidadosa, seja precavida ou apreensiva. Porque todos os meus saltos mortais com pessoas - o exercício da minha lata descomunal - trouxeram à minha vida, à minha história, as pessoas notáveis e magníficas com quem tenho o privilégio de partilhar o caminho. Continuarei por isso a fazer saltos mortais. Mesmo que isso, de vez em quando, me custe um crânio rachado no asfalto (sim, daqueles cheios de sangue e nhanha como se vê nos filmes). O que é que tenho a perder? Talvez um pouco de mistério - ai o que eu adorava ser aquela morena misteriosa dos filmes. Um pouco de paz - por causa dos mal entendidos. Um pouco de dignidade - ainda há quem ache que eu sou mesmo só maluquinha, sendo que acredito piamente que quem não está para se dar ao trabalho de ver o livro além da capa interessa-me pouco. O que tenho a ganhar? Eventualmente mais uma pessoa fantástica na minha vida. Feitas as contas, compensa em larga escala.

14 de janeiro de 2010

hosomaki ou uramaki.

Hoje tenho um almoço onde vou ter de decidir se quero hosomaki ou uramaki. Mais do que uma opção de culinária nipónica vai ser uma decisão que pode mudar a minha vida - alga por fora, arroz por dentro ou arroz por fora, alga por dentro. O peixe, confesso, é-me indiferente. Desde que seja fresco e limpinho, cheio de proteínas.

13 de janeiro de 2010

De tanto bater o meu coração parou.

Falamos sobre o amor. De visões romantizadas, pragmáticas, paradigmáticas, pueris, realistas, literárias. Salta - fatal - a pergunta: mas tu sabes o que é o amor? E fico inevitavelmente a pensar nisso, numa apneia, letra suspensa. Porque bem vistas e ditas as coisas, essa é a única pergunta. Não sei se sei o que é o amor, porque sei que o amor tem essa coisa muito muito boa que é ser sempre capaz de se transformar. Sei que o amor se reinventa e refaz como pode. Sei que o amor se aninha de maneiras diferentes no mesmo sofá. Sei que o amor nos tem, não somos nós que temos o amor. Sei que o amor cresce e diminui para crescer outra vez. Sei que o amor é as coisas todas e é coisa nenhuma. Sei pouco sobre o amor. O amor que sei é o amor que conheço e sei como esse foi. Mas sei também que, um dia que ele volte a aparecer, vai ser outra coisa - por isso não. Não sei o que é "o" amor. O amor que conheço, aquele que tive a sorte que se tenha aninhado por aqui, foi um amor discricionário, indivisível. Foi um amor que tomou conta de mim - logo comigo, que tomo sempre sozinha conta de mim. Foi um amor educativo, transformador. Foi um amor que soube receber e que deu até doer. Foi um amor imenso que me tomou por dentro e me virou do avesso. Foi um amor inabalável até abalar. Foi um amor justo, bem-aventurado. Foi um amor aventureiro, desafiador. Foi um amor visceral e um amor sossegado. Foi um amor mexido e um amor quieto. Foi um amor que foi muitas coisas, tantas coisas quantas consigo dizer. Foi um amor que ficou, que se deixou estar muito muito tempo. Foi um amor que não se foi embora quando foi embora. Mas não. Não sei o que é "o" amor.

12 de janeiro de 2010

Eu sou uma besta.

Eu sou uma besta. Um tractor. Bruta como as casas. Dura que nem um portão. Mas com uma particularidade, só sou assim para as pessoas de quem gosto muito. Quando me é indiferente não sou capaz de hipérboles. É uma espécie de equilíbrio, o gostar muito vem com arestas duras e com brutalidades ditas de coração, porque tem de ser. Não sei fazer de outra maneira. Acredito no gostar incondicionalmente das pessoas que escolho e com isso vem uma dose de bestialidade que não sei domar. Sou excessiva. Sou excessiva no amor, sou excessiva na amizade (que é igual ao amor mas com menos pele e sem trocas de fluidos). Sou excessiva na atenção. Sou excessiva na dedicação. Sou excessiva nas coisas que digo, faço, escrevo, desenho (como diz a minha Madalena, não sei desenhar mas gosto). Sou excessiva quando gosto. Sou um tractor, levo tudo à frente, defendo com unhas e dentes as pessoas que escolho, estou lá para o bem e para o mal, em todos os sentidos. Rio-me e brinco com as "minhas pessoas", como choro e me zango com elas. Não consigo ser indiferente, apática, desapaixonada. Porque só escolho as pessoas que, por algum motivo, me apaixonam. E isso é verdade para dar colo e é verdade para ter conversas duras - desculpa, às vezes à noite sou bruta. Sou uma besta. Vem com o pacote.

Poemas de todos os dias.

Happiness isn't always the best way to be happy.

Maurice Sendak, Where the wild things are.

Do uivo.

Acho que, em geral, uivamos pouco.

11 de janeiro de 2010

É pecar ou largar.

Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.

10 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão subliminar, tão subliminar que se transformou numa elipse.

Monstros e histórias.

Fico com ebejeebies por saber que amanhã vou ver em filme uma história que tantas vezes li, que tantas vezes aconteceu na minha imaginação. Gosto de antecipações, como aquele momento antes do primeiro beijo. Gosto de pensar como serão os monstros desenhados por outras imaginações que não a minha. E, por gostar muito de histórias infantis, fico maravilhada com essa antecipação. Porque as histórias não dizem às crianças que os monstros existem - isso as crianças sabem de ginjeira. As histórias ensinam às crianças que os monstros podem ser encantados, expulsos (se forem maus), conquistados. As histórias infantis não (nos) dizem que os monstros existem, só dizem as coisas infinitas que podemos fazer com eles.

9 de janeiro de 2010

burn, burn, burn.

"They danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn..."

Jack Kerouac, On the Road.

Metam a tesão para dentro.

Os meus sábados são feitos de encontros. De sol a sol, a bater perna pela cidade velha, a saltar de café em café para cumprir a agenda cheia de gente para ver, conversas para pôr em dia, apoio moral, novidades bombásticas, histórias tristes, pequenas histerias passageiras, partilhas das mais diversas. Hoje calhou ser um sábado só de mulheres - cinco encontros com cinco mulheres que, umas mais presentes que outras, vão estando na minha vida. É refrescante ter um dia assim, sendo que a grande maioria das pessoas na minha vida são homens e sempre me vão faltando pelo caminho algumas referências de lipstick jungle.

Das cinco mulheres quatro são casadas, emparelhadas, amatizadas ou qualquer outra definição do género que implique um "nós". E as quatro estão a atravessar momentos difíceis nos respectivos emparelhamentos. Ainda não percebi porque é que estas criaturas maravilhosas vêm ter comigo com pedidos de conselhos e opiniões, sendo que é do domínio público que eu tenho pouco talento para o "nós" e parca experiência em relações bem sucedidas. Confrontadas com este facto, em uníssono alegam a minha lucidez, o meu pragmatismo e a determinação com que "mordo" a vida. Aceito os elogios mas continuo na mesma, sem perceber porquê.

Estas quatro mulheres emparelhadas, todas entre os 30 e os 40, vivem hoje momentos de ruptura e há-os para todos os gostos: o homem que saiu de casa com uma criança de meses porque se apaixonou perdidamente por outra pessoa, o homem que dá umas voltinhas por fora e esconde tão bem que frustra qualquer instinto apurado, o homem que dá voltinhas por fora e não faz qualquer esforço para esconder. Não digo que as minhas mulheres não tenham culpas no cartório nem que sejam monumentos irrepreensíveis à vida conjugal - mas também não vou entrar por aí porque não tenho qualquer legitimidade para avaliar o que quer que seja.

A grande conclusão do dia está no papel que assumi hoje (um papel no qual sou sempre boa): o advogado do diabo. Estive então o dia inteiro a defender os homens destas minhas mulheres - não necessariamente a defender o indefensável, mas a trazer à mesa uma perspectiva diferente. Dei por mim a racionalizar infidelidades, a defender o amor paternal, a proteger os homens destas minhas mulheres de pequenas vinganças e humilhações (as mulheres conseguem chegar a um extremo assustador de insanidade quando rejeitadas).

Chegado o fim do dia e antes de ir para "o senhor que se segue", dei por mim a reiterar uma conclusão já antiga que me frustra no sexo oposto - e sinto-me com legitimidade para o dizer porque o meu círculo é muito masculino - falta coragem aos homens. Falta verticalidade. Falta que os tenham no sítio. Porque jamais conheci um homem que tenha deixado de fazer parte de um "nós" sem ter um novo "nós" adiante, sem ter uma razão concreta e objectiva para perseguir e conquistar a seguir. E isso frustra-me. Por mais que adore os meus homens, revejo neles também esta característica. E por mais que adore os meus homens tenho muito mais mulheres que assumem na personalidade, atitude e escolhas de vida a característica morfológica predominante da masculinidade. Sem punhos de renda, conheço mais mulheres com tomates do que homens.

E por isso, apesar de ter passado o dia inteiro em defesa dos homens, vou - aqui que ninguém nos ouve - parafrasear uma senhora de quem muito gosto e dizer: Homens deste mundo, metam a tesão para dentro e façam o favor de erguer outra coisa.

8 de janeiro de 2010

Da sombra do sobreiro.

Tenho um sobreiro. Tenho, aliás, dois mas só um é meu. Tenho um sobreiro de que gosto muito porque o vi nascer de uma semente pequenina que bem podia ter sido dada ao porcos no Alentejo para se fazerem gordinhos para a matança de Setembro. Mas não, a semente pequenina veio parar-me às mãos porque a mulher do O. queria que os sobreiros se fizessem grandes e frondosos para um dia filhos ou netos se deliciarem com a sombra fresca e húmida que as árvores grandes dão. O meu sobreiro foi plantado com amor, rompeu na dúvida e foi crescendo no alheamento. Tinha já um simpático (quase) metro quando mudou de casa e continuou a crescer, mesmo sem vista para o rio. Manteve-se hirto e verde-vivo num verão tórrido. Aguentou-se às agruras de um outono quente demais. Sobreviveu à violência de um início de inverno que se tornou bruscamente glacial. Hoje estava morto. Tive vontade de lhe declarar o óbito em voz alta e publicar-lhe uma fotografia e elogio fúnebre num jornal. Foi um bom sobreiro, apesar de não ter crescido o suficiente para que me pudesse, velhinha, deitar à sua sombra a ler um livro do futuro. O segundo sobreiro sobrevive, desfolhado mas vertical, com força anímica para aguentar o inverno que falta. Um destes dias regressa à sua terra natal, ao quintal onde pertence. E a mim, que me escapa por vezes o pé para coisas assim mais para o metafísico, fica-me a saudade boa do sobreiro e a vaga sensação de que esta morte natural é sinal de renovação.

Há elogios que nos tiram a respiração.

"Ontem vi finalmente o dvd do Coco avant Chanel e passei o filme todo a ver-te ali a costurar destinos."

7 de janeiro de 2010

A mercearia cá do bairro.

Se há coisa que me dá prazer é tropeçar em pessoas. Não em sentido literal - embora aconteça frequentemente porque acho que nasci com dois pés esquerdos - mas tropeçar como quem interrompe inesperadamente um caminho de todos os dias e muda de direcção. É ir à mercearia do bairro e, em vez de trazer as maçãs e o açúcar que estão na lista, chega-se a casa com um sabor bom de conversas entre gente que se entende e fala o mesmo dialecto, tantas vezes alienígena. E pensando nisso não posso deixar de ficar contente pelo simples facto de isso ser possível. Sem mais nada. Sem planos ou expectativas, sem pressões ou equívocos. É o que é. E há dias em que isso faz infinitamente mais sentido do que todas as outras coisas escritas, cinematográficas, densas, complexas, intrincadas. Isto hoje é muito muito simples: tenho uma sorte extraordinária nos meus tropeções. E isso é muito bom. Só porque sim.

6 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão bem vestido, tão bem vestido que se transformou numa figura de estilo.

Demasiado inteligente para ser amante.

Agora escolha.

Diálogos surreais.

senhor do café: desculpe a pergunta, é professora?
ela: sou...
senhor do café: ali da escola? (aponta com a cabeça na direcção do jardim infantil/escola primária)
ela: não, não, dou aulas a adultos, numa faculdade. (sorriso) Porquê? Tenho cara de professora primária?
senhor do café: por acaso até tem...
ela: não percebi bem se isso era um elogio...
senhor do café: eu também não.

(Aconteceu algures em Setembro, mas lembro-me sempre desta conversa quando entro no café e o senhor me diz "olá sôprossora")

Dr. Strangelove.

Descobri que há uma desordem neurológica a que se chama Dr. Strangelove syndrome. E é, nem mais nem menos, do que uma forma de apraxia em que os membros (tipicamente as mãos, mas nunca se sabe...) fazem tarefas involuntariamente. Uma mão, por exemplo, pode abrir botões de uma camisa ou despir roupa sem que, na maioria das vezes, o "dono" da mão se aperceba.

(http://en.wikipedia.org/wiki/Alien_hand_syndrome)

Acabei de juntar mais esta desordem à minha pequena lista de alegadas anormalidades clínicas. A partir de agora a minha lista passa a ser:
- Tourette
- Narcolepsia
- Dr. Strangelove syndrome

Há coisas extraordinárias, não há?!

Maçã-s, maçã z.

Muitos foram os anos em que perdi documentos por não gravar - ora a bateria do computador cedia, ora o programa dava erro, ora acontecia qualquer outra carnificina típica da vida de um documento com prazos apertados. O "save" tornou-se por isso o meu porto de abrigo para evitar a falha, o meu reduto de salvação que impedia o taberneiro que há em mim de "baixar" e soltar esconjuros em forma de palavrões cabeludos. Em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-s.
Outro fiel amigo ganho a pulso nestas lides foi o "undo" - a possibilidade de, a cada passo, voltar atrás, reverter e fazer de conta que o erro não aconteceu. Duas teclas, dois dedos (de testa?) e tinha de novo a folha em branco, o potencial, a ausência de erro. Num segundo, nada tinha corrido mal, aquela palavra não estava no lugar errado à hora errada, o erro ortográfico deixava de existir, a conclusão precipitada desaparecia por magia, a falibilidade estava blindada num truque de prestidigitador: agora vês, agora não. E em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-z.
Com estes tiques e truques, acho natural que este método se transfira para a vida fora do processador de texto: gravar insistentemente coisas na memória. Ter um plano B para o caso de erro. Só dar um passo em frente se o soubermos reversível, não vamos nós correr o risco de perder o que já fizemos. Por isso acho perfeitamente natural que, à medida que vamos processando cada vez mais e mais palavras, histórias, tratados e declarações, nos tornemos cautelosos por defeito.

(a minha sorte é que há oito anos trabalho em computadores que falham menos que os do Sr. Gates, o que me vai permitindo moderar os tiques. É uma espécie de maçã-r.)

5 de janeiro de 2010

Da insónia.

Há uma beleza perversa na insónia, uma mistura de asneira e suspiro. Há algo de interessante na passagem física do tempo enquanto se espera para adormecer - é quase como uma massa nuvens baixas que passa ali rente ao nariz apontado ao tecto, que se move muito muito devagar, mas depressa o suficiente para percebermos que se está a mover. É um tempo com textura, com densidade. Não tem cor nem cheiro, mas é físico, paira ali mesmo por cima da cama, ao alcance de duas mãos quase abertas, dedos flectidos para agarrar essa massa de tempo. Tenho insónias desde criança, é uma condição crónica, com fases melhores e piores, dependendo do quanto consigo gerir a ansiedade e parar a cabeça, congelar as ideias. Recuso-me a tomar comprimidos para dormir, não gosto do sono falso porque não sonho. E eu sonho sempre - sempre que durmo - e lembro-me sempre dos sonhos, coisa que eu achei sempre que era um presente especial só para mim, o cérebro a compensar-me, dorido e culpado, da insónia. Porque o meu cérebro é um pai divorciado: exagera mimos e presentes deliciosos para compensar a ausência. Sonho imenso, com detalhes, nomes, cheiros, texturas e outras fisicalidades perfeitamente distintas, os meus sonhos existem, têm corpo e vida, é estranho, são pedacinhos de real numa dimensão irreal ou numa hiper-realidade. Uma das coisas boas da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Em contrapartida, uma das coisas más da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Tenho uma relação de amor-ódio com a minha insónia: amo-a desmedidamente por ser o meu espaço solitário e livre para a reflexão e, quando acaba, traz-me o presente de sonhar em HD. Odeio-a desmedidamente porque não há nada melhor que dormir bem, profundamente, sem hora para acordar, a preguiça a rebolar naquele tempo gasto entre a lucidez e a possibilidade, cama quente e desapego, desassombro em posição fetal.

4 de janeiro de 2010

Da bipolaridade. Ou hiper-lucidez.

(ou como fiquei quase duas horas com ebejeebies por causa da cópia autografada do meu livro preferido do Andre Jordan)

Composição sobre a amizade.

A minha amiga Rita merecia uma estátua. Daquelas grandes, brilhantes, em bronze, pespegada num qualquer topo do mundo para que hordas de comuns mortais se pudessem dirigir a ela em romarias devotas. A minha amiga Rita vai corar e zangar-se comigo quando ler isto. É assim, a minha amiga Rita, teima em não aceitar o quão avassaladora é, teima em não deixar que lhe façamos elogios rasgados - aqui não tens safa que só eu é que posso apagar, pôr e dispor do pequeno poder à mercê de públicas declarações de amor. A minha amiga Rita disfarça, assobia para o ar, quando lhe entro pelos olhos azuis adentro e lhe digo que o tamanho do seu coração me engelha a humanidade. A minha amiga Rita comove-se com as minhas histórias tristes e sorriem-se-lhe os olhos com as minhas histórias felizes. A minha amiga Rita é das criaturas mais deliciosas que este mundo já pariu e às vezes só me apetece agarrar num megafone e ensurdecê-la consecutivamente com esta verdade, dita na voz esganiçada que faço quando me comovo. Sei que se o fizesse ela ia chamar-me parva. A minha amiga Rita chama-me parva muitas vezes e por isso gosto todos os dias um bocadinho mais dela. A minha amiga Rita merecia que lhe dissessem de duas em duas horas o quão extraordinária é, posologia clinicamente prescrita sem ser preciso ler a bula porque os efeitos secundários são sempre bons. A minha amiga Rita é digna de todas as redacções pueris que se escrevam acerca dela, como se isto fosse um caderno da escola com o TPC das férias de natal, "meninos, hoje vamos fazer uma composição sobre a amizade".

Diálogos surreais.

(...)
ela: vieram cá entregar mas eu não estava em casa.
ele: pena. se calhar tinha sido melhor entregar em mão.
ela: o PMP funciona sempre melhor que a MRW...
ele: antes isso que TPC.
ela: TPC dá mais trabalho que PMP?
ele: Para a próxima trago o TPC PMP.
ela: mas não sem antes pedires RSFF, ok?
ele: ok, não vás tu estar em TPM e mandar-me para a PQP.

Não é bonito dizer isto alto...

...mas tenho um ódio de estimação por pequeno-burgueses-deslumbrados.

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão pouco literal, tão pouco literal que se transformou numa expressão idiomática.

Das hipérboles.

Acho que li demasiados livros, vi demasiados filmes - não no cinema, mas daqueles que se repetem incessantemente na desinteressante televisão de domingo à tarde. Acho que esse facto, aliado a uma imaginação fértil, faz de mim uma pessoa com um fraquinho por hipérboles. Não, não é bem um fraquinho, acho que isso faz de mim uma pessoa de hipérboles por defeito. Sou de exageros, imagino sempre gestos grandiosos, frases épicas, momentos colossais, finais explosivos. Nas mais pacatas situações imagino uma narrativa paralela, em que todos os personagens são de epopeia, coragem irrepreensível, força de leão. Premissas definidas, a narrativa é épica, dramática ou até lírica (sempre tive a mania das bandas sonoras). Vejo sempre uma intriga Queirosiana, um enredo intrincado e complexo, centrado num conflito digno da mais nobre literatura. Faço heróis, vilões, pares românticos e, na maior parte das vezes, trago a cena um comic relief. O narrador, de voz profunda e grave, vai explicando e acrescentando detalhes, assinala peripécias, antecipa reviravoltas - o meu narrador é normalmente omnisciente, mas é discreto, o sacana, bem que podia interferir e fazer-se também realizador.
As minhas narrativas paralelas são excitantes. Falam de proibições, de armadilhas, de conivência, de magia, de confronto, de castigo. Ao herói - que normalmente nem sou eu - acontece de tudo: a punição, a injustiça, o reconhecimento, a vitória, a partida, a transfiguração. Ao anti-herói acontecem as mesmas coisas, mas normalmente, à medida que se aproxima o clímax, as coisas não lhe correm muito bem. Claro está que isto é verdade nas minhas narrativas paralelas. Na esfera real a coisa é muito mais simples - a realidade raramente supera a ficção. Falta vigor aos gestos. Os personagens são indolentes, tímidos ou simplesmente não estão para se dar ao trabalho. As palavras são ocas. Os cenários são tudo menos cinematográficos. Os diálogos pobres. A banda sonora é uma mistura sem critério. O argumento é, vezes demais, banal. Os efeitos especiais são nada de especial. O guarda-roupa falha imensas vezes nos tamanhos - ora grande, ora pequeno. Sucedem-se os erros de raccord. E o casting, nem vale a pena começar a falar do casting.
A conclusão a que chego é que os tempos não estão para grandes épicos, hoje é tudo mais ou menos simples, minimal. É quase como se a vida fosse um filme de série B: tem o seu encanto, um infinito potencial, mas faz-se o que se pode com o que se tem. Mas isso não faz com que goste menos de hipérboles.

Sintaxe.

Era uma vez uma mulher tão exagerada, tão exagerada que se transformou numa hipérbole.

3 de janeiro de 2010

Surgiste de repente no meio de coisas proibidas.

Até no Correio da Manhã há poesia. A fé tem destas coisas.

2 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez uma mulher que gostava tanto das suas contradições que se transformou num oxímoro.

Da geologia. Ou do ano novo.

O meu primeiro dia do ano é sempre um espécie de ausência. Congelo o tempo, não aceito convites, não faço planos, deixo só o dia escorrer por entre as arestas e escarpas. Vou sempre ver o mar - não que faça disso uma espécie de tradição, mas acaba por acontecer, por mais voltas que dê - volto sempre ao ponto de encontro e constato que não fiz mais do que partir. Acabo por concluir que não se volta, nunca se volta. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba ao que se vai, nem como, nem porquê. Não há nunca regressos, o caminho muda de ano para ano: a erosão, os caminhos dos outros, a vegetação que progride, os sentidos proibidos. Tudo acontece entre parêntesis, de Janeiro a Janeiro, para nos lembrar que não podemos voltar ao lugar onde estivémos no ano anterior. E sentada a olhar o mar, a maldizer a minha incapacidade de me agasalhar convenientemente, fico com uma espécie de sorriso parvo, olhar perdido-encontrado. Deito um olhar vago às camadas geológicas dos meus verbos - querer, perguntar, ir, estar, fazer, morder, ler, escolher, viajar, descobrir, amar, escrever, arrumar, encontrar, morrer. Penso sempre na influência anímica que as palavras - minhas e dos outros - exercem sobre mim. Penso nos gestos mortos e enterrados, nas escolhas fossilizadas, sem retorno ou possibilidade de encontro. Sorrio à sorte que tenho em descobrir, volta não volta, um geodo - sempre me aconteceu, tropeçar inadvertidamente em coisas muito muito boas. Olho para os movimentos tectónicos do ano, de como pequenas coisas se fizeram coisas gigantes ou de como grandes movimentos trouxeram pequenos detalhes. Penso nos terramotos - reais e interiores - e chego novamente à conclusão de que são sempre bons, dei-me sempre muito bem com abalos profundos, saltos mortais, terra a tremer. E tal como a geologia serve para determinar a idade da terra, a minha geologia dá-me a medida exacta do tempo que passou. Deixa-me ver as camadas de registos mais ou menos sólidos do caminho que já percorri. No próximo Janeiro há mais. Nesta entrada a pés juntos no ano novo guardo a profunda convicção de que se avizinham erupções plinianas, de que me farei Vesúvio e Krakatoa. Isso eu sei.